HISTÓRIAS DE ESPIRITUALIDADE

HISTÓRIAS DE ESPIRITUALIDADE
A SABEDORIA DOS MESTRES

sábado, 10 de dezembro de 2016

MUHAMMAD NAQSHBAND – NO CAMINHO DO SUFISMO



Muhammad Naqshband afirmou que no início da sua viagem no Caminho do Sufismo, conheceu um apaixonado de Alá, que lhe pediu para tomar conta de alguns cães e que lhes pedisse auxílio. Disse-lhe:
- Por causa do teu serviço a um desses pobres animais, atingirás uma grande felicidade.
Naqshband contou:
- Tomei essa ordem com a profunda esperança de encontrar o cão e receber a graça, por via da dedicação.
Certo dia, que estava com os animais, senti que um dos cães estava num estado supremo de felicidade. Chorei junto dele, ao que se deitou sobre o lombo e levantou as patitas ao céu. Nisto, começou a emanar dele triste voz. Então, levantei as minhas mãos em súplica e comecei a dizer “Amin”, até que o cachorro se silenciou. Nesse momento, abriu-se-me uma visão, que me transportou a um estado onde senti que era parte de cada ser humano, e de cada criação neste planeta.




NASRUDIN INSATISFEITO COM O MUNDO



- Quando falecer como quer ser sepultado, Mullah?
- De cabeça para baixo. Neste mundo andamos sobre os pés, no próximo quero andar ao contrário.




MANTER O EQUILÍBRIO



Mestre e discípulo caminhavam há longas horas na direcção de um mosteiro vizinho ao seu.
O discípulo percorria a vereda em silêncio, mas pensativo. O Mestre percorria-a apenas.
Num dado momento, o discípulo interrompendo o silêncio perguntou:
- Mestre, como poderei eu encontrar o justo equilíbrio que fará com se extinga a ignorância, a ilusão e o sofrimento?
O Mestre permaneceu silencioso. O discípulo retornou com a mesma pergunta duas vezes mais.
Subitamente tropeçou numa pedra e estatelou-se no chão.
Disse o Mestre:
- Jovem, se não tens equilíbrio físico, se não consegues dotar as tuas próprias pernas da harmonia necessária para um caminhar seguro, como atingirás tu o equilíbrio que faz extinguir a ignorância, a ilusão e o sofrimento?




OS ERUDITOS SÃO LAVADEIRAS



No final de uma conferência na Faculdade de Filosofia, iniciaram-se os debates, tendo-se acendido intensa discussão metafísica.
Teorias desfilavam sem cessar. Ninguém deixava de demonstrar a sua erudição e os participantes embeveciam-se com as citações que proferiam.
O Mestre, que assistia com um discípulo disse:
- São como lavadeiras.
- Lavadeiras?!
- Sim, as lavadeiras têm sempre muita roupa nas suas casas. Só que não lhes pertence. Estes “eruditos” têm muitas doutrinas, teses e conhecimentos que também não lhes pertencem. Parecem cheios, mas estão vazios, ocos. São lavadeiras.




NÃO RECEBER OS INSULTOS



Buda partilhava os seus ensinamentos percorrendo a Índia. O Compassivo ensinava o Caminho da Libertação a todos os que se dispunham a ouvi-lo, nas cidades, vilas e povoados.
No entanto, em muitos lugares, era ultrajado, vilipendiado, mas jamais perdia a sua serenidade. A paz que emanava não era afrontada por quaisquer insultos.
Um dos discípulos que o acompanhava perguntou-lhe:
- Mestre, como podeis manter-vos imperturbável perante expressões tão injuriosas, actos tão reprováveis que vos atingem injustamente na vossa honra e consideração?
O Senhor Buda respondeu:
- Insultam-me, mas eu não recebo os insultos.




A VERDADE É INEXPRIMÍVEL



Um imperador era profundamente religioso, mas não professava nenhuma religião, não se atinha a qualquer método contemplativo em especial e não se subjugava a qualquer filosofia.
Para transmitir aos seus súbditos o facto de que a Verdade é inexprimível, pediu a um dos mais afamados escultores do império, que esculpisse uma estátua de rara beleza, que exprimisse a espiritualidade sem reservas, ou seja, sem quaisquer conotações limitativas da sua natural liberdade.
O escultor, durante meses talhou uma estátua de beleza inigualável e colocou-a num santuário construído para o efeito.
Logo que se abriram os seus portais, começaram as disputas, de que um dos ministros o informou detalhadamente:
- Majestade, no santuário há acesas disputas, insultos e agressões. Os hindus dizem que a estátua é de Krishna, os sikhs dizem que é do Guru Nanak, os muçulmanos asseveram que é de Maomé, os budistas garantem que é de Buda e os cristãos de Jesus. É grande e despropositada a agitação.
Depois de profunda, mas breve meditação, disse o imperador místico:
- Manda um esquadrão da minha guarda pessoal ao santuário. Ordena-lhes que dispersem os fiéis e que destruam a estátua. Encerrem também o templo, para que os operários o possam demolir. Este povo, apenas vê o resultado dos seus condicionamentos.




O SEM-SENTIDO DA VIDA – COMPREENDER O SENTIDO



O discípulo tinha estudado todas as filosofias, lido todos os filósofos mais marcantes e não encontrava sentido para a vida.
Angustiado, questionou o Mestre:
- Tem a vida sentido?
O Mestre respondeu:
- Os cedros ficam vermelhos no Inverno, os animais de carga recitam as escrituras, as nuvens tingem-se de verde, chove leite e a erva cresce viçosa para o interior da terra.
Volveu o discípulo:
- A minha pergunta prende-se com o sentido da vida. O que dizes não tem nenhum sentido.
O Mestre disse:
- São os olhos que falam e os lábios vêm.
- Tudo o que dizes não tem sentido.
Então, o Mestre disse:
- Como é que podes compreender o sentido da vida se não compreendes o seu sem-sentido?




O VERDADEIRO HOMEM DE ACÇÃO



Tseu-lu, questionou o Mestre:
- Se vos confiassem o comando de um grande exército, quem escolheríeis como segundo comandante?
O Sage disse:
- Eu não aceitaria o que sem armas defronta um tigre, nem o que atravessa um rio sem barca, nem o que se precipita para um perigo mortal sem que o seu coração esteja angustiado.
Escolheria, sem dúvida, o que planeia a batalha com prudência e sopesa as suas possibilidades antes de passar à acção.




É A MENTE QUE INVIABILIZA A ILUMINAÇÃO



Era um discípulo com pouca serenidade e paciência. Ansiava pela libertação, pela iluminação, mas quanto mais a desejava, mais longe do seu objectivo parecia estar.
Angustiado, dirigiu-se ao Mestre:
- Senhor, como poderei atingir a libertação?
- Não há nada que do exterior te possa aprisionar. É a tua mente que constrói os grilhões que te atormentam – respondeu o Sage.




ZEN - VER AS PESSOAS TAL QUAL ELAS SÃO



Tenkei foi indubitavelmente um dos maiores adeptos do Budismo.

A pedido de um dos discípulos escreveu o seguinte poema:

Quando nos sentimos a meditar,
Vemos as pessoas
Indo e vindo pela ponte da avenida
Exactamente como elas são.




QUAL A VERDADE? A NOSSA?



Nasrudin criticava as leis da cidade. Afrontavam a verdade, a autenticidade. O rei decidiu mudar a situação. A seguir ao portão de entrada ordenou a construção de uma forca com o seguinte édito:
- Todos serão interrogados. Quem falar verdade entrará, quem mentir morrerá.
Nasrudin, como sempre, foi o primeiro a entrar.
- Onde vai? – perguntou o chefe da guarda.
- Estou a caminho da forca – disse o Mullah.
- Não acredito.
- Muito bem, se estou a mentir enforquem-me.
- Mas se o enforcarmos por mentir o que disse será verdade.
- Então, descobriram a verdade, a vossa verdade.




DEUS NO NOSSO INTERIOR



Um discípulo disse:
- Mestre, ensinas que Deus está no nosso interior. Mas, como pode a vastidão, o incomensurável, estar no que é limitado pelo espaço-tempo?
- Vai ao Ganges e traz-me um litro de água – pediu o Mestre.
Quando o discípulo trouxe a água, o Mestre disse:
- Esta não é a água do Ganges!
- Como assim, Mestre, claro que é, fui eu mesmo que a recolhi?!
- Mas, onde estão os peixes, as tartarugas, os fieis que nele se banham, os monges que fazem abluções e os cadáveres que arrasta? Nada disto vejo nesta água. Vai e atira-a ao Ganges.
Quando o discípulo regressou, o Mestre disse:
- Agora, o teu litro de água misturado com a água do rio contém tartarugas, peixes e tudo o que antes não tinha. Essa é verdadeiramente a água do Ganges.




A AMPLIFICAÇÃO DO TEMPO



Um homem dirigia-se precipitadamente para uma localidade onde esperava realizar um bom negócio. Caminhava apressadamente pela margem de um rio; haviam-lhe dito que uns dois quilómetros a montante o conseguiria atravessar a vau. 
No entanto, a pressa dominava-o. Começou a construir uma jangada, o que lhe tomou mais de três horas.
Utilizando-a, atravessou para a outra margem.
Aí chegado o seu espírito começou a debater-se com um dilema: “Demorei cerca de três horas a construir esta jangada. Devo ou não abandoná-la?”
Decidiu carregá-la. A jornada era cada vez mais penosa. O peso parecia amplificar gradualmente e o seu esforço era imenso. O trajecto tornou-se insustentável e o tempo amplificou-se. 




AMAR VERDADEIRAMENTE A VERDADE



- Mestre, conheces alguém que ame verdadeiramente a verdade ou que abomine verdadeiramente o vício?
Confúcio respondeu:
- Nunca vi um homem que ame verdadeiramente a verdade ou que odeie verdadeiramente o vício.
Se alguém amar a virtude por nada a trocará.
Se detestar o vício, devotar-se-á à virtude a ponto de o vício nada poder contra ele.
Se se perguntar: haverá um homem, que durante um só dia empregue todas as suas forças para atingir a virtude, responderei: jamais vi um homem cujas forças não bastassem para isso. Mas, pode ser que um tal homem exista, mas nunca o encontrei.




VIVER E ENVELHECER SEM FAZER NADA



Enquanto esperava que o Mestre chegasse, Yuan Jang estava sentado de braços caídos e pernas afastadas.
Ao vê-lo, o Mestre disse:
- Aquele que na sua adolescência não respeita as grandes almas para nada serve quando se torna homem.
Aquele que vive e envelhece sem fazer nada, torna-se num fardo morto para a sociedade.
Nisto, deu-lhe uma bastonada na coxa. 




O TESOURO QUE NUNCA SE PERDE



Um homem enterra um tesouro num poço profundo, e pensa:
“Ser-me-á útil em tempos mais difíceis, se o rei ficar de mal comigo, se for roubado, se tiver dúvidas, se a comida faltar ou se a má sorte vier.”
Mas, esse tesouro pode nunca chegar a beneficiar o seu proprietário, se ele se tiver esquecido onde o enterrou, se os salteadores lho levarem, ou se inimigos ou até parentes lho tomem, enquanto distraído. Mas, graças à caridade, à bondade, à moderação e ao controlo de si próprios, os homens e as mulheres podem acumular um tesouro secreto, que não pode ser dado a outros e que os ladrões não podem roubar. Uma pessoa sábia pratica o bem e possui um tesouro que nunca perde.




A RIQUEZA DOS MENDIGOS



Dois mendigos bateram à porta de um rabino. O seu aspecto era miserável, denotando fome e sofrimento. Pediram-lhe por amor a Deus, que lhes desse algo para comer, já que há vários dias só haviam ingerido água e um pequeno pedaço de pão duro.
Disseram:
- Rabi, dá-nos algo para comer. Morremos de fome. Apenas temos este pequeno saco de trigo.
O rabino, compassivo, sentou-os à mesa e alimentou-os condignamente, como a quaisquer outros convidados. Saciados, agradeceram reverencialmente e pediram para que lhes guardasse o pequeno saco de trigo, ao que este acedeu.
O tempo passava e os mendigos não voltavam. O rabi pensou:
- Mais dia, menos dia, os ratos irão descobrir este trigo. Melhor será semeá-lo.
Então, semeou-o e ceifou-o no tempo próprio. E assim fez, por vários anos, até que o celeiro já não comportava mais cereal.
Um dia, os mendigos voltaram mais esfomeados do que antes, pedindo comida. O rabi conduziu-os ao celeiro e mostrando-lhes o trigo amontoado, disse:
- Tomem posse da vossa riqueza.




SUPERAR AS QUALIDADES DO COMUM DOS MORTAIS



- Mestre, conheceis alguém cujas qualidades superem a do comum dos mortais?
Confúcio respondeu:
- Que qualidades sublimes as de Yen Huei!
Ninguém como ele se contenta com tão pouco: arroz e água, e em pequenas quantidades, o essencial à sobrevivência. Habita numa ruela sórdida e estreita.
Outros não suportariam esta vida de miséria; mas ele está sempre contente com a sua sorte! Que carácter extraordinário!




DE LADRÃO A APRENDIZ DE SANTO



Um ladrão indiano entrou em magnificente propriedade vedada com o intuito de se introduzir na mansão para furtar.
Mas, mal saltou o muro, os cães do proprietário rodearam-no, ladrando de modo feroz, ameaçando despedaçá-lo.
Lembrou-se das palavras de um seu antigo mestre da arte, e vendo um monte de cinzas, espalhou-as pelo corpo e sentou-se imóvel, em estado similar ao de meditação.
Alertados pelos cães de guarda, os possuidores da casa apareceram acompanhados dos seus servos, espantando-se com a presença de tal homem. 
O dono disse:
- Este é sem dúvida um homem santo, a quem os cães nem ousaram tocar e se mantém impassível meditando. É uma grande honra o facto de ter escolhido a nossa humilde casa.
Quando o “santo ladrão” partiu, cobriram-no de presentes e pediram-lhe com reverência que intercedesse por eles junto dos deuses.
Ao partir, o ladrão pensou:
- Se por imitar a santidade fui assim tratado, recebendo tantos e tão valiosos presentes, talvez persistindo em verdade venha a receber a presença do próprio Deus.




AS NOSSAS VIDAS SÃO MAIS IMPORTANTES DO QUE BENS E LUCROS



Num porto comercial dos mares da China, múltiplos navios carregados de mercadorias preparavam-se para partir.
Os comerciantes foram avisados de que no mar se havia formado uma terrível tempestade, com ventos demoníacos e vagas alterosas.
Todos decidiram e convenceram os capitães dos navios a partir com as suas preciosas cargas e lucros chorudos. Afinal não era essa a sua profissão, o seu mester? Não tinham já enfrentado centenas de temporais?
Apenas um, disse:
- Capitão, sei que tens compromissos inadiáveis, que temos de nos aventurar no oceano, mas prefiro que não arrisquemos. Descarreguemos, pois, as mercadorias, já que as nossas vidas são bem mais importantes do que os bens e do que o lucro.
Os navios fizeram-se ao mar. No meio de grande tormenta, apenas o que não estava carregado conseguiu resistir, afundando-se todos os outros, com homens, bens e ambições.