HISTÓRIAS DE ESPIRITUALIDADE

HISTÓRIAS DE ESPIRITUALIDADE
A SABEDORIA DOS MESTRES

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A ILUSÃO NUM MUNDO ILUSÓRIO



O Mestre repetia com uma frequência invulgar:
- Neste mundo vigora a ilusão. Mantenham a vossa mente em equilíbrio e sejam equânimes. 
O filho do Mestre faleceu, e este chorava copiosamente. Um dos discípulos, intrigado, não se conteve:
- Se sempre nos ensinastes que tudo é ilusório, porque motivo choras?
Respondeu:
- Choro pela terrível ilusão de perder um filho neste mundo ilusório.




BUSCAR O QUE JÁ SE POSSUI



Existiu um homem que ouvira falar na preciosa madeira de sândalo. Nunca tinha visto tal madeira, nem cheirado o seu aroma.
Começou a pedir a todos os seus amigos e conhecidos que lhe conseguissem um pedaço. A obsessão era tão grande, que escreveu cartas para alguns que residiam em países distantes.
Um dia, ao escrever um dos muitos bilhetes, completamente absorto, começou a desfazer com os dentes o pequeno pedaço de lápis que vinha utilizando há largos meses. Um doce aroma exalava da madeira roída. Era sândalo!




POSSUIR ALGO ÚNICO PELO QUAL TUDO SE EXPLICA



O Mestre disse a um dos seus discípulos:
- Tomas-me provavelmente por um homem que estuda e assimila muitas coisas?
O discípulo respondeu:
- E não é isso?
O Mestre respondeu:
- De modo nenhum, bom jovem, eu possuo algo único pelo qual tudo se explica.




BUDA E O SENHOR DA MORTE



Ao sábio que tudo vê, que vê o bem e o que é bom por natureza, formulei a seguinte pergunta:
- Como pode alguém olhar o mundo e não ser visto pelo senhor da morte?
- Olha o mundo como vazio, Mogharagan e está sempre desperto – disse o Senhor Buda. 
Continuou: 
- Tendo destruído a visão do eu como tendo existência real, pode ultrapassar-se a morte. O senhor da morte não verá a pessoa que olha assim o mundo.




ENTRAR EM CONTACTO COM A DIVINDADE



Um iogue indiano não conseguia, malgrado todos os seus esforços, entrar em contacto com a divindade.
Assolado pelo desespero, jurou:
- Senhor Deus, caso não te manifestes nos próximos três dias, juro por tudo o que de mais sagrado é, que sois Vós, que não comerei nem um pedaço de pão.
Durante os três dias seguintes, o religioso viu uma mendiga, um louco e um cão vadio escanzelado.
No quarto dia, apareceu-lhe então a divindade, tendo o iogue dito:
- Finalmente Senhor, visitaste-me.
- Enganas-te criatura, Visitei-te antes, por três vezes, e não me reconheceste. Eu era a mendiga, o louco, o cão vadio.




O VALOR DAS PARÁBOLAS E DAS ADMOESTAÇÕES



O Mestre disse aos seus discípulos:
- Quem não escutará as palavras de uma admoestação? Contudo, o essencial não reside nessas palavras, mas no seu poder de melhorarem a conduta de um homem.
Quem não se alegra quando escuta uma parábola? Contudo, o essencial não está nas parábolas, mas nos preceitos morais que lhe são inerentes e que estão parcialmente escondidos.
Nada há a fazer com o que escuta, mas não muda de conduta, nem com o que se alegra, mas não se torna melhor.




O SALTEADOR, O BÊBADO E O IOGUE



Um homem estava deitado na berma de um caminho. Estava coberto de pó.
Passou um salteador e pensou:
“Provavelmente é um colega de profissão. Será melhor desaparecer daqui rapidamente, antes que a polícia chegue, e acabe também por me prender a mim.”
Pouco depois, um bêbado, inebriado, rodopiando e cambaleando, acercou-se do homem estendido na berma, e olhando demoradamente como quem não entende mas finge perceber, disse:
- Vês o que acontece a quem bebe demais? Para a próxima bebe menos.
Por último, acercou-se dele um iogue:
“Este homem está em transe. Vislumbro um êxtase celestial. Vou meditar junto dele.”




O CAMINHO PARA A VERDADE – QUANDO COMO, COMO, QUANDO REPOUSO, REPOUSO



Perguntou o discípulo ao Mestre:
- Qual foi o teu caminho para a Verdade, para o Absoluto?
- Quando como, como; quando repouso, repouso - respondeu o Mestre.
- Mas, Mestre, isso todos nós fazemos, mesmo os que na vida não têm aspirações para além das que os bens materiais alimentam.
- Não, não é como dizes. Essa gente de que falas, quando come tem o seu espírito absorvido por múltiplas questões, por futilidades, e quando dorme, vagueiam no seu cérebro universos imaginários. Por isso, quando comem não se limitam a comer e quando dormem não se limitam a dormir.
Eu, quando estou a comer, estou realmente a comer e quando durmo estou realmente a dormir.
É esse o meu caminho para a Verdade – finalizou o Mestre.




MESTRE GAZANE E A QUALIDADE DOS DISCÍPULOS



Mestre Gazane costumava dizer:
“Um mau discípulo usa a influência do seu Mestre.
Um discípulo razoável admira a bondade do seu Mestre.
Um bom discípulo fortalece-se sob a disciplina do seu Mestre.”



SE ENCONTRARDES O BUDA, MATA O BUDA



O Mestre disse:
Se encontrares o Buda, mata o Buda.
O importante é a nossa experiência pessoal.
Ouve apenas a voz dos pinheiros e dos cedros quando não há vento.




UM INSULTO É COMO UMA OFERTA – SE A NÃO RECEBERDES PARA QUEM RETORNA?



Houve em tempos um grande guerreiro. Agora, estava velho, mas ainda manejava a espada com uma destreza fora do comum. Depois dele, apareceu um jovem lutador, tão exímio com as armas, que ninguém o conseguia vencer, intimidando apenas, com a pronúncia de seu nome.
O jovem chegou ao lugarejo onde habitava o velho guerreiro, desafiando-o. Ele iria ofendê-lo fazendo com que perdesse toda a concentração, e nesse momento, com um único e certeiro golpe, aniquilá-lo-ia.
O velho guerreiro aceitou o desafio, não obstante os pedidos insistentes dos seus discípulos para que o não fizesse.
Encontraram-se frente a frente na rua principal. O guerreiro desafiante insultava com veemência o velho sábio. Os insultos sucediam-se em cascata, e eram dos mais terríveis que ouvido humano alguma vez ouviu. Cuspiu-lhe no rosto por mais de uma vez.
O velho guerreiro manteve-se imóvel e sereno. Tal era a sua serenidade que o jovem desesperado abandonou o local do duelo, constrangido e envergonhado.
Os discípulos perguntaram-lhe:
- Como suportou tantos insultos? Como é que o conseguiu derrotar, sem sequer se mover?
Respondeu:
- Quando alguém intenta ofertar-vos algo, e vós não recebeis, para quem retorna essa oferta?




NASRUDIN E O MISTICISMO PRÁTICO



Nasrudin viajava na Índia. Sentado à porta de uma gruta no isolamento da montanha estava um homem em profunda meditação.
Nasrudin interpelou-o:
- Penso que em algo somos parecidos. Sou um devoto, dedicado ao Criador.
- Eu sou um iogue. Dedico-me aos seres sensíveis. Tenho especial afeição por aves e peixes.
- Bem me parecia – disse Nasrudin –, um dia um peixe salvou-me a vida. Permiti que convosco fique uns dias.
- Certamente. Por serdes um devoto e pela vossa suma experiência que muito me compraz.
O iogue foi ensinando o Mullah na arte da meditação, exercitando-o em métodos diversos, até que um dia, depois de o doutrinar lhe pediu para narrar o episódio do peixe.
- Conhecendo agora vosso pensamento não sei se vos satisfará a minha narrativa – disse Nasrudin.
- Insisto – volveu o iogue.
- Bom, estava eu morrendo de fome sem comer havia dias, até que um peixe do rio com as mãos pesquei e com ele por três dias me alimentei.




O QUE É NA REALIDADE UM SÁBIO?



- Mestre, perguntam-me o que é na realidade um sábio. A minha ignorância não me permite responder. Por um lado, parece que uma frase bastaria para o definir, depois, o espírito espraia-se em centenas de dissertações, que julgo inúteis e que preencheriam um livro imenso.
O Sage disse:
- É um homem que tem uma tal sede de aprender, que se esquece de comer; a sua vontade é férrea e esquece-se de dormir; deleita-se tanto no estudo que as suas tristezas desaparecem e não se preocupa em momento algum com a velhice que se aproxima. Nem uma palavra mais.




O QUE É A PIEDADE FILIAL?



- Tseu-Yeu, perguntou:
- Mestre, que é a piedade filial?
Confúcio respondeu:
- Nos nossos dias não temos em matéria de piedade filial, senão o cuidado de alimentar os pais. Mas, os cães e os cavalos também são alimentados. No momento em que os não venerarmos condignamente, em que é que estes ultrapassam o respeito que dedicamos aos animais?




A CIDADE SITIADA



Houve em tempos uma cidade sitiada, estando no castelo mais de meio milhar de pessoas.
Havia meses que o exército inimigo a cercava, procurando a rendição por via da carência de bens essenciais.
Para alimentar tantas almas, restava apenas um vitelo.
Os sitiados dirigiram-se ao alcaide suplicando-lhe a rendição, posto que, se o não fizesse todos estariam votados à morte pela fome.
O alcaide não lhes deu ouvidos, e ordenou perante a estupefacção geral, que o vitelo fosse arremessado para a linha da frente das tropas inimigas.
Quando o animal caiu, o general disse para os seus adjuntos:
- Não vale a pena continuar o cerco. Estamos a desgastar-nos. Se se desfazem assim de um vitelo, qual não será a quantidade das suas provisões?




NASRUDIN E O SALTEADOR



Nasrudin dispôs-se a realizar longa viagem para visitar um amigo que não via há anos.
Preparou uma espécie de pequena mochila, que teria de ser carregada às costas e muniu-se de um sabre e de uma lança.
Durante o percurso, foi acossado por um salteador, que com um simples arrocho o subjugou, deixando-o sem quaisquer dos bens que transportava, incluindo a própria camisa.
Chegado à cidade donde partira sem cumprir o objectivo determinado, contou aos presentes a desgraça que lhe havia acontecido, sem omitir qualquer pormenor.
Um dos presentes não se conteve:
- Nasrudin, como é que um homem armado de sabre e lança se deixou maniatar por um ladrão armado com um simples garrote?
Nasrudin respondeu convicto:
- Há aqui um problema que não estás a considerar e que é absolutamente determinante, meu bom amigo. Se eu tinha as duas mãos ocupadas, a direita com o sabre e a esquerda com a lança, diz-me tu como poderia eu servir-me delas?




COMO WUZU SE TORNOU NUM MESTRE ZEN



Perguntaram a Wuzu:
- Como é que te tornaste num Mestre Zen?
Wuzu respondeu:
- Para ser um Mestre Zen é imperativo desviar do seu caminho o boi do lavrador, e roubar a comida do homem esfomeado.
- Não entendo.
- Quando desviares do seu caminho o boi do lavrador, isso faz com que as suas culturas sejam abundantes.
Quando roubares a comida ao homem esfomeado, isso liberta-te da fome para sempre.




QUE NÃO SINTAS O MENOR DESEJO DE PECAR



- Mestre, se cumprir o que foi dito pelos Antigos, se respeitar as trezentas odes do Livro das Odes, poderei ser considerado um homem justo? 
Confúcio, respondeu:
- Há efectivamente trezentas odes no Livro das Odes, mas uma única frase pode resumi-las todas: que não sintas o menor desejo de pecar.





A ILUSÃO QUE CAUSA A MORTE



Raiava a aurora. A porta do templo estava completamente aberta para a oração da manhã.
O templo tinha uma particularidade interessante: todas as paredes estavam cobertas com espelhos. Por outro lado, no centro, em pequena jarra, uma rosa lindíssima colhida nessa mesma madrugada. A rosa reflectia-se em praticamente todos os espelhos.
Uma pomba entrou pela porta, e no interior do templo, em completa desorientação, vendo a rosa reflectida, lançava-se obstinadamente contra os espelhos, na ilusão de voar para o exterior do local onde inadvertidamente havia entrado.
Os choques múltiplos, de extrema violência, fizeram com que contraísse inúmeros traumatismos, acabando por se finar junto da rosa verdadeira.




BURRO OU CAMPONÊS



Numa vila próxima da de Nasrudin, havia uma famosa feira de burros. Os camponeses das redondezas acorriam na expectativa de fazer um bom negócio.
Numa tenda onde se juntavam para comer e beber, alguém disse:
- Venho há anos a esta feira. Nada muda, aqui só há burros e camponeses, nada mais para além disso.
Nasrudin saiu da tenda e num aglomerado que examinava um belo exemplar de burro à venda, descortinou um homem, que pelas suas vestes não parecia agricultor ou camponês. 
Perguntou-lhe:
- És camponês?
- Não, não sou – respondeu o homem.
Nasrudin disse em tom irónico:
- Está tudo dito, não me digas mais nada...