HISTÓRIAS DE ESPIRITUALIDADE

HISTÓRIAS DE ESPIRITUALIDADE
A SABEDORIA DOS MESTRES

sábado, 7 de maio de 2016

A ESSÊNCIA DO DESTINO



Diz-me Mullah:
- Qual a essência do destino, qual o seu significado?
- Meras suposições... – respondeu Nasrudin.
- Em que sentido? Não entendo a sua afirmação.
- Cada um supõe que tudo irá correr bem, mas não corre. A isto chamamos azar.
Que tudo irá correr mal, mas não corre. A isto chamamos sorte.
Supomos que algo irá acontecer ou que tal não acontecerá. Mas não sabemos de verdade o que a realidade nos trará.
Enfim, supomos que o futuro é imprevisível e desconhecido. 
Quando ocorre ser surpreendido no meio de tanta suposição você chama-lhe destino.




CONFÚCIO - TER RENOME OU SER DISTINTO



Tseu-tchang perguntou:
- Quem podemos considerar como oficial distinto?
O Mestre respondeu:
- E, que significado tem para ti a palavra “distinto”?
Tseu-tchang disse:
- Aquele cujo nome é tão grande na sua família como no país em que vive.
O Mestre disse:
- Ter renome, não é sinónimo de que se seja distinto. Para que se chegue a essa elevação, é necessário que se tenha um carácter leal, que se ame a justiça, que se seja prudente quando se fala, atento às suas atitudes, sejam elas quais forem, modesto e humilde. A distinção de tal homem será reconhecida tanto no país como na própria família. Quanto ao “renome”, até um homem que finja procurar o bem, iludindo os outros, mesmo quando as suas acções sejam contrárias, e que procure impor-se sem cessar, pode alcançar “renome” no seu país e na sua casa.




O PERFUME DE TAHAR



Um homem de nome Tahar, trabalhava há largos anos nos esgotos da cidade. Sempre o mesmo trabalho, sempre o mesmo cheiro.
Certo dia, terminada a jorna, caminhou por uma rua onde uma loja que exalava estranhas fragrâncias lhe chamou a atenção. Era uma perfumaria.
Entrou, e muito compenetrado foi cheirando alguns dos muitos frascos expostos. Nunca tinha sentido o odor de tais substâncias. Os aromas inebriavam-no.
Passados alguns minutos, a cabeça começou a rodopiar em tenebrosa vertigem e desmaiou. Tudo foi feito para o fazer retornar ao estado de consciência, mas em vão.
Como nada fosse conseguido, deliberaram os presentes avisar o pai de Tahar, narrando-lhe o sucedido.
Este correu para a perfumaria onde o filho jazia inconsciente. Tirou do bolso uma pequena caixa, contendo restos de fezes e fez com que o seu filho aspirasse o odor fétido que exalava.
Quase de imediato, Tahar recobrou a consciência.




A FALSA SANTIDADE



Um trabalhador indiferenciado percorria a cidade procurando trabalho. Há mais de um mês que não tinha modo de subsistência e a fome fazia-se avizinhar na família.
Encontrou um idoso a quem confidenciou a terrível situação em que se encontrava, que lhe disse:
- Estás perante um santo, um escolhido de Deus. Se me hospedares em tua casa, se cuidares de mim como Deus designou, nem tu nem a tua família terão fome em momento algum, bem pelo contrário, a sorte e a graça do Senhor irão abençoar-vos.
O trabalhador desempregado confiou nas palavras do “santo” e acolheu-o de imediato, não obstante os violentos protestos de sua mulher.
O hóspede comia em excesso, mais parecendo um jovem com fome canina. Em poucos dias desapareceram os alimentos armazenados na despensa e a mulher não se conteve:
- Esse homem tem um apetite voraz e tu és um imbecil crédulo. Em poucos dias delapidou os escassos alimentos que guardámos para suprir as nossas necessidades. Vai e despede-o imediatamente.
Sem alternativa, dirigiu-se ao ancião que ainda dormia, dizendo:
- Desculpa-me, nada posso fazer. O galo já canta, o dia começa e nada temos para comer. Tens de partir agora mesmo.
- Enganas-te - respondeu o velho manhoso - ainda podemos cozinhar o galo. 




OS JUSTOS VOLTAM AS COSTAS AO MUNDO



Confúcio disse:
“Os justos voltam as costas ao mundo; os que estão num grau mais baixo, voltam as costas à sua pátria; e os que estão num grau ainda mais baixo, voltam as costas à sua palavra.”




O FILHO DE BUDA



Cinco anos após ter abandonado a sua mulher, esta dá à luz um filho, e atribui a paternidade a Buda, seu esposo.
Não houve quem em tal facto se acreditasse, que apenas um milagre explicaria.
Quando Buda retornou, disse:
- Houve efectivamente um milagre. Este menino é meu filho, e irei demonstrá-lo.
Nisto, tirou o seu anel que entregou à esposa, dizendo:
- Vai e entrega este anel ao menino. Ordena-lhe que o entregue ao pai.
Antes que o menino chegasse á sala de cerimónias, Buda transformou todos os presentes, duas mil almas, à sua imagem e semelhança. Na sala estavam dois mil budas.
Quando a criança entrou, acompanhado pela mãe, dirigiu-se sem hesitações ao Buda verdadeiro, seu pai, e entregou-lhe o anel, tal como lhe havia sido ordenado por sua mãe.
Buda disse:
- Este é o meu filho, carne da minha carne e espírito do meu espírito.




AS MIL E UMA PORTAS DO PALÁCIO INTERIOR



Existiu outrora um excêntrico rei que ordenou a construção de um magnificente palácio, no qual apenas se podia entrar por uma pequena porta. Todos os que visitavam o palácio não o conseguiam ver, já que depois de transposta a minúscula porta de entrada, abriam-se milhares de outras portas, que conduziam a inultrapassáveis labirintos.
Um dia, o príncipe dirigiu-se ao palácio para visitar seu pai. Entrou pela porta pequena e tomou consciência imediata de que todas as outras eram o reflexo de uma única, que abriu, entrando directamente nos aposentos do rei seu pai. 






O CAMINHO CORRECTO



- Mestre mostra-me o caminho correcto.
Confúcio disse:
- A deferência que ultrapassa a medida degenera em trabalho árduo.
A prudência que ultrapassa a medida degenera em cobardia.
A fortaleza que ultrapassa a medida degenera em insubmissão.
A franqueza que ultrapassa a medida degenera em insolência.
Um homem nobre que não esquece o seu dever para com os seus pais encoraja o povo a fazer o bem. Se ele não voltar as costas aos seus antigos camaradas, não encorajará a versatilidade do povo.




O COSTUME DE DORMIR DURANTE O DIA



Tsai Yu tinha o costume de dormir durante o dia.
O Mestre disse:
- Para que serve esculpir madeira apodrecida? Para que serve repreender Yu? Outrora eu ouvia as palavras dos homens e acreditava nas suas promessas. Agora, não me contentam, mas presto atenção às suas acções. 
Foi Yu que me fez mudar.




NASRUDIN E A DOAÇÃO EM SONHO



Nasrudin tinha um filho. Numa das muitas visitas que lhe fazia, disse a seu pai:
- Meu pai, esta noite tive um sonho extremamente agradável. Sonhei que me havias dado cem moedas de prata.
Nasrudin, com ar pleno de circunspecção, disse:
- Tens sido um bom filho. Ninguém pode desejar mais, reconheço. Não tens vícios, és respeitador e sensato. Deste modo, fica em descanso que as cem moedas que te dei no sonho são tuas, não te pedirei a sua restituição. Vai e compra com elas tudo o que te aprouver.




NASRUDIN, O JUMENTO E A LENHA



Nasrudin, instado pela mulher foi à floresta buscar lenha para o fogão. Depois de ter junto um bom braçado, colocou-o às costas atado com um nagalho e montou no jumento.
No caminho, os transeuntes riam-se de tal figura: um homem com lenha às costas, montado num asno. Asno sobre asno - pensavam.
Alguns diziam:
- Porque é que carregas nas tuas costas a lenha, quando a podias carregar no burro? De que te serve a cabeça, apenas para usar chapéu? Não pensas pobre homem?
Nasrudin, agastado, respondeu:
- Como sois parcos de vista e lerdos de espírito. Não basta a este pobre animal que eu o monte, para que tenha ainda que suportar o peso da lenha. Poupo-o a um peso suplementar.




NGAI, TSAI NGO E CONFÚCIO – NÃO CONDENEMOS O PASSADO



O príncipe Ngai perguntou a Tsai Ngo:
- Como se constroem altares à terra?
Tsai Ngo respondeu:
- Os reis da casa Hia plantavam pinheiros perto dos seus altares. Os Yin plantavam ciprestes e os Tcheu castanheiros para que o povo tremesse de medo.
Confúcio, então, disse:
- Não discutamos o que já está feito, não censuremos o que está acabado e não condenemos o que pertence ao passado.




DOM DE CRIANÇAS



Um grupo de crianças brincava na praia com gaivotas. Era uma delícia observar como sem medo, elas pousavam nos seus ombros, braços e mãos. Uma ou outra aterrava nas suas pequenas cabeças e amorosamente bicavam-nas com leveza, como quem beija.
O pai de uma delas, tendo conhecimento do ocorrido, disse-lhes:
- Sei que brincastes com gaivotas. Tragam algumas para que também eu possa brincar.
No dia seguinte, pela manhã, os petizes dirigiram-se à praia, mas nenhuma se aproximou. 




O CAMINHO DO MISTICISMO



Depois de muito caminharem, sem abrigo à vista, enfrentando o frio e a neve, perguntou o discípulo:
- Para onde vamos, Mestre?
Respondeu o Mestre:
- Já lá estamos!




PALAVRAS DE TAN-LIN DISCÍPULO DE BODHIDHARMA



Tan-Lin, discípulo de Bodhidharma, disse:
“Os sábios não poupam o seu corpo, nem os seus bens, e nunca se cansam de ser generosos. São independentes e sem apegos.
Não se deixam enganar pelas aparências, e praticando as seis perfeições – compaixão, moralidade, paciência, energia, meditação e sabedoria transcendente –, não as usam em proveito próprio. Assim, sem pensar nisso nem lhe atribuir nenhum mérito, vivem no Amor de todas as criaturas, tranquilos, unidos em harmonia com o Dharma – a lei, a virtude e o bem.”




NÃO FALAR DA VERDADE...



Um discípulo perguntou a Nasrudin:
- O que é a verdade? Em que consiste? Qual a sua essência?
- É algo de que nunca falei nem falarei - respondeu.




NASRUDIN E O ÓBVIO



Nasrudin embrulhou um ovo num lenço e na praça do vilarejo juntou o povo.
- Hoje vou pôr-vos à prova. Que todos concorram. Quem descobrir o que está dentro do lenço recebe o ovo que está lá dentro.
O povinho começou por afirmar a sua ignorância. Ninguém se sentia capacitado para presságios, adivinhações.
Volveu Nasrudin em tom de auxílio:
- O que está no lenço é amarelo no centro tal como a gema. O centro está envolvido por um líquido de cor clara. Ambos dentro de frágil casca. Tem como símbolo a fertilidade. Evoca pássaros e seus ninhos.
Alguém sabe?
Ninguém havia que num ovo não pensasse.
Mas, resposta óbvia... Um místico não o faria. Talvez o Sol, talvez uma energia, um objecto mágico. Quem o diria?!
Nasrudin questionou-os uma vez mais.
Ninguém teve a ousadia de responder.




NASRUDIN E A TRIBO SANGUINÁRIA



- Estive no deserto e aí fiz correr para valer uma tribo sanguinária – disse o Mullah.
- Como é que conseguiu? - perguntaram os presentes.
- Simples. Corri, e eles atrás de mim - respondeu Nasrudin.




NÃO PEDIR CONSELHOS



Nasrudin iniciou a construção de uma casa. Seus amigos, artistas, pedreiros, carpinteiros, arquitectos e engenheiros, todos o envolveram em conselhos.
Todos lhe diziam exactamente o que fazer.
Nasrudin, feliz, seguiu as instruções.
Terminada a construção com tudo se parecia menos com uma casa, nada tinha a ver com uma habitação.
- Curioso - disse Nasrudin -, fiz com exactidão tudo o que cada um me disse para fazer.




O PAU E A SERPENTE



Nasrudin transportava consigo um antídoto contra mordedura de serpente.
Estranhando-o um aldeão perguntou:
- Para quê esse contraveneno?
- Sabe como é perigoso – respondeu. Peguei num pau e julguei tratar-se de uma cobra.
- Por amor de Alá, um pau não o picaria nem morderia.
- Sim?! E a serpente que agarrei para me defender do galho? – respondeu Nasrudin com alguma indignação.




NASRUDIN E A RECOMPENSA



Nasrudin tinha boas novas para o Rei. Depois de grande dificuldade e paciência conseguiu a almejada audiência.
O Rei agradecido disse:
- Nasrudin escolha a sua compensação.
- Cinquenta chicotadas – peticionou Nasrudin.
Surpreso e abismado ordenou o Rei o cumprimento do peticionado.
Aplicadas que estavam vinte e cinco, o Mullah anunciou:
- Alto lá! Tragam agora o meu parceiro. Que receba metade da promessa.
- Quem e porquê? - perguntou o Rei.
- O camareiro real. Permitiu ver-vos sob o juramento de que com ele dividiria metade da recompensa. Cumpra-se a palavra que é lei.




BUDA E ANANDA - A VIDA SANTA



O Venerável Ananda aproximou-se do Senhor Buda, prosternou-se e sentou-se ao seu lado. Depois de sentado, Ananda disse a Buda:
- Parte desta vida santa, Senhor, consiste em termos amigos nobres, companheiros de bem e em nos associarmos com os bons.
- Não digas isso, Ananda. Não digas isso. Toda a vida santa consiste nesta amizade, neste companheirismo, nesta associação com os bons – replicou Buda.




BUDA - OS ELOGIOS



Certo dia, Buda prontificou-se a instruir os monges, dizendo:
“Se alguém exterior à comunidade falar contra mim, contra o ensinamento ou contra a comunidade, não se aborreçam, pois isso é um verdadeiro antídoto contra a vossa presunção.
Do mesmo modo, não se deixem perturbar pelos elogios.
Devem distinguir a verdade da mentira e tomarem conhecimento do facto em si. Mesmo os elogios que os homens não convertidos fazem de mim, têm muito pouca importância.
Se alguém se dispuser a admoestar outrem, deve possuir cinco qualidades para que o possa fazer: 
Falar no momento adequado e não fora de propósito;
Falar com verdade, sem recurso a quaisquer falsidades;
Falar com doçura e sem aspereza;
Falar para seu bem, e não para seu mal;
Falar com boa intenção e sem cólera.”




REGRAS DE SOIENE CHACU



De manhã, antes de nos vestirmos, acender incenso e meditar.
Recolher-se sempre à mesma hora.
Comer a intervalos regulares, com moderação e nunca até à saciedade.
Receber um convidado com a mesma atitude que se tem quando se está só.
Quando sozinhos manter a mesma atitude que se tem quando se recebe um convidado.
Prestar atenção ao que se diz e diga-se o que se disser, praticá-lo.
Quando surgir uma oportunidade, nunca a perder, mas pensar sempre duas vezes antes de agir.
Não lamentar o passado.
Ter a atitude destemida de um herói, o coração terno de uma criança.
Depois de recolher, dormir como se se tivesse entrado no último sono.
Ao acordar, deixar de imediato a cama para trás, como quem deita fora um par de sapatos velhos.




IZU, HAKUIN, E A IGNORÂNCIA ZEN



Izu foi discípulo do grande Mestre Zen Hakuin, herdando os seus modos severos e drásticos. Dizia-se que era mais rigoroso do que o próprio Hakuin.
Quando recebia pessoas que o interrogavam sobre o Zen, e se mostravam hesitantes ou ignorantes, expulsava-as com uma espada desembainhada que para o efeito colocava junto ao seu assento.





BANKEI E A ARTE DA MENTE ZEN



Um homem importante recorreu a Bankei, interrogando-a quanto à arte da mente zen.
Bankei repreendeu-o:
- Fizeram-me constar que despediste um leigo sábio porque não soubeste reconhecer o seu valor. Como podes tu criatura, interrogar-me acerca da arte da mente zen?!




O-SAN NO LEITO DE MORTE



O-San estava no seu leito de morte, rodeada pelos filhos. Estes esperavam ouvir da sua boca as últimas palavras.
O-San recitou um poema:

Neste mundo
Em que as palavras não permanecem de todo,
Como o orvalho não permanece
Nas folhas,
O que hei-de eu dizer
Para a posteridade?




PARÁBOLA SOBRE A ORAÇÃO



Disse-Lhes Jesus:
“Se algum de vós tiver um amigo e for ter com ele à meia-noite e lhe disser: Amigo, empresta-me três pães, pois um amigo meu chegou agora de viajem e não tenho nada para lhe oferecer, e se ele lhe responder lá de dentro: “não me incomodes, a porta está fechada e os meus filhos estão comigo na cama, não posso levantar-me para tos dar.” Eu vos digo: Embora não se levante para lhos dar por ser seu amigo, ao menos levantar-se-á, devido à impertinência dele, e dar-lhe-á tudo quanto precisar.”

Lc. 11, 5-8




AO SERVIÇO DO SENHOR - O PAGAMENTO DE ALÁ



A mulher de Nasrudin insistia para que este trabalhasse.
- Não posso – dizia -, estou ao serviço do Senhor.
- Peça-lhe então um salário; todo o trabalhador tem direito a ser justamente remunerado.
Nasrudin foi para o jardim e bradava aos céus:
- Pagai-me Alá, por todos estes anos de serviço. Cem moedas de ouro não será muito nem pouco, será compensação justa.
Um vizinho rico e chistoso, ouvindo-o em tal prece atirou com um saco de cem moedas que caiu aos pés de Nasrudin.
- Já recebi, já recebi, sou um santo de Deus – gritava entusiasmado o Mullah.
A partir daí Nasrudin fazia vida de rico e não tardou que o vizinho reclamasse o dinheiro.
Obviamente, Nasrudin negou-lho. Afinal tinha-lhe sido enviado por Alá.
- Vou levá-lo a tribunal – afirmou o vizinho.
- Não posso ir perante juiz. Não tenho roupas decentes nem cavalo, nem nada que respeitoso pareça. Decerto julgará a seu favor – disse Nasrudin.
O vizinho emprestou-lhe o manto e a montada.
Dirigiram-se ao juiz, que ouviu toda a história do queixoso, para depois questionar Nasrudin:
- Qual a sua defesa?
- O meu vizinho é louco, Excelência. Julga de tudo ter posse e propriedade. Se lhe perguntardes, vos dirá que meu cavalo e meu manto lhe pertencem. Mais fácil será dizê-lo do meu ouro.
- Mas..., mas, Eminência, é tudo meu! - gritou o queixoso exasperado.
- Caso encerrado - disse o Magistrado.




NASRUDIN NO BARBEIRO



Nasrudin foi ao barbeiro que o barbeou desajeitadamente. A cada navalhada novo golpe onde aplicava sucessivamente pedaços de algodão para estancar o sangue.
Um dos lados do rosto estava cheio de algodão.
Aprontava-se para iniciar o outro lado quando o Mullah vendo-se ao espelho disse:
- Obrigado irmão. Basta. Decidi cultivar num dos lados algodão e no outro cevada.




AFINAL O QUE É QUE É IMPOSSÍVEL?



O Mullah vivia numa cidadezinha junto de um rio. Nas suas margens passeava com um copo de leite na mão. Olhou para o rio, olhou para o copo, derramou o leite no seu leito e com um galho começou a mexer as águas em contínuo movimento circular.
Passava o Presidente da Câmara que depois de muito o observar julgou estar Nasrudin louco.
Mesmo assim, interrogou-o:
- Que fazes Nasrudin há horas sem parar?
- Estou a fazer iogurte.
- Enlouqueceste homem?! Mesmo que derrames cem mil litros nunca farás iogurte. O rio é vasto e suas águas muitas.
Nasrudin olhou-o com o seu jeito peculiar de indagar:
- Já pensou se fosse possível?




A VONTADE DE ALÁ FAZ-SE SEMPRE



Disse um homem:
- Que a vontade de Alá seja feita.
- Sempre se faz, em todo o momento, em qualquer situação - respondeu Nasrudin.
- Como podes provar tal afirmação?
- Simples e conveniente. Se a vontade de Alá se não fizesse sempre, seguramente que a minha uma ou outra vez se faria.




terça-feira, 20 de outubro de 2015

QUEM SOU EU? - PARA QUE QUERES TU UM "EU"?



- Mestre, quem sou eu?
O Mestre respondeu:
- És um tolo. Para que queres tu um “eu”?




DISTINGUIR UM MESTRE VERDADEIRO DE UM FALSO



Dois sannyasin encontraram-se. Um era bem mais idoso do que o outro.
O mais velho questionou o mais novo:
- Para onde te diriges irmão?
- Procuro um verdadeiro Mestre - respondeu o jovem.
Passaram alguns dias juntos, e o mais velho considerou ser esse o momento adequado para partir. Tinha chegado a hora da separação.
O jovem perguntou:
- Para onde vais? Qual o teu destino?
- É um destino sem destino; vou continuar a minha busca.
- Qual?
- A de encontrar um discípulo maduro. Encontrar alguém assim, é como encontrar agulha num palheiro. Muito poucos são os homens capazes de distinguir um Mestre verdadeiro de um falso, talvez um em dez milhões.




O MENDIGO E O AVARENTO



Um mendigo bateu à porta da casa grande da aldeia. O dono abriu, e aquele disse:
- Poderá o senhor dar-me um pedaço de pão com que alivie a fome?
O senhor respondeu:
- Não, não sou padeiro, vai-te a outra casa.
- E, se for um pouco de carne? - volveu o mendigo.
- Claro que não. O que é que te faz pensar que eu seja carniceiro?!
- Uma tigela de farinha?
- Será que esta casa tem a aparência de um moinho?
O mendigo não estava disposto a desistir:
- Pelo menos dais-me uma moeda?
- Aqui não está instalado nenhum banco!
Perante tanta resposta negativa, disse o mendigo:
- Já que nada tendes para me dar, peço-vos humildemente que me deixeis descansar um pouco à sombra na vossa casa, o sol queima e eu estou extenuado.
Vendo que assim nada perderia, o avarento concordou apesar de contrafeito, e disse:
- Senta-te ali, na sala.
O homem entrou, dirigiu-se para a cadeira que lhe tinha sido destinada pelo dono, mas em vez de se sentar, baixou as calças e começou a fazer as necessidades no tapete persa.
- O que é que fazes, enlouqueceste, quem pensas que és? - bradou com indignação e encolerizado o proprietário.
O mendigo respondeu:
- Num lugar como este, tão inútil, não vislumbro mais nada para fazer além de cagar.




NASRUDIN - JUSTIÇA PRÁTICA...



Um comerciante em viagem entrou com a sua caravana numa cidadezinha do interior do país. Acometido por intensa cólica intestinal, não se conteve e fez as suas necessidades bem em frente ao templo.
Surpreendido por alguns populares, foi levado à presença do juiz, que era Nasrudin.
Este perguntou-lhe:
- Era sua intenção ofender-nos com tal acto? Era sua intenção ofender a nossa sagrada religião e todos os que a professam?
O comerciante respondeu:
- Não eminência, nunca. Respeito e sempre respeitei os costumes e crenças dos lugares por onde viajo. No entanto, padeci de tal dor de ventre, que não me consegui conter.
O juiz olhou-o longamente e, perante a evidente sinceridade do réu, preparou-se para proferir sentença.
Perguntou:
- O que é que o senhor prefere? Um castigo físico ou uma pena de multa?
- Uma multa, meritíssimo. 
Nasrudin disse:
- Nesse caso, condeno-o ao pagamento de um denário.
O comerciante retirou da sua bolsa uma moeda, outra e ainda outra, dizendo:
- Senhor, tenho apenas uma moeda de dois denários. Partamo-la ao meio ficando o tribunal com metade, assim se fazendo justiça.
Nasrudin pegou na moeda de ouro, olhou-a calmamente e disse:
- Não! Esta moeda não deve ser partida. O tribunal arroga-se o direito de ficar com ela, concedendo ao réu o direito de no dia de amanhã voltar a fazer as suas necessidades diante da porta do templo.




A PREVISÃO DO FUTURO - CONFÚCIO



Perguntaram a Confúcio:
- Poderemos prever o que irá ocorrer dentro de dez gerações?
Confúcio respondeu:
- Os reis da dinastia dos Yin herdaram os costumes dos reis de Hia; e sabemos bem o que lhes fizeram acrescer e o que suprimiram.
A dinastia dos Tcheu herdou os costumes dos Yin e sabemos o que lhes acrescentaram e suprimiram.
Podemos daí concluir como se irão comportar os herdeiros dos Tcheu, sejam eles quais forem, à distância de cem gerações.




ATINGIR A PERFEIÇÃO - CHUANG TSE



- Mestre, que devo buscar para atingir a perfeição? A minha mente vagueia na escuridão dos infernos e não vislumbro luz ao fundo do túnel.
Chuang Tse, respondeu:
- Não procures a fama. Não faças planos. Não te absorvas em actividades. Não penses que sabes. Fica consciente de tudo o que é e vive no infinito. Vagueia onde não há caminho. Sê tudo o que o Céu te deu, mas age como se não tivesses recebido nada. Sê vazio, é tudo. A mente do homem perfeito é como um espelho. Não apanha nada. Não espera nada. Reflecte, mas não segura. Por isso, o homem perfeito pode agir sem esforço.




O QUE CONFÚCIO NÃO SUPORTAVA



Confúcio disse:
- Eis o que eu não suporto:
Um administrador de espírito curto;
Aquele que cumpre os ritos, mas não tem piedade;
Aquele que observa o luto, mas não sente pena alguma. 




NASRUDIN - NÃO-SIM



A mulher de Nasrudin acusou-o em tribunal de a ter agredido.
Citado para comparecer em audiência de julgamento, preparou mentalmente as respostas:
“Se o juiz me perguntar se lhe bati, afirmarei peremptoriamente que não.
Se me perguntar se não lhe bati, responderei sem hesitações que sim.
Tão fácil quanto isto.”
Na audiência, o magistrado questiona-o:
- Senhor Nasrudin, o senhor deixou de bater na sua mulher?
Nasrudin não esperava a pergunta. Confuso e surpreso, respondeu:
- Não-sim!




FICAR SENTADO E ESQUECER - CHUANG-TSE



- Qual é o segredo da tua tranquilidade? - perguntou um discípulo a Chuang Tse.
Este respondeu:
- Fico sentado e esqueço.
- Que queres com isso dizer, Mestre?
- Não estou ligado ao corpo e desisto de qualquer intenção de conhecer. Libertando-me do corpo e da mente, torno-me Um com o infinito. É isso que quer dizer ficar sentado e esquecer.





NÃO QUERER OS PROBLEMAS DOS OUTROS



Estando Nasrudin em casa, sentiu leves ruídos e apercebeu-se da presença de um ladrão que havia entrado furtivamente.
Escondeu-se num recanto. O salteador foi carregando tudo o que se lhe apresentava pela frente e que tivesse algum valor. Findo o acto de pilhagem, Nasrudin seguiu-o até à sua casa, bateu à porta e com educação, disse:
- Agradeço-te que tenhas transportado todos os meus bens. Fizeste com que libertassem espaço na minha humilde residência, onde tanto eu quanto a minha família vivíamos angustiados com tal aglomeração e consequente falta de espaço. A tua casa é muito mais ampla e agradável que a de nossa família. Assim, poderemos viver todos nesta tua residência. Não sei como te hei-de agradecer. Vou de imediato buscar minha mulher e meus filhos para que também eles possam usufruir da tua hospitalidade.
O larápio inquietou-se perante tal ideia, e balbuciando disse:
- Leva tudo. Carrega tudo de novo e fica com a tua família e com todos os vossos problemas.




A ACEITAÇÃO DA ADVERSIDADE - CONFÚCIO



- Mestre, o que é a aceitação da adversidade?
Confúcio disse:
- Aquele que se contenta com arroz e legumes para a sua refeição, com água como bebida, e o braço para almofada da cabeça, encontrará alegria em todas as coisas, mesmo no que denominamos má-sorte.
As riquezas e as honras indevidamente obtidas mais não são do que uma nuvem que passa velozmente movida por fortes ventos.




VOLTAR-SE OU NÃO NA DIRECÇÃO DE MECA



Um homem questionou Nasrudin:
- Diz-me Nasrudin, quando fazes as tuas abluções no rio, como procedes?
Nasrudin respondeu:
- Simples, tiro a roupa e mergulho.
- Mas, mesmo dentro de água voltas-te na direcção de Meca, não é assim?
Nasrudin pestanejou, coçou a cabeça, e disse:
- Pode acontecer, pode acontecer... Mas, em regra, viro-me para o local da margem onde depositei as roupas, não vá algum ladrão levar-mas.




UM LIBERTO-VIVO NOS HIMALAIAS



Um estudioso da espiritualidade, autor de numerosos livros e artigos, ouviu falar de um homem santo que vivia algures nos Himalaias e era considerado um liberto-vivo.
Sentiu uma enorme necessidade de o conhecer. Nos tempos actuais, apenas existiam relatos e ensinamentos escritos de tais seres. Conhecer um, ainda em vida, seria facto notável.
O investigador encetou longa jornada, e encontrou o santo à entrada de uma gruta, sentado debaixo de frondosa árvore.
Não se contendo, começou de imediato a interrogá-lo, após breve apresentação:
- Diz-se que o senhor é um liberto-vivo. Antes de atingir este estado, tinha momentos de depressão e angústia, momentos em que tudo lhe parecia não ter sentido, em que a existência se apresentava como algo absurdo?
O liberto-vivo, com afável sorriso, disse:
- É evidente, tal como acontece com todos os seres humanos.
Volveu o investigador:
- E neste momento, tendo atingido a libertação, ainda tem momentos em que a depressão o acometa? 
O santo respondeu:
- Evidentemente, como a toda a gente. Mas, agora, isso não tem qualquer importância para mim.




ALÁ NÃO ESTÁ EM MECA - SUFI BASTAMI



O Sufi Bastami, apesar da sua pobreza, projectou realizar uma peregrinação a Meca.
Antes de partir, encontrou um dos seus antigos Mestres, homem idoso, de profunda sabedoria. Este, conhecendo as intenções de Bastami, questionou-o:
- O que é que te leva a viajar até Meca?
Bastami respondeu:
- Julgo que este é o momento apropriado. Considero estar espiritualmente preparado para ver Deus.
O velho Mestre olhou fixamente para o seu antigo discípulo, e disse:
- Dá-me o dinheiro que juntaste para a viagem.
Bastami, por reverência, obedeceu.
Então, já na posse da quantia destinada aos custos da peregrinação, disse:
- Chegado a Meca, darias sete voltas à pedra sagrada. Quero que dês as mesmas voltas em meu redor.
Bastami, apesar de perplexo, deu as sete voltas em redor do seu Mestre, que continuou:
- Já atingiste o que te propuseste. Não necessitas de viajar. Estou certo, que desde que o santuário foi construído, Alá não residiu nem por um momento em qualquer das suas partes, inclusivamente na pedra sagrada. No entanto, esteve e estará sempre no coração do homem. Retorna a tua casa, torna-te atento e faz uma viagem ao teu coração. Aí verás o que nunca conseguirás ver em Meca: Deus.




DOUTRINAS DE - CONFÚCIO - BUDA - LAO TSÉ



Existe um quadro taoísta, que ilustra a cena de três homens reunidos numa mesa, com um jarro de vinagre, bebida que provam.
O primeiro faz uma espécie de careta, considerando a bebida amarga.
O segundo, do mesmo modo, tem uma expressão de profundo desagrado, em virtude da bebida lhe parecer ácida.
O terceiro, admirando a sua excelência, tem uma expressão radiante, de felicidade.
Há quem diga que o vinagre é a vida e que os três homens são Confúcio, Buda e Lao-Tsé.
O primeiro, Confúcio, julga que a vida é algo terrífico, sendo absolutamente necessário criar cerimoniais, a que os homens se submetam.
O segundo, Buda, diz-nos que a vida é amarga, é sofrimento praticamente em todas as suas vertentes, tendo o homem que se libertar de desejos e apegos, de modo a atingir o nirvana, o estado de não-sofrimento.
O terceiro, Lao-Tsé, é optimista e segue o fluxo contínuo da vida. A vida depende em última instância do pensamento que dela tem. Ele é a própria vida e a vida é ele mesmo. 




O ZEN E O MEDO DA MORTE - MESTRE NAN-IN



- O que é o Zen? Perguntou um médico a um estudante do Zen.
- Não sei bem, mas julgo que se o compreenderes perderás o medo da morte.
- Vou procurar um Mestre.
- Procura Nan-In - disse o estudante.

- Quero praticar Zen - disse o médico a Nan-In.
- Vai para casa, e cuida com bondade dos teus doentes, da tua família.
- Como poderei assim, perder o medo da morte?
- Digo-te, cuida com diligência e amor dos teus doentes, esse é o Zen que buscas. Agora, vai-te.
Perante a insistência do médico, Nan-In, deu-lhe um Koan para meditar.
Isso absorvia-o, mas cada vez cuidava melhor dos seus pacientes, e sem que por tal desse, libertou-se das suas estúpidas preocupações com a morte.




UM POEMA DE RIONENE - FAMOSA MONJA BUDISTA



Rionene, cujo nome quer dizer “compreender claramente”, foi uma monja Budista famosa pelo seu conhecimento do Zen.
Quando estava prestes a deixar este mundo, escreveu este poema:

Sessenta e seis vezes viram estes olhos o mutável cenário do Outono.
Do luar disse já o bastante,
Não perguntes mais.
Ouve apenas a voz dos pinheiros e dos cedros quando não há vento.




A SUA MENTE É BUDA - BUDA NÃO É A SUA MENTE



Um dos maiores Mestres Zen do Japão afirmava com constância, dizendo ser esse o seu maior ensinamento:
“A sua Mente é Buda.”
Um monge decidiu abandonar o mosteiro, instalando-se numa gruta das montanhas, e durante vinte anos viveu meditando nesta máxima.
Um dia, encontrou na floresta, um outro monge, que havia estudado com o mesmo Mestre e que se dedicava à meditação exaustiva da sua principal doutrina.
Questionado sobre esse ensinamento, este respondeu:
- O Mestre foi muito claro. O seu maior ensinamento é: “Buda não é a sua Mente.”




PRIMEIRA LIÇÃO NA ARTE DE FURTAR



O filho de um famigerado ladrão pediu ao pai que lhe ensinasse os segredos de tão difícil ofício.
O pai anuiu, e a coberto da noite, levou-o a imponente casa onde todos dormiam.
No seu interior, pediu ao filho aprendiz que entrasse num vasto armário, cheio de roupas luxuosas, buscando valores. Mal entrou, fechou-o e, saiu apressadamente da mansão, fazendo muito ruído e batendo estrondosamente com a pesada porta de entrada, de modo a acordar os proprietários e a criadagem.
Passaram horas, até que o filho exausto chegou indignado, dizendo:
- Pai, porque é que me prendeste no armário e me abandonaste sujeitando-me a ser espancado, preso e torturado? Desesperado, tive de utilizar todos os artifícios e manhas para conseguir sair ileso daquela casa. Não fora o sangue-frio que de mim se apoderou, e cuja origem desconheço, que de lá não sairia como saí.
O pai sorriu:
- Meu filho, foi esta a tua primeira lição na árdua arte de furtar.




MESTRE RYOKAN - O TEMPO É CRUEL



Ryokan teve conhecimento de que um seu sobrinho, incumbido de administrar os bens da família, os estava a dissipar com meretrizes, numa vida dissoluta. Os familiares pediram-lhe que por sua sabedoria interviesse.
O Mestre viajou para se encontrar com o jovem perdulário.
Chegado a sua casa, aí pernoitou, sem que pronunciasse palavra sobre os reais motivos da visita. De manhã, preparando-se para sair, disse ao sobrinho:
- Estou velho, minhas mãos tremem. Será que me auxilias a atar as minhas sandálias?
O sobrinho fê-lo de bom grado.
- Obrigado. Como vês, cada dia que se apaga torna um homem mais velho, mais frágil, como uma fortificação que perde as suas defesas. Cuida-te com atenção. O tempo é cruel.
Sem mais palavras, sem qualquer outra recomendação, partiu.
A partir desse dia, o comportamento esbanjador do sobrinho findou por completo.