HISTÓRIAS DE ESPIRITUALIDADE

HISTÓRIAS DE ESPIRITUALIDADE
A SABEDORIA DOS MESTRES

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

SÓ DAMOS VALOR ÀS COISAS QUANDO DESCONHECEMOS SE AS IREMOS CONSEGUIR OU NÃO



Nasrudin aconselhava sempre:
- Não ofereçam a ninguém a seu pedido, nada de mão beijada. Aguardem pelo menos que um dia seja passado.
- Porquê? - alguém perguntou.
- Só damos valor às coisas quando desconhecemos se as iremos conseguir ou não.




PARÁBOLA DOS TALENTOS



Um homem ao partir para fora, chamou os servos e confiou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual conforme a sua capacidade; e depois partiu.
Aquele que recebeu cinco talentos negociou com eles, e ganhou outros cinco. Da mesma forma, aquele que recebeu dois, ganhou outros dois. Mas aquele que apenas recebeu um, foi fazer um buraco na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.
Passado muito tempo, voltou o senhor daqueles servos e pediu-lhes contas. Aquele que tinha recebido cinco talentos, aproximou-se e entregou-lhe cinco, dizendo: “Senhor, confiaste-me cinco talentos, aqui estão outros cinco que ganhei.” O senhor disse-lhe: ”Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu Senhor.”
Veio em seguida, o que tinha recebido dois talentos: “Senhor, confiaste-me dois talentos, aqui estão outros dois que ganhei.” O senhor disse-lhe: “Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu Senhor.”
Veio, finalmente, o que tinha recebido um só talento: “Senhor, sempre te conheci como homem duro, que ceifas onde não semeaste e recolhes onde não espalhastes. Por isso, com medo, fui esconder o teu talento na terra. Aqui está o que te pertence.” O senhor respondeu-lhe: “Servo mau e preguiçoso! Sabias que eu ceifo onde não semeei e recolho onde não espalhei. Pois bem, devias ter levado o meu dinheiro aos banqueiros e, no meu regresso, teria levantado o meu dinheiro com juros. Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos. Porque ao que tem dar-se-á e terá em abundância; mas ao que não tem, ser-lhe-á tirado até mesmo o que tem. A esse servo inútil lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.”

Mt. 25, 14-30




O PASSAMENTO DE MESTRE BANKEI



Quando Bankei estava para falecer, os seus discípulos solicitaram-lhe um poema de despedida, segundo o costume Zen.
O Mestre limitou-se a dizer:
“Estou neste mundo há setenta e três anos, dos quais passei quarenta e quatro a ensinar Zen para libertar os outros. Tudo o que vos referi em mais de meia vida é o meu verso de despedida. Não há outro verso de despedida a compor. Por que havia eu de imitar todos os outros e fazer uma confissão no meu leito de morte?”
Dito isto, deu-se o passamento.




UMA HISTÓRIA CONTADA POR MESTRE HAKUIN



Hakuin contou esta história:
Havia uma mulher idosa que era proprietária de uma casa de chá na vila. Conhecedora e perfeccionista na cerimónia do chá, para além de possuir uma vasta cultura Zen.
Muitos estudantes ficavam para além de surpresos e incrédulos, invejosos do seu conhecimento, o que fazia com que fossem à vila para a testar.
Sempre que a velha senhora notava a aproximação de monges, tinha a perfeita intuição da visita; sabia se vinham beber o seu chá ou testar os seus conhecimentos Zen.
Aos que vinham pelo chá, tratava-os primorosamente, com uma gentileza absoluta, deixando-os embevecidos com a sua encantadora sabedoria.
Aos que a vinham testar, escondia-se atrás da porta, e com uma cavaca atingia-os na cabeça.
Apenas um em cada dez conseguia escapar da paulada.




PARÁBOLA DO ADMINISTRADOR INFIEL



Disse também Jesus aos discípulos:
“Havia um homem rico, que tinha um administrador; e este foi acusado perante ele de lhe dissipar os bens. Chamou-o e disse-lhe: Que é isto que ouço a teu respeito? Presta contas da tua administração, porque já não podes continuar a administrar. Disse de si para si o administrador: “Que farei, pois o meu senhor vai tirar-me a administração? Cavar não posso; de mendigar tenho vergonha... Já sei o que hei-de fazer, para que haja quem me receba em sua casa, quando for desapossado da minha administração”. E, chamando cada um dos devedores do seu senhor, disse ao primeiro: “Quanto deves ao meu senhor?” 
Ele respondeu: “Cem talhas de azeite”.
“Toma o teu recibo”, retorquiu-lhe, “senta-te depressa e escreve cinquenta.”
Disse depois ao outro:
“E tu quanto deves?”
Este respondeu: “Cem medidas de trigo”.
“Toma o teu recibo”, retorqui-lhe, “e escreve oitenta.”
O senhor elogiou o administrador desonesto, por ter procedido com esperteza. É que os filhos deste mundo são mais sagazes que os filhos da luz, no trato com os seus semelhantes. E eu digo-vos:
“Arranjai amigos com o vil dinheiro, para que, quando este faltar, eles vos recebam nas moradas eternas. Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é infiel no pouco também é infiel no muito. Se, pois, não fostes fiéis no que toca ao vil dinheiro, quem vos há-de confiar o verdadeiro bem? E, se não fostes fiéis no alheio, quem vos dará o que é vosso? Servo algum pode servir a dois senhores; ou há-de aborrecer a um e amar o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro.”

Lc.   16, 1-13




NÃO DAR CONSELHO A QUEM O NÃO PEDIR



O Mullah recorreu a um homem rico e poderoso pedindo-lhe dinheiro emprestado.
- Para que queres tu tal quantia?
- Para comprar um elefante.
- Se não tens dinheiro, como o sustentarás?
Nasrudin indignado respondeu:
- Vim pedir dinheiro. Dispenso o conselho que te não pedi.




TER OU NÃO JEITO DE VENDEDOR



O Mullah na feira queria vender uma vaca. Mas nada. Defeito do bicho ou da sua falta de jeito.
Um amigo ofereceu-se para o ajudar:
- Vaca excelente. Prenhe. Bezerro para nascer daqui a meses.
O animal foi logo vendido.
Radiante, Nasrudin dirigiu-se a casa onde se encontrava um jovem que pretendia desposar a sua filha.
Logo experimentou o seu novo dote de vendedor.
Estranho, como o jovem de imediato se ausentou deixando Nasrudin perplexo.




VER O MESTRE APERTAR AS SANDÁLIAS, APENAS ISSO



Dois discípulos aguardavam o Mestre na sala de meditação. Nunca se tinham encontrado.
Um deles perguntou:
- Vieste ouvir as palavras do homem santo?
- Não, bastar-me-á ver como aperta as sandálias – respondeu o outro.




COMO GOVERNAR



Tseu-hia, sendo governador de uma cidade, perguntou como a havia de administrar.
Confúcio disse:
- Não sejas irreflectido e impaciente; não faças cálculos sobre os proveitos. Se agires precipitadamente, não chegarás longe; se te preocupares com pequenos lucros, não realizarás empresa de vulto.




QUAL É O MELHOR GOVERNO



O príncipe de Che perguntou:
- Qual é o governo bom?
O Mestre disse:
- Eis em que se reconhece: os que estão perto alegram-se e os que estavam longe regressam.




APRENDER A VOAR SEM QUE TENHA APRENDIDO A ATERRAR



Nasrudin conduzia o burrico por vereda de penhasco.
Pata em falso e cai o jumento no desfiladeiro em parte alguma ficando inteiro. Uma autêntica desgraça.
Pensativo, disse o Mullah para os seus botões:
“Aprender a voar, aprendeu, mas a aterrar não.”




A DESCULPA ESFARRAPADA DE NASRUDIN



Um dos muitos analfabetos da aldeia pediu a Nasrudin que lhe escrevesse uma carta.
- Não o posso fazer, tenho um pé aleijado.
- Isso nada tem que te impeça de o fazer, pois não, Mullah? – questionou-o estupefacto o analfabeto.
- Pois sim, idiota. Ninguém consegue ler a minha letra. Assim vejo-me obrigado a viajar para me fazer entender. Como é que queres, então, que o faça com o pé neste estado?




OPORTUNISMO SALOIO



Nasrudin quis aprender música. Procurou um professor e questionou-o:
- Quais os seus honorários?
- Três moedas no primeiro mês. A partir daí, uma moeda por mês.
- Convém-me – respondeu Nasrudin –, começarei no segundo.




NASRUDIN E O CONFLITO DE INTERESSES



Nasrudin e um amigo decidiram partilhar um copo de leite.
- Beba primeiro Mullah. Tenho um pequeno pedaço de açúcar que apenas dá para um de nós.
- Então coloque-o no copo, beberei tão-somente a minha metade - disse Nasrudin.
- Nem pensar. Este açúcar só adoçará metade.
Nasrudin foi ao balcão e voltou com um punhado de sal.
- Meu amigo sou então o primeiro a beber, mas quero o meu leite com sal.




EVITAR A POBREZA E A RIQUEZA



- Mestre, nesta vida devemos ser ricos ou pobres?
- Filho, são dois grandes problemas. A pobreza é terrível, mas a riqueza é um tormento.
- Que devemos então fazer?
- Devemos evitar a pobreza, mas também a riqueza – respondeu o venerável Mestre.




O FUNDADOR DO ZEN - NOVE ANOS EM SILÊNCIO



Perguntaram a Yangqi:
- Quando o fundador do Zen veio da Índia para a China, ficou sentado em frente de uma parede durante nove anos. O que é que isto significa?
Yangqi respondeu:
- Como era indiano, não falava chinês.




SABEDORIA A PREÇO REDUZIDO



Numa tabuleta de sua casa, podia ler-se:
MULLAH NASRUDIN – MESTRE NADADOR – SALVAMENTOS – NATAÇÃO EM TODOS OS ESTILOS – ÁGUA DOCE – ÁGUA SALGADA
Um interessado foi visitá-lo.
- Mestre, quero aperfeiçoar-me, ser um bom nadador. É verdade que faço mergulho, nado em todas as águas, mas falta-me perfeição.
Nasrudin expôs o seu método:
- Um primeiro estágio custa 20 moedas. Um segundo tem o custo de 10 e o último apenas 5.
- Certo, estou satisfeito - respondeu o candidato –, voltarei para o último que é o que me convém.




QUEM É GRANDE NO MUNDO DA JUSTIÇA



Confúcio disse: 
“Ouvir os litigantes e fazer justiça, eu posso fazê-lo exactamente como os juízes. Mas, grande será aquele que faça com que os homens não instaurem processos.”




O QUE É QUE SUSTÉM O MUNDO



O discípulo mais novo do Mestre era um universitário racionalista.
Perguntou:
- O que é que sustém o mundo?
O Mestre respondeu:
- Oito elefantes brancos.
- E quem é que sustém os elefantes brancos? - volveu o discípulo insatisfeito.
- Outros oito elefantes brancos.




NASRUDIN E A SALVAÇÃO



Nasrudin corria ofegante e no caminho encontrou um amigo a quem disse atabalhoadamente:
- Peço-te um favor.
- Claro Mullah, o que é?
- Vai até àquele poço. Caiu nele um homem. Vou procurar uma corda. Diz-lhe que não vá embora até que eu volte.




NECESSIDADES À DISTÂNCIA



Alguém disse ao Mullah:
- Vou à cidade. Precisa de algo?
- Preciso.
- De quê, Nasrudin?
- De um corte de cabelo.




VERDADE ABSOLUTA E AFIRMAÇÕES FALSAS



- A verdade não é absoluta. Mas existem afirmações que sabemos serem absolutamente falsas – disse Nasrudin.
- Como assim, Nasrudin - perguntou um ouvinte.
- Deixa que te explique. No mercado, na passada semana, ouvi que eu estaria morto, que me teria finado.




QUE NÃO TENHAS UM SÓ PENSAMENTO



- Mestre, procuro concentrar-me no agora, libertar o meu espírito de todos os medos, principalmente do medo dos medos, do medo da morte. No entanto, a minha mente vagueia como um milhafre planando ao vento, e arrasta-me sempre para a angústia da extinção, do não-ser. Como hei-de agir?
Mestre Mazu, ficou impávido por alguns minutos, parecendo reflectir. Por fim, disse:
- Basta que não tenhas um só pensamento, e livrar-te-ás da raiz do nascimento e da morte.




NÃO FAÇAS A OUTRO O QUE DETESTAS PARA TI



Confúcio disse a um discípulo:
“Não faças a outrem o que detestas para ti.”







VIVER EM CONFORMIDADE COM O ZEN



Perguntaram a Ying-an:
- O que é viver em conformidade com o Zen?
Ying-an respondeu:
- Viver no Zen é um atalho muito directo, que não exige o emprego do mínimo esforço para alcançar a iluminação e o conhecimento profundo do Zen, aqui e agora.




DESPERDIÇAR A VIDA



Nasrudin levava por vezes viajantes e amigos no seu bote.
Um professor universitário contratou-o para uma viagem.   
O Mullah transportava-o quando o professor lhe perguntou:
- Poderá o tempo agravar? Há possibilidade de temporal?
Nasrudin respondeu:
- Não me pergunte nada sobre isto.
Perante tal resposta volveu o erudito:
- Nunca estudou gramática?
- Não, senhor – respondeu Nasrudin.
- Então desperdiçou metade da sua vida.
O Mullah manteve-se em silêncio.
Mas, dos céus escurecidos soaram estridentes trovões, elevaram-se as águas com ondas a desfazerem-se em espuma.
Não tardou que a embarcação metesse água.
Aí o Mullah dirigiu-se ao Doutor:
- Aprendeu a nadar senhor professor?
- Não - respondeu o pedante.
- Bom, desperdiçou toda a sua vida. Estamos prestes a afundar.




A FOME DE NASRUDIN



Com fome de dois dias Nasrudin entrou num café. Esperou a sua vez e logo que servido começou a comer com as mãos.
Passou um vizinho que o questionou:
- Porque come com as duas mãos, Mullah?
- Porque três não tenho – respondeu Nasrudin. 






domingo, 8 de maio de 2016

A MINHA ORAÇÃO PREFERIDA



No mosteiro da montanha onde o céu se aproximava da terra, um noviço angustiava-se. Nada o satisfazia, nenhuma oração o aquietava, a fé desvanecia-se e o seu amplo sorriso de outrora havia desaparecido.
Um Irmão dos mais idosos, conhecido pela sua abundante felicidade apercebeu-se da inquietação do jovem.
Encontrando-o no jardim contíguo à capela depois de um serviço religioso, questionou-o:
- Que tendes vós meu Irmão? Pareceis atormentado e infeliz. Há algo que possa fazer por vós?
- Vivo numa angústia de morte, Irmão. As estações vão-se sucedendo e a vida vai perdendo para mim todo o sentido e beleza. Busquei Deus fora, busquei-o dentro e se há algum tempo ouvi o seu chamamento agora sinto-o ausente, tão distante quanto o amor e o júbilo que senti ao entrar para esta casa. Sinto que não quero retornar ao mundo, mas que também nada aproveito desta vida que tão entusiasmadamente abracei. Por vezes peço-lhe a morte por caridade – respondeu o noviço com os olhos rasos de lágrimas.   
Volveu o Irmão idoso:
- Refugia-te na oração Irmãozinho. Deus ouvir-te-á.
- As minhas orações mais não são do que insistentes pedidos dispersos ao vento. A Paz afastou-se de mim e o desespero tomou conta do meu coração. Sei que Deus não me dá ouvidos, não alivia o fardo que me consome.
O Irmão ficou em silêncio durante alguns momentos e disse:
- Talvez as tuas orações não sejam atendidas porque exiges ao Senhor o que Ele te não deve ainda dar. Ele sabe bem, antes mesmo de ti, tudo o que necessitas.
- Como devo então orar. Auxilia-me Irmão.

Reza assim, disse:

Senhor, estou aqui, simplesmente aqui, à espera de nada, a querer nada.”


Um ano decorrido e o noviço passou a ser conhecido na comunidade pelo Irmão Místico.





MIRAR O ALVO COM SUCESSO



Existiu um jovem arqueiro que havia vencido todos os torneios em que tinha participado.
Era perito no arco de flechas como ninguém. No entanto, ouvira falar num velho Mestre Zen, que era tido por imbatível, apesar de por via da sua provecta idade não se dedicar à competição. As suas mãos e seus braços não dispunham da energia de outrora, e muito provavelmente a perícia e segurança do jovem o ultrapassaria.
Desafiou-o e com o primeiro tiro colocou a flecha no centro do alvo. Com o segundo, dividiu a primeira ao meio. Depois convidou o Mestre a imitá-lo ou até a suplantá-lo. 
Este intimou-o a acompanhá-lo. Percorreram vários quilómetros de vereda na encosta de uma montanha, até que se depararam com um imenso abismo atravessado por estreito e frágil tronco.
O Mestre começou a caminhar com segurança na tábua que baloiçava, espreitando o abismo infindável. No meio, parou, envergou o arco com determinação e atingiu uma árvore longínqua.
- É a sua vez, bom jovem - disse, enquanto regressava com suavidade da improvisada ponte sobre o despenhadeiro negro.
O jovem ficou inerte. Nem um passo deu na tábua, suas pernas tremiam e suas mãos mal conseguiam segurar o arco.
Disse-lhe o Mestre:
- Já verifiquei que grande é sua perícia com o arco, mas frágil sua estabilidade mental, que nos deve deixar totalmente descontraídos para mirar o alvo com sucesso.




ORAÇÃO SELECTIVA



Um agricultor pediu a um monge que recitasse sutras pela falecida mulher.
- Obterá minha mulher indulgências com a recitação?
- Claro, a tua mulher e todos os seres – respondeu o monge.
Esta ideia não agradou ao camponês. Outros iriam obter as indulgências de que ela tanto necessitava.
- Recita os sutras apenas em sua intenção - disse.
O monge esclareceu-o:
- Não o posso fazer. Um verdadeiro Budista deseja que as suas bênçãos recaiam sobre todos os seres.
- É belo o que dizes, e ultrapassa em muito o que tenho ouvido de outras religiões em que os crentes apenas se preocupam com os seus próprios umbigos. Mas, abre apenas uma excepção. Tenho um vizinho que é rude, grosseiro e mau para mim e para os meus. Exclui-o então, nem que seja só ele o excluído.




SUBUTI - A FORÇA DO VAZIO



Subuti, discípulo de Buda, era dos poucos capazes de entender a força do vazio, o ponto de vista segundo o qual nada existe, salvo na sua relação de subjectividade e objectividade.
Subuti estava sentado a meditar de baixo de uma árvore, quando começaram a cair flores à sua volta.
Ouviu:
- Louvamos-te pelo teu discurso sobre o Vazio.
- Mas eu não discursei sobre o Vazio, não pensei no Vazio... - respondeu.
- Tu não falaste do Vazio. Nós não ouvimos Vazio. Este é o verdadeiro Vazio - disse a voz.
Nisto, uma chuva de flores inundou Subuti.




HOTEI – O CHINÊS FELIZ – SIGNIFICADO E REALIZAÇÃO ZEN



Hotei foi um Mestre Zen, que nunca ambicionou ter discípulos. Andava pelas ruas da cidade e num saco que transportava às costas, ia acumulando rebuçados, fruta, bolos, e outros alimentos que lhe ofertavam e que depois distribuía pelas crianças que brincavam à sua volta. É interessante mencionar, que criou um jardim infantil. Chamavam-lhe o Chinês Feliz.
Quando encontrava no seu caminho gente piedosa, pedia-lhes uma moeda, e quando lhe pediam para permanecer num templo, de modo a ensinar os que se iniciavam na longa caminhada Zen, logo lhes pedia como resposta, uma moeda.
Um dia, andava pelas ruas, na sua costumeira actividade, e passou um Mestre Zen que lhe perguntou:
- Qual o significado do Zen?
Hotei deixou cair o saco no solo como resposta.
Volveu o outro:
- Qual a realização Zen?
Hotei, o Chinês Feliz, colocou o saco aos ombros, e seguiu o seu Caminho de sempre.




SALOMÃO E A FORMIGA



Passava Salomão junto de um formigueiro. Todas as formigas se apresentaram em sinal de submissão.
Apenas uma, atarefada com a contagem de um monte de grãos de areia, não se apressou.
Salomão ordenou que a chamassem, e disse-lhe:
- Formiga, o teu aspecto não é o de quem tenha energia para tal empresa; nem com a longevidade de Noé e com a paciência de Jó poderás levar a cabo o trabalho que empreendeste.
Disse a formiga:
- Grande rei, nesta Via não se pode avançar senão com magnanimidade!




PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO E DO FILHO FIEL



Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai:
“Pai, dá-me a parte dos bens que me corresponde.”
E o pai repartiu os bens entre os dois. Poucos dias depois, o filho mais novo, juntando tudo, partiu para uma terra longínqua e por lá esbanjou tudo quanto possuía, numa vida desregrada. Tendo gasto tudo, houve grande fome nesse país e ele começou a passar privações. Então, foi servir a um dos habitantes daquela terra, o qual o mandou para os seus campos guardar porcos. Bem desejava ele encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. E, caindo em si disse:
“Quantos jornaleiros de meu pai têm pão em abundância e eu, aqui, morro de fome! Levantar-me-ei e vou ter com meu pai, e digo-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti, já não sou digno de ser chamado teu filho, trata-me como um dos teus jornaleiros.”
E levantando-se, foi ter com o pai. Ainda estava longe, quando o pai o viu, e enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. O filho disse-lhe:
“Pai, pequei contra o Céu e contra ti, já não mereço ser chamado teu filho.”
Mas o pai disse aos seus servos:
“Trazei depressa a mais bela túnica e vesti-lha; ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o; vamos fazer um banquete e alegrar-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e apareceu.”
E a festa principiou.
Ora, o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se de casa, ouviu a música e as danças. Chamou um dos servos, perguntou-lhe o que era aquilo. Disse-lhe ele:
“O teu irmão voltou e teu pai matou o vitelo gordo, porque chegou são e salvo.”
Ressentido, não queria entrar; mas o pai saiu e instou com ele. Respondendo ao pai, disse-lhe:
“Há já tantos anos que te sirvo sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para me alegrar com os meus amigos; e, agora, ao chegar esse teu filho, que gastou os teus bens com meretrizes, mataste-lhe o vitelo gordo.”
O pai respondeu-lhe:
“Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e apareceu.”

Lc. 15, 11-32




A ILUMINAÇÃO NA SIMPLICIDADE



- Como posso atingir a iluminação? – perguntou o discípulo.
Respondeu o Mestre:
- Realiza com toda a diligência e atenção os actos do quotidiano, mesmo os que consideras como comuns.




PARÁBOLA DA DRACMA PERDIDA



Qual é a mulher que, tendo dez dracmas, se perde uma, não acende a candeia, não varre a casa e não procura cuidadosamente até a encontrar? E, ao encontrá-la, convoca as amigas e vizinhas e diz:
“Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida.”
Assim, digo-vos, há alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se arrepende.

Lc. 15, 8-10




CASTIGO ANTECIPADO



O Mullah enviou um garoto à fonte.
- Vá e não parta o pote.
Nisto deu-lhe uma varada que o fez saltar e bramir de dor.
- Mullah, isso não se faz. Não se bate em quem mal ainda não fez - disse um vizinho.
- Deixe de ser asno. De que serve castigá-lo depois do mal feito?! Que adianto sem água e sem vasilha?
Eu sem bilha e o garoto com bordoada é mal de dois. Assim que seja apenas de um.




UMA ESMOLA POR ALÁ



Nasrudin remendava o seu telhado.
Em baixo, na rua, um faquir solicitou-o a descer. Nasrudin sem questionar desceu.
O faquir pediu:
- Dê-me uma esmola por Alá.
- Podia ter subido para falar comigo - disse o Mullah.
- Tive vergonha...
- Ora, não seja assim. Suba comigo - disse Nasrudin.
Subiram ao cume e Nasrudin continuou o seu trabalho dizendo:
- Não tenho nada trocado para lhe dar.




NÃO PERDER UM BOM NEGÓCIO



Nasrudin estava cansado do seu burro. Levou-o à feira da vila para que o leiloeiro lho vendesse. Ficou para assistir.
O pregoeiro começou: 
- Agora este belo jumento. Forte, musculoso, habituado ao trabalho duro e à tormenta, de suprema inteligência e esperteza.
Quem oferece cinco moedas por tão espantoso animal?
- Cinco moedas?! - pensou o Mullah -, apenas cinco moedas, vou licitar já.
E Nasrudin licitou.
Entre Nasrudin e um quintaneiro fez-se disputa e a cada lance o leiloeiro exacerbava as virtudes do asno, o que entusiasmava o primeiro.
Afinal desconhecia do que seu era, tanta qualidade e virtude.
Com o tempo a decorrer, ofereceu quarenta moedas arrematando o jumento que apenas dez valia.
Pagou a comissão de um terço ao leiloeiro, pegou no burrico e dirigiu-se a casa dizendo para os seus botões:
- Se coisa há que não perco é um bom negócio.




NASRUDIN E O EMPRÉSTIMO DE PANELAS



Nasrudin emprestou duas panelas.
O amigo, homem de humor devolveu-lhas com uma outra panela bem mais pequena.
- Que se passa? Esta não é minha!
- Bem pelo contrário. Estando suas panelas à minha guarda por motivo de empréstimo, nasceu delas este rebento que por direito é seu – respondeu o homem de humor.
Decorridos meses, pediu Nasrudin as panelas do amigo. Por não as devolver veio este reclamá-las.
Disse o Mullah:
- Suas panelas faleceram. Se bem se lembra já decidimos em tempos idos que panelas são mortais.




A CADA UM SEGUNDO AS SUAS NECESSIDADES



Um mendigo pediu esmola ao Mullah.
Este questionou-o:
- Gosta de estar no café e de fumar?
- Sim.
- Gosta de ir aos banhos turcos? De beber, comer bem e de se divertir?
- Gosto de tudo o que é agradável – respondeu o mendigo.
Nasrudin deu-lhe uma moeda de ouro.
Uns passos à frente estava um outro mendigo que tendo ouvido o diálogo pediu também esmola a Nasrudin.
Este interpelou-o:
- Gosta de estar no café e de fumar?
- Não.
- Gosta de ir aos banhos turcos? De beber, comer bem e de se divertir?
- Não. Vivo na simplicidade e a rezar – respondeu o mendigo.
O Mullah deu-lhe uma moeda de cobre.
- Porquê?! - questionou o mendigo -, a mim, cumpridor da lei, pequena esmola me dás enquanto que ao devasso com ouro o honraste.
- Atenta que as necessidades dele são bem superiores às tuas – respondeu com convicção Nasrudin.




BEM PODE SER VERDADE



Nasrudin passeava. Garotos atiravam-lhe pedras, escarnecendo dele.
- Não façam isso, parem. Vou contar-lhes coisa que vos interessa.
- Tudo bem Mullah. Mas não se ponha com histórias e filosofias – responderam os miúdos desconfiados.
- Não. O Emir oferece hoje um banquete para todos.
Os miúdos correram para o palácio.
Nasrudin coçou a cabeça e começou a imaginar magnífica e lauta refeição. Então levantou o manto ligeiramente, correndo atrás deles.
- Será melhor ir para ver. Bem pode ser verdade.




A ASTÚCIA DE NASRUDIN



Nasrudin bateu à porta de um vizinho.
- Amigo, estou pedindo ajuda para um desgraçado, bom homem que não consegue pagar dívida antiga.
- Nobre atitude - disse o vizinho dando-lhe uma moeda de prata.
- Já agora Mullah, diga-me quem é esse homem?
- Eu mesmo - disse enquanto se afastava.
Ainda não estava decorrido um mês o Mullah bateu à porta do mesmo vizinho.
Este, precavido, disse:
- Novamente por causa de dívida, presumo?
- Tem razão.
- Suponho que seja você o devedor.
- Desta vez não.
- Prezo em ouvi-lo e à acção.
Entregou uma moeda que Nasrudin guardou.
- Antes de ir, diga-me, o que neste caso o fez pedir?
- Sou eu o credor – respondeu Nasrudin.




ORAÇÃO PARA A HORA DA MORTE



Um religioso erudito estava muito doente. Tendo ouvido falar do misticismo do Mullah decidiu aconselhar-se.
- Nasrudin, ensine-me uma oração que me auxilie a entrar no céu - disse.
- Certo, assim o farei.
Diga:
- Meu Deus ajude-me.
Satanás ajude-me.
Indignado com tal blasfémia exclamou o paciente:
- Está completamente louco, Nasrudin!
- Claro que não. Um homem na sua posição, com duas alternativas viáveis, deve por todos os meios fazer os possíveis e os impossíveis para que qualquer uma delas o favoreça – esclareceu-o convicto Nasrudin.




NÃO FUI EU QUE COMECEI, FOI ELE QUE COMEÇOU



Nasrudin entrou na mesquita com camisa demasiado curta. O fiel que o seguia decidiu puxá-la, ajeitando o desajeitado.
Nasrudin puxou de seguida a do homem que se lhe seguia.
Este questionou-o:
- Que faz, homem?
- Não me pergunte. Pergunte ao que me precede. Não fui eu que comecei, foi ele que começou – respondeu Nasrudin.




NASRUDIN DESMEMORIADO



Nasrudin foi à consulta:
- Doutor, não me consigo lembrar de nada. Nada mesmo.
- Diga-me em que momento isso começou? – questionou-o o clínico.
- Isso, isso o quê?




FENYANG – QUANDO É QUE IREIS PARAR DE COMPETIR?



Fenyang estava sentado à sombra de frondosa árvore no jardim da praça central da cidade. Junto dele, estavam alguns discípulos. Transeuntes movimentavam-se ansiosa e apressadamente, enquanto outros, se detinham nas lojas, vasculhando com o olhar os artigos expostos.
 Perto dele, dois homens sentados na relva queixavam-se da crise e dos seus negócios. Duas senhoras que passavam exaltavam as actividades profissionais dos esposos, e uma referia-se orgulhosamente ao seu vestido novo, modelo de colecção único, com desenho exclusivo de um dos mestres costureiros mais afamados da cidade.
Fenyang, com os olhos poisados em duas nuvens no céu azul, falou sem direcção:
- As pessoas seguem arbitrariamente os sentidos materiais, correndo como asnos.
Quando é que ireis, alguma vez, parar de competir?
Antes que deis conta, o cenário da Primavera transformou-se em Outono. As folhas caem, os gansos migram, a geada torna-se gradualmente mais fria.
Vestidos e calçados, que mais procurais?




ENSINAMENTO DE MESTRE LINGI



Dois jovens estudantes abordaram Lingi, lamentando-se. Há mais de cinco anos vagueavam pelo país, buscando o ensinamento de reconhecidos mestres, mas a cada dia a confusão mental e doutrinária aumentava. Se no início não tinham quaisquer certezas, agora estavam perplexos e desorientados.
Lingi sorriu amavelmente, e disse:
- É da maior urgência que procureis a percepção e compreensão reais e verdadeiras, para que possais estar livres no mundo e não serdes confundidos por espiritualistas vulgares.




CONFÚCIO - ULTRAPASSAR OU NÃO CHEGAR



O discípulo perguntou:
- Qual dos dois é o mais venerável? Che ou Chang?
O Mestre, disse :
- Che ultrapassa a justa medida e Chang não se aproxima dela.
Volveu o discípulo:
- Deve, então, preferir-se Che?
O Mestre respondeu:
- Ultrapassar não é um defeito menor que não chegar.




BUDA E A MEDITAÇÃO



Buda terá dito:
“Tal como no fundo do oceano não existem vagas, mas uma grande imobilidade, também o praticante deveria estar imóvel, inabalável e nunca agitado pelas vagas interiores.”




CONFÚCIO E O SEU DISCÍPULO PREFERIDO



O discípulo preferido do Mestre demonstrou intenção de viajar.
O Mestre, disse: 
- Sê fiel à tua palavra, ama o estudo, consagra-te ao caminho recto e prepara-te para que por ele te sacrifiques.
Não te dirijas para um país que ameace ruína e não residas onde reina a anarquia.
Se a justiça triunfar no mundo, dignifica-te; se a justiça estiver ausente, dissimula-te.
Se fores pobre e desdenhado num Estado onde reina a justiça, que vergonha! Se fores rico e honrado num Estado onde não haja justiça, que vergonha!




MESTRE ZEN BAOCHE E A NATUREZA DO VENTO



O Mestre Zen Baoche de Monte Mayu estava a abanar-se com um leque, quando um monge se aproximou dele e perguntou:
- Mestre, a natureza do vento é permanente e não há nenhum lugar que não alcance. Porque é que te abanas?
Baoche, respondeu:
- Embora compreendas que a natureza do vento é permanente, não compreendes o significado de ele tudo alcançar.
- Qual é o significado de tudo alcançar? - perguntou de novo o monge.
O Mestre continuou simplesmente a abanar-se. O monge inclinou-se profunda e reverencialmente.




INSTRUÇÃO DE BUDA AOS MONGES



Buda, tendo os monges reunidos junto a si, disse:
“Andai sobre a terra para benefício dos seres, para a felicidade dos seres, por compaixão pelo mundo, para o bem, para o benefício e para a felicidade dos deuses e dos homens.”




BUDA - A SETA ENVENENADA



Um homem dominado pela angústia existencial foi visitar o Bem-Aventurado querendo obter resposta conclusiva para as dúvidas que o atormentavam, para as questões filosóficas que lhe assoberbavam o espírito, antes de se dedicar à prática do budismo.
Como resposta, Buda disse:
- É como se um homem tivesse sido ferido por uma seta envenenada e dissesse ao médico que o quer curar: - Não o deixo tirar a seta do meu corpo enquanto não souber a casta, idade, ocupação, lugar de nascimento e motivação da pessoa que me feriu. 




CONFÚCIO - DEFINIÇÃO DE HOMEM DE BEM



O Mestre disse:
- Há nove casos aos quais um homem de bem está atento:
Ao observar procura ver claro;
Ao escutar procura ouvir bem;
Ao tomar uma atitude, procura que seja afectuosa e amigável;
No seu comportamento, esforça-se por ser humilde e modesto;
Ao falar, quer que as suas palavras sejam sinceras;
Ao ocupar-se dos assuntos públicos, dedica-se-lhes;
Ao duvidar, procura interrogar;
Ao zangar-se, pensa nas más consequências da cólera; e
Ao encarar um benefício, julga-o do ponto de vista da justiça e da honestidade.




A LEI DO KARMA É ERRÓNEA E ENGANADORA



No alto de um minarete, um sacerdote muçulmano chamava o povo para a oração.
Tal era o vigor e entusiasmo com que o fazia, deslumbrado com as suas próprias palavras, que se desequilibra caindo bem em cima de um sufi que por mero acaso ali passava.
O sufi teve de ser submetido a rigoroso tratamento no hospital da cidade, prevendo os médicos uma convalescença prolongada.
Os seus discípulos foram visitá-lo, e um deles, com carinho e reverência, questionou-o:
- Mestre, habituámo-nos a ver-te tirar benefício de tudo o que na vida te tem acontecido. Diz-nos então, a que conclusão chegais?
- Bom - respondeu o sufi com a calma e paciência que lhe eram peculiares - por via deste facto podeis ter a certeza de que a lei do karma é de todo errónea e enganadora. Segundo essa lei, a causa produz o efeito, quem semeia colhe o que semeou. Não obstante, foi o sacerdote quem semeou e fui eu o que colheu.