HISTÓRIAS DE ESPIRITUALIDADE

HISTÓRIAS DE ESPIRITUALIDADE
A SABEDORIA DOS MESTRES

domingo, 8 de maio de 2016

O BURRICO DE NASRUDIN



Alguém chegou esbaforido:
- Nasrudin, seu burrico desapareceu.
- Graças a Alá que eu não estava em cima dele senão teria desaparecido também.




O VERDADEIRO DESAPEGO



Um religioso disse:
- O meu desapego é imenso.
Nunca penso em mim, apenas nos outros, nos meus irmãos.
Nasrudin afirmou:
- E eu sou objectivo. Posso ver-me como outra pessoa. Assim, sou capaz de pensar em mim.




NASRUDIN E O MAR



Nasrudin viajou para ver o mar. As ondas desfaziam-se na areia, explodiam violentamente contra as rochas desfazendo-se em alva espuma.
O azul estendia-se ao céu do horizonte e tamanha vastidão dominava um Nasrudin extasiado.
À beira-mar, de joelhos, mãos em concha provou a água que de imediato cuspiu, dizendo:
- Lindo, pois sim, como é que coisa com tais pretensões, de tamanhas proporções, não é digna de se beber?!




A AVAREZA DE NASRUDIN



Nasrudin transportava dois cestos de uvas.
Algumas crianças pediam-lhe um cacho.
Deu um ou dois bagos a cada uma delas.
- Como é avarento Nasrudin - disseram.
- Claro que não – respondeu o Mullah.
- Vocês são crianças tolas, provando uma já sabem como as outras são.




AS PESSOAS SÃO COMO OS ANIMAIS



Nasrudin especulava:
- As pessoas são como os animais. Fazem o que eles fazem mas pensam que são diferentes.
- Não seja tolo. Se você tivesse razão os coelhos escreveriam livros tal qual gente - disse um religioso.
- Escreveriam sim, escreveriam se de quando em vez olvidassem o desejo urgente de comer cenouras.




O CAMINHO CERTO PARA A LIBERTAÇÃO



O espírito do discípulo estava completamente repleto de questões insolúveis.
As dúvidas assolavam-no, gerando-lhe uma intensa e terrível angústia.
Num momento de desespero, questionou o Mestre:
- Quando e como saberei que estou a traçar o caminho correcto na direcção da libertação?
O Mestre respondeu:
- Filho, não te angusties nem te consumas. Essas questões irão desaparecer naturalmente quando estiveres a pisar o caminho que conduz à libertação.




MEDO TERRÍVEL DE MORRER



Um homem disse a um rabino:
- Tenho um medo horrível de morrer.
O rabino disse.
- Tenho a cura para os teus medos. Todas as noites entrega-te ao sono como se fosses morrer.
Decorrido algum tempo, encontraram-se e o rabi perguntou-lhe:
- Seguiste o meu conselho?
- Segui.
- Quantas horas dormiste?
- Não faço ideia, rabi. Mas, mal me deitava adormecia e quando despertava, tinha a sensação de que acabara de me deitar.
- Tudo como se de um minuto se tratasse?
- Exacto, rabi.
- Quando se dorme não temos consciência do tempo que passa.




NASRUDIN E O POTE DE MEL A FERVER



Nasrudin tinha acabado de pôr mel a aquecer num tacho, quando inesperadamente surgiu um amigo.
O mel começou a ferver, Nasrudin retirou-o do lume e ofereceu um pouco à visita, depois de o ter vertido numa pequena tigela.
A visita, incauta, queimou-se.
Nasrudin, um tanto aflitivamente, muniu-se de um leque, correu para o fogão e começou a agitá-lo em cima do pote que ainda estava ao lume intentando arrefecer o mel.




COMO É QUE OS PÁSSAROS ENTRAM NO OVO?



Nasrudin passeava com o seu filho no parque municipal, quando se deparam com um ovo no chão, junto de plantas arbustivas rasteiras.
Perguntou a criança:
- Pai, como é que os pássaros entram no ovo?
Nasrudin confuso, disse:
- Durante toda a minha vida me questionei quanto ao facto dos pássaros saírem dos ovos, e agora vens tu gerar mais um problema na minha mente.




QUANDO ENCONTRARES A VERDADE...



Um sufi cuja sabedoria era pacificamente reconhecida na região, disse a Nasrudin:
- Caso encontres a verdade, agarra-a e não hesites, atira-a para o fundo de um poço.
Decorrido algum tempo, num trilho de campos cultivados, encontrou Nasrudin uma mulher cega que reclamou o seu auxílio.
Nasrudin dispôs-se a auxiliá-la, dando-lhe o braço e conduzindo-a ao seu destino.
A certa altura do trajecto, questionou-a:
- Há algum tempo que viajamos juntos e ainda não sei o seu nome. Qual é o seu nome nobre senhora?
- Verdade - respondeu a idosa.
A poucos metros, numa exploração agrícola encontrava-se um poço. Nasrudin não se fez esperar. Pegou-a ao colo e atirou-a para dentro dele.




sábado, 7 de maio de 2016

CONFÚCIO GRAVEMENTE DOENTE



Quando o Mestre estava gravemente doente, o senhor Meng King foi vê-lo.
O Mestre tomou a palavra e disse:
- Quando um pássaro vai morrer, o seu canto torna-se lânguido; está um homem para morrer e as suas palavras são suaves.
O caminho recto engloba três pressupostos que um homem nobre deve apreciar acima de tudo:
As suas maneiras e atitudes não devem indiciar orgulho e violência;
A sua atitude e o seu coração devem estar de acordo;
A forma de se exprimir e a entoação da sua voz, nunca devem ser grosseiras.




CONFÚCIO E O COMPORTAMENTO DO HOMEM DE BEM



- Qual deve ser o comportamento do homem de bem? – perguntou um discípulo ao Mestre.
O Mestre disse:
- É forte, mas não despreza os fracos, pedindo-lhes inclusivamente conselho.
É bem dotado intelectualmente, mas consulta o que é pouco dotado.
Possui boas qualidades, mas parece não as ter.
Está cheio e completo, mas parece estar vazio.
Tem a aparência de quem é sempre ofendido, mas que nunca ofende.
Este era o comportamento de um dos meus antigos amigos.




FRAUDE NO TEMPLO



Havia na Índia um templo, cuja administração era entregue rotativa e mensalmente a um grupo de monges mais velhos.
O que administrava juntava as esmolas recebidas dos fiéis e converti-as numa moeda de ouro que depositava num cofre, tradição cumprida durante muitas gerações.
Um dia, um dos monges em exercício de administração, pensou:
- Não há quem veja o que coloco no cofre. Desta vez, depositarei uma moeda de cobre e arrecadarei a diferença.
Assim o pensou, assim o fez.
Alguns anos após, o cofre foi aberto para se fazer a contagem das moedas de ouro, mas para espanto geral, a maior parte era de cobre...




PALAVRAS DE CONFÚCIO



Confúcio disse:
“Um homem nobre que age de modo estouvado não é respeitado e podemos dizer que os seus estudos são vãos.
Aprecia acima de tudo a fidelidade e a honestidade.
Não traves amizade com um homem que não é como tu.
Se cometeres um erro, não hesites em mudar de conduta.”




O PROFETA ELIAS E A ANUNCIAÇÃO DA LIBERTAÇÃO



Um Mestre do Talmude teve a visão do Profeta Elias. Aproveitando tal ensejo, questionou-o:
- Quando virás tu anunciar a Libertação?
- Será hoje mesmo, se escutares a Sua voz - respondeu Elias.




TEXTO ZEN DE GUETSU



O mestre Zen Guetsu escreveu para os seus discípulos:

“Viver no mundo e, no entanto, não criar apego ao pó do mundo é o caminho de um verdadeiro estudante de Zen.
Ao testemunhar a boa acção de outrem, encoraja-te a seguir-lhe o exemplo. Ao saber do erro de outrem, diz a ti próprio que o não deves imitar.
Ainda que estejas só, num quarto totalmente às escuras, age como se tivesses perante ti um respeitoso hóspede.
Exprime com franqueza os teus sentimentos, mas não te tornes mais expressivo do que a tua verdadeira natureza.
A pobreza é o teu tesouro. Nunca a troques por uma vida ociosa, de lazer.
Uma pessoa pode parecer um louco e no entanto não o ser. Poderá estar apenas a guardar cuidadosamente a sua sensatez.
As virtudes são o fruto da autodisciplina e não caem do céu por si próprias como a chuva ou a alva neve.
A humildade é o alicerce de todas as virtudes. Deixa que teus vizinhos te descubram, antes de te apresentares.
Um coração nobre não se força a exprimir-se. As suas palavras são como pedras raras, raramente expostas e de grande valor.
Para o discípulo sincero e honesto, cada dia é um dia afortunado. O tempo passa, mas ele nunca se deixa ficar para trás. Nem a vergonha nem a glória poderão nele influir.
Censura-te a ti próprio, nunca aos outros.
Não discutas o que está certo e o que está errado.
Algumas coisas, embora certas, foram consideradas erros crassos durante inúmeras gerações. Posto que o valor da rectidão pode vir a ser reconhecido séculos mais tarde, não há motivo plausível para ansiar por um reconhecimento imediato.
Vive com a causa e deixa os efeitos para a grande lei do universo.
Passa cada dia em tranquila meditação.”




O MONGE COM FRIO



Um monge estando em viagem, recolheu-se num templo. A noite estava particularmente fria e não iria conseguir sobreviver até à alvorada.
Queimou uma imagem de Buda talhada em madeira.

O que é o “sagrado”?




A ERVA, FLORES E ÁRVORES IRÃO ATINGIR A ILUMINAÇÃO?



- Será que a erva, as flores e as árvores irão acabar por atingir a iluminação?
O Mestre respondeu:
- Qual o interesse desse tipo de discussão. A verdadeira questão é a dúvida legítima que te deve preocupar quanto à tua própria iluminação.
Vai para os teus aposentos e medita nisso.




PALAVRAS DE SHOSAN



Shosan disse:
“O Budismo não é uma questão de usar o intelecto racional para governar o corpo. É uma questão de usar inteiramente o momento do presente, de forma imediata, sem o desperdiçar, sem pensar no passado ou no futuro.
É por isso que os antigos exortavam as pessoas a acautelarem-se, antes de mais nada, com o tempo: tal significa manter a mente liberta, varrendo dela todas as coisas, boas ou más, e desapegar-se do ego.”




MISTICISMO E COISAS MATERIAIS



Man-na disse a um estudante:
- Se quiseres atingir rapidamente o domínio de todas as verdades e ser livre em todas as circunstâncias, não há nada melhor do que concentração na actividade. É por isso que se diz que os estudantes de misticismo que se esforçam por encontrar o Caminho devem tomar assento no meio das coisas materiais.




MESTRE IQUIÚ E O PASSAMENTO DE NINACAVA



Mestre Iquiú visitou Ninacava no dia em que este se preparava para o passamento.
- Queres que te conduza? - perguntou Iquiú.
- Que ajuda podes tu conceder-me? Sozinho cheguei e sozinho partirei.
- Se pensas que aqui chegaste e que daqui partes, é essa a tua maior ilusão. Permite que te mostre o Caminho onde inexiste chegar e partir.
Com estas palavras, o Caminho estava revelado, nada mais haveria a dizer; Ninacava, com um amplo e sereno sorriso nos lábios, abandonou este mundo.




A SABEDORIA DE UM HOMEM QUE CORREU MUNDO



Perguntaram a um erudito que havia corrido mundo, se tinha algo a dizer sobre algum homem em especial que tivesse conhecido nas suas inúmeras viagens.
Respondeu:
- Viajei pelos sete climas, mas no mundo inteiro não vi mais do que um homem e meio.
A unidade foi um homem que morando numa zawya não falava nada de bom nem nada de mal de ninguém.
A metade era um homem excelente nisto, que das pessoas somente falava o bem.




LAMBARICE E AVAREZA



Nasrudin em visita à Índia viu um homem vendendo o que pensou serem doces. Guloso, comprou inúmeros chiles. 
Logo que comeu o primeiro lacrimejaram os seus olhos e o rosto ficou avermelhado por serem tão apimentados.
No entanto não se susteve, continuava a comer.
Um transeunte estupefacto comentou:
- Ouça amigo, chiles só poucos se comem.
- Pensava que eram doces – respondeu Nasrudin.
- Se já sabe o que são, qual o motivo porque não pára? Veja como ardem e fazem doer.
Tossindo, soluçando, com lágrimas a escorrer, Nasrudin disse:
- Não vou deitar o meu dinheiro a perder.




O PODER DO MEDO



Um rei incrédulo tendo ouvido narrar os poderes místicos do afamado Nasrudin, ameaçou-o:
- Enforcar-te-ei num ápice se não me demonstrares o teu misticismo.
- Vejo coisas estranhas, meu rei. Aves douradas nos céus, demónios nas profundezas da terra, anjos cantando a glória de Alá.
- Como podes tu ver o que não vejo? Ver através da terra, na lonjura do céu?!
- Medo, Majestade. Medo vos juro, é tudo o que necessito - respondeu o Mullah.




QUERER ESTAR DOENTE



Nasrudin aguardava com paciência na sala de espera do médico.
Ia repetindo:
- Espero estar muito doente... Espero estar muito doente.
Os outros pacientes já inquietos olhavam-no intrigados.
Nisto, surgiu o clínico.
Nasrudin retornou:
- Espero estar muito doente.
O médico não se conteve:
- Porquê, qual o seu prazer nisso?
- Doutor, seria detestável que alguém que tão mal se sinta de nada padeça.




BUSCANDO O SONO



Meia-noite. Nasrudin passeava-se pelas ruas sem direcção ou destino.
Um polícia questionou-o:
- Que fazes tu a esta hora? É perigoso vaguear só.
- Perdi o sono e busco-o – respondeu Nasrudin.




A ESSÊNCIA DO DESTINO



Diz-me Mullah:
- Qual a essência do destino, qual o seu significado?
- Meras suposições... – respondeu Nasrudin.
- Em que sentido? Não entendo a sua afirmação.
- Cada um supõe que tudo irá correr bem, mas não corre. A isto chamamos azar.
Que tudo irá correr mal, mas não corre. A isto chamamos sorte.
Supomos que algo irá acontecer ou que tal não acontecerá. Mas não sabemos de verdade o que a realidade nos trará.
Enfim, supomos que o futuro é imprevisível e desconhecido. 
Quando ocorre ser surpreendido no meio de tanta suposição você chama-lhe destino.




CONFÚCIO - TER RENOME OU SER DISTINTO



Tseu-tchang perguntou:
- Quem podemos considerar como oficial distinto?
O Mestre respondeu:
- E, que significado tem para ti a palavra “distinto”?
Tseu-tchang disse:
- Aquele cujo nome é tão grande na sua família como no país em que vive.
O Mestre disse:
- Ter renome, não é sinónimo de que se seja distinto. Para que se chegue a essa elevação, é necessário que se tenha um carácter leal, que se ame a justiça, que se seja prudente quando se fala, atento às suas atitudes, sejam elas quais forem, modesto e humilde. A distinção de tal homem será reconhecida tanto no país como na própria família. Quanto ao “renome”, até um homem que finja procurar o bem, iludindo os outros, mesmo quando as suas acções sejam contrárias, e que procure impor-se sem cessar, pode alcançar “renome” no seu país e na sua casa.




O PERFUME DE TAHAR



Um homem de nome Tahar, trabalhava há largos anos nos esgotos da cidade. Sempre o mesmo trabalho, sempre o mesmo cheiro.
Certo dia, terminada a jorna, caminhou por uma rua onde uma loja que exalava estranhas fragrâncias lhe chamou a atenção. Era uma perfumaria.
Entrou, e muito compenetrado foi cheirando alguns dos muitos frascos expostos. Nunca tinha sentido o odor de tais substâncias. Os aromas inebriavam-no.
Passados alguns minutos, a cabeça começou a rodopiar em tenebrosa vertigem e desmaiou. Tudo foi feito para o fazer retornar ao estado de consciência, mas em vão.
Como nada fosse conseguido, deliberaram os presentes avisar o pai de Tahar, narrando-lhe o sucedido.
Este correu para a perfumaria onde o filho jazia inconsciente. Tirou do bolso uma pequena caixa, contendo restos de fezes e fez com que o seu filho aspirasse o odor fétido que exalava.
Quase de imediato, Tahar recobrou a consciência.




A FALSA SANTIDADE



Um trabalhador indiferenciado percorria a cidade procurando trabalho. Há mais de um mês que não tinha modo de subsistência e a fome fazia-se avizinhar na família.
Encontrou um idoso a quem confidenciou a terrível situação em que se encontrava, que lhe disse:
- Estás perante um santo, um escolhido de Deus. Se me hospedares em tua casa, se cuidares de mim como Deus designou, nem tu nem a tua família terão fome em momento algum, bem pelo contrário, a sorte e a graça do Senhor irão abençoar-vos.
O trabalhador desempregado confiou nas palavras do “santo” e acolheu-o de imediato, não obstante os violentos protestos de sua mulher.
O hóspede comia em excesso, mais parecendo um jovem com fome canina. Em poucos dias desapareceram os alimentos armazenados na despensa e a mulher não se conteve:
- Esse homem tem um apetite voraz e tu és um imbecil crédulo. Em poucos dias delapidou os escassos alimentos que guardámos para suprir as nossas necessidades. Vai e despede-o imediatamente.
Sem alternativa, dirigiu-se ao ancião que ainda dormia, dizendo:
- Desculpa-me, nada posso fazer. O galo já canta, o dia começa e nada temos para comer. Tens de partir agora mesmo.
- Enganas-te - respondeu o velho manhoso - ainda podemos cozinhar o galo. 




OS JUSTOS VOLTAM AS COSTAS AO MUNDO



Confúcio disse:
“Os justos voltam as costas ao mundo; os que estão num grau mais baixo, voltam as costas à sua pátria; e os que estão num grau ainda mais baixo, voltam as costas à sua palavra.”




O FILHO DE BUDA



Cinco anos após ter abandonado a sua mulher, esta dá à luz um filho, e atribui a paternidade a Buda, seu esposo.
Não houve quem em tal facto se acreditasse, que apenas um milagre explicaria.
Quando Buda retornou, disse:
- Houve efectivamente um milagre. Este menino é meu filho, e irei demonstrá-lo.
Nisto, tirou o seu anel que entregou à esposa, dizendo:
- Vai e entrega este anel ao menino. Ordena-lhe que o entregue ao pai.
Antes que o menino chegasse á sala de cerimónias, Buda transformou todos os presentes, duas mil almas, à sua imagem e semelhança. Na sala estavam dois mil budas.
Quando a criança entrou, acompanhado pela mãe, dirigiu-se sem hesitações ao Buda verdadeiro, seu pai, e entregou-lhe o anel, tal como lhe havia sido ordenado por sua mãe.
Buda disse:
- Este é o meu filho, carne da minha carne e espírito do meu espírito.




AS MIL E UMA PORTAS DO PALÁCIO INTERIOR



Existiu outrora um excêntrico rei que ordenou a construção de um magnificente palácio, no qual apenas se podia entrar por uma pequena porta. Todos os que visitavam o palácio não o conseguiam ver, já que depois de transposta a minúscula porta de entrada, abriam-se milhares de outras portas, que conduziam a inultrapassáveis labirintos.
Um dia, o príncipe dirigiu-se ao palácio para visitar seu pai. Entrou pela porta pequena e tomou consciência imediata de que todas as outras eram o reflexo de uma única, que abriu, entrando directamente nos aposentos do rei seu pai. 






O CAMINHO CORRECTO



- Mestre mostra-me o caminho correcto.
Confúcio disse:
- A deferência que ultrapassa a medida degenera em trabalho árduo.
A prudência que ultrapassa a medida degenera em cobardia.
A fortaleza que ultrapassa a medida degenera em insubmissão.
A franqueza que ultrapassa a medida degenera em insolência.
Um homem nobre que não esquece o seu dever para com os seus pais encoraja o povo a fazer o bem. Se ele não voltar as costas aos seus antigos camaradas, não encorajará a versatilidade do povo.




O COSTUME DE DORMIR DURANTE O DIA



Tsai Yu tinha o costume de dormir durante o dia.
O Mestre disse:
- Para que serve esculpir madeira apodrecida? Para que serve repreender Yu? Outrora eu ouvia as palavras dos homens e acreditava nas suas promessas. Agora, não me contentam, mas presto atenção às suas acções. 
Foi Yu que me fez mudar.




NASRUDIN E A DOAÇÃO EM SONHO



Nasrudin tinha um filho. Numa das muitas visitas que lhe fazia, disse a seu pai:
- Meu pai, esta noite tive um sonho extremamente agradável. Sonhei que me havias dado cem moedas de prata.
Nasrudin, com ar pleno de circunspecção, disse:
- Tens sido um bom filho. Ninguém pode desejar mais, reconheço. Não tens vícios, és respeitador e sensato. Deste modo, fica em descanso que as cem moedas que te dei no sonho são tuas, não te pedirei a sua restituição. Vai e compra com elas tudo o que te aprouver.




NASRUDIN, O JUMENTO E A LENHA



Nasrudin, instado pela mulher foi à floresta buscar lenha para o fogão. Depois de ter junto um bom braçado, colocou-o às costas atado com um nagalho e montou no jumento.
No caminho, os transeuntes riam-se de tal figura: um homem com lenha às costas, montado num asno. Asno sobre asno - pensavam.
Alguns diziam:
- Porque é que carregas nas tuas costas a lenha, quando a podias carregar no burro? De que te serve a cabeça, apenas para usar chapéu? Não pensas pobre homem?
Nasrudin, agastado, respondeu:
- Como sois parcos de vista e lerdos de espírito. Não basta a este pobre animal que eu o monte, para que tenha ainda que suportar o peso da lenha. Poupo-o a um peso suplementar.




NGAI, TSAI NGO E CONFÚCIO – NÃO CONDENEMOS O PASSADO



O príncipe Ngai perguntou a Tsai Ngo:
- Como se constroem altares à terra?
Tsai Ngo respondeu:
- Os reis da casa Hia plantavam pinheiros perto dos seus altares. Os Yin plantavam ciprestes e os Tcheu castanheiros para que o povo tremesse de medo.
Confúcio, então, disse:
- Não discutamos o que já está feito, não censuremos o que está acabado e não condenemos o que pertence ao passado.




DOM DE CRIANÇAS



Um grupo de crianças brincava na praia com gaivotas. Era uma delícia observar como sem medo, elas pousavam nos seus ombros, braços e mãos. Uma ou outra aterrava nas suas pequenas cabeças e amorosamente bicavam-nas com leveza, como quem beija.
O pai de uma delas, tendo conhecimento do ocorrido, disse-lhes:
- Sei que brincastes com gaivotas. Tragam algumas para que também eu possa brincar.
No dia seguinte, pela manhã, os petizes dirigiram-se à praia, mas nenhuma se aproximou. 




O CAMINHO DO MISTICISMO



Depois de muito caminharem, sem abrigo à vista, enfrentando o frio e a neve, perguntou o discípulo:
- Para onde vamos, Mestre?
Respondeu o Mestre:
- Já lá estamos!




PALAVRAS DE TAN-LIN DISCÍPULO DE BODHIDHARMA



Tan-Lin, discípulo de Bodhidharma, disse:
“Os sábios não poupam o seu corpo, nem os seus bens, e nunca se cansam de ser generosos. São independentes e sem apegos.
Não se deixam enganar pelas aparências, e praticando as seis perfeições – compaixão, moralidade, paciência, energia, meditação e sabedoria transcendente –, não as usam em proveito próprio. Assim, sem pensar nisso nem lhe atribuir nenhum mérito, vivem no Amor de todas as criaturas, tranquilos, unidos em harmonia com o Dharma – a lei, a virtude e o bem.”




NÃO FALAR DA VERDADE...



Um discípulo perguntou a Nasrudin:
- O que é a verdade? Em que consiste? Qual a sua essência?
- É algo de que nunca falei nem falarei - respondeu.




NASRUDIN E O ÓBVIO



Nasrudin embrulhou um ovo num lenço e na praça do vilarejo juntou o povo.
- Hoje vou pôr-vos à prova. Que todos concorram. Quem descobrir o que está dentro do lenço recebe o ovo que está lá dentro.
O povinho começou por afirmar a sua ignorância. Ninguém se sentia capacitado para presságios, adivinhações.
Volveu Nasrudin em tom de auxílio:
- O que está no lenço é amarelo no centro tal como a gema. O centro está envolvido por um líquido de cor clara. Ambos dentro de frágil casca. Tem como símbolo a fertilidade. Evoca pássaros e seus ninhos.
Alguém sabe?
Ninguém havia que num ovo não pensasse.
Mas, resposta óbvia... Um místico não o faria. Talvez o Sol, talvez uma energia, um objecto mágico. Quem o diria?!
Nasrudin questionou-os uma vez mais.
Ninguém teve a ousadia de responder.




NASRUDIN E A TRIBO SANGUINÁRIA



- Estive no deserto e aí fiz correr para valer uma tribo sanguinária – disse o Mullah.
- Como é que conseguiu? - perguntaram os presentes.
- Simples. Corri, e eles atrás de mim - respondeu Nasrudin.




NÃO PEDIR CONSELHOS



Nasrudin iniciou a construção de uma casa. Seus amigos, artistas, pedreiros, carpinteiros, arquitectos e engenheiros, todos o envolveram em conselhos.
Todos lhe diziam exactamente o que fazer.
Nasrudin, feliz, seguiu as instruções.
Terminada a construção com tudo se parecia menos com uma casa, nada tinha a ver com uma habitação.
- Curioso - disse Nasrudin -, fiz com exactidão tudo o que cada um me disse para fazer.




O PAU E A SERPENTE



Nasrudin transportava consigo um antídoto contra mordedura de serpente.
Estranhando-o um aldeão perguntou:
- Para quê esse contraveneno?
- Sabe como é perigoso – respondeu. Peguei num pau e julguei tratar-se de uma cobra.
- Por amor de Alá, um pau não o picaria nem morderia.
- Sim?! E a serpente que agarrei para me defender do galho? – respondeu Nasrudin com alguma indignação.




NASRUDIN E A RECOMPENSA



Nasrudin tinha boas novas para o Rei. Depois de grande dificuldade e paciência conseguiu a almejada audiência.
O Rei agradecido disse:
- Nasrudin escolha a sua compensação.
- Cinquenta chicotadas – peticionou Nasrudin.
Surpreso e abismado ordenou o Rei o cumprimento do peticionado.
Aplicadas que estavam vinte e cinco, o Mullah anunciou:
- Alto lá! Tragam agora o meu parceiro. Que receba metade da promessa.
- Quem e porquê? - perguntou o Rei.
- O camareiro real. Permitiu ver-vos sob o juramento de que com ele dividiria metade da recompensa. Cumpra-se a palavra que é lei.




BUDA E ANANDA - A VIDA SANTA



O Venerável Ananda aproximou-se do Senhor Buda, prosternou-se e sentou-se ao seu lado. Depois de sentado, Ananda disse a Buda:
- Parte desta vida santa, Senhor, consiste em termos amigos nobres, companheiros de bem e em nos associarmos com os bons.
- Não digas isso, Ananda. Não digas isso. Toda a vida santa consiste nesta amizade, neste companheirismo, nesta associação com os bons – replicou Buda.




BUDA - OS ELOGIOS



Certo dia, Buda prontificou-se a instruir os monges, dizendo:
“Se alguém exterior à comunidade falar contra mim, contra o ensinamento ou contra a comunidade, não se aborreçam, pois isso é um verdadeiro antídoto contra a vossa presunção.
Do mesmo modo, não se deixem perturbar pelos elogios.
Devem distinguir a verdade da mentira e tomarem conhecimento do facto em si. Mesmo os elogios que os homens não convertidos fazem de mim, têm muito pouca importância.
Se alguém se dispuser a admoestar outrem, deve possuir cinco qualidades para que o possa fazer: 
Falar no momento adequado e não fora de propósito;
Falar com verdade, sem recurso a quaisquer falsidades;
Falar com doçura e sem aspereza;
Falar para seu bem, e não para seu mal;
Falar com boa intenção e sem cólera.”




REGRAS DE SOIENE CHACU



De manhã, antes de nos vestirmos, acender incenso e meditar.
Recolher-se sempre à mesma hora.
Comer a intervalos regulares, com moderação e nunca até à saciedade.
Receber um convidado com a mesma atitude que se tem quando se está só.
Quando sozinhos manter a mesma atitude que se tem quando se recebe um convidado.
Prestar atenção ao que se diz e diga-se o que se disser, praticá-lo.
Quando surgir uma oportunidade, nunca a perder, mas pensar sempre duas vezes antes de agir.
Não lamentar o passado.
Ter a atitude destemida de um herói, o coração terno de uma criança.
Depois de recolher, dormir como se se tivesse entrado no último sono.
Ao acordar, deixar de imediato a cama para trás, como quem deita fora um par de sapatos velhos.




IZU, HAKUIN, E A IGNORÂNCIA ZEN



Izu foi discípulo do grande Mestre Zen Hakuin, herdando os seus modos severos e drásticos. Dizia-se que era mais rigoroso do que o próprio Hakuin.
Quando recebia pessoas que o interrogavam sobre o Zen, e se mostravam hesitantes ou ignorantes, expulsava-as com uma espada desembainhada que para o efeito colocava junto ao seu assento.





BANKEI E A ARTE DA MENTE ZEN



Um homem importante recorreu a Bankei, interrogando-a quanto à arte da mente zen.
Bankei repreendeu-o:
- Fizeram-me constar que despediste um leigo sábio porque não soubeste reconhecer o seu valor. Como podes tu criatura, interrogar-me acerca da arte da mente zen?!




O-SAN NO LEITO DE MORTE



O-San estava no seu leito de morte, rodeada pelos filhos. Estes esperavam ouvir da sua boca as últimas palavras.
O-San recitou um poema:

Neste mundo
Em que as palavras não permanecem de todo,
Como o orvalho não permanece
Nas folhas,
O que hei-de eu dizer
Para a posteridade?




PARÁBOLA SOBRE A ORAÇÃO



Disse-Lhes Jesus:
“Se algum de vós tiver um amigo e for ter com ele à meia-noite e lhe disser: Amigo, empresta-me três pães, pois um amigo meu chegou agora de viajem e não tenho nada para lhe oferecer, e se ele lhe responder lá de dentro: “não me incomodes, a porta está fechada e os meus filhos estão comigo na cama, não posso levantar-me para tos dar.” Eu vos digo: Embora não se levante para lhos dar por ser seu amigo, ao menos levantar-se-á, devido à impertinência dele, e dar-lhe-á tudo quanto precisar.”

Lc. 11, 5-8




AO SERVIÇO DO SENHOR - O PAGAMENTO DE ALÁ



A mulher de Nasrudin insistia para que este trabalhasse.
- Não posso – dizia -, estou ao serviço do Senhor.
- Peça-lhe então um salário; todo o trabalhador tem direito a ser justamente remunerado.
Nasrudin foi para o jardim e bradava aos céus:
- Pagai-me Alá, por todos estes anos de serviço. Cem moedas de ouro não será muito nem pouco, será compensação justa.
Um vizinho rico e chistoso, ouvindo-o em tal prece atirou com um saco de cem moedas que caiu aos pés de Nasrudin.
- Já recebi, já recebi, sou um santo de Deus – gritava entusiasmado o Mullah.
A partir daí Nasrudin fazia vida de rico e não tardou que o vizinho reclamasse o dinheiro.
Obviamente, Nasrudin negou-lho. Afinal tinha-lhe sido enviado por Alá.
- Vou levá-lo a tribunal – afirmou o vizinho.
- Não posso ir perante juiz. Não tenho roupas decentes nem cavalo, nem nada que respeitoso pareça. Decerto julgará a seu favor – disse Nasrudin.
O vizinho emprestou-lhe o manto e a montada.
Dirigiram-se ao juiz, que ouviu toda a história do queixoso, para depois questionar Nasrudin:
- Qual a sua defesa?
- O meu vizinho é louco, Excelência. Julga de tudo ter posse e propriedade. Se lhe perguntardes, vos dirá que meu cavalo e meu manto lhe pertencem. Mais fácil será dizê-lo do meu ouro.
- Mas..., mas, Eminência, é tudo meu! - gritou o queixoso exasperado.
- Caso encerrado - disse o Magistrado.




NASRUDIN NO BARBEIRO



Nasrudin foi ao barbeiro que o barbeou desajeitadamente. A cada navalhada novo golpe onde aplicava sucessivamente pedaços de algodão para estancar o sangue.
Um dos lados do rosto estava cheio de algodão.
Aprontava-se para iniciar o outro lado quando o Mullah vendo-se ao espelho disse:
- Obrigado irmão. Basta. Decidi cultivar num dos lados algodão e no outro cevada.




AFINAL O QUE É QUE É IMPOSSÍVEL?



O Mullah vivia numa cidadezinha junto de um rio. Nas suas margens passeava com um copo de leite na mão. Olhou para o rio, olhou para o copo, derramou o leite no seu leito e com um galho começou a mexer as águas em contínuo movimento circular.
Passava o Presidente da Câmara que depois de muito o observar julgou estar Nasrudin louco.
Mesmo assim, interrogou-o:
- Que fazes Nasrudin há horas sem parar?
- Estou a fazer iogurte.
- Enlouqueceste homem?! Mesmo que derrames cem mil litros nunca farás iogurte. O rio é vasto e suas águas muitas.
Nasrudin olhou-o com o seu jeito peculiar de indagar:
- Já pensou se fosse possível?




A VONTADE DE ALÁ FAZ-SE SEMPRE



Disse um homem:
- Que a vontade de Alá seja feita.
- Sempre se faz, em todo o momento, em qualquer situação - respondeu Nasrudin.
- Como podes provar tal afirmação?
- Simples e conveniente. Se a vontade de Alá se não fizesse sempre, seguramente que a minha uma ou outra vez se faria.




terça-feira, 20 de outubro de 2015

QUEM SOU EU? - PARA QUE QUERES TU UM "EU"?



- Mestre, quem sou eu?
O Mestre respondeu:
- És um tolo. Para que queres tu um “eu”?




DISTINGUIR UM MESTRE VERDADEIRO DE UM FALSO



Dois sannyasin encontraram-se. Um era bem mais idoso do que o outro.
O mais velho questionou o mais novo:
- Para onde te diriges irmão?
- Procuro um verdadeiro Mestre - respondeu o jovem.
Passaram alguns dias juntos, e o mais velho considerou ser esse o momento adequado para partir. Tinha chegado a hora da separação.
O jovem perguntou:
- Para onde vais? Qual o teu destino?
- É um destino sem destino; vou continuar a minha busca.
- Qual?
- A de encontrar um discípulo maduro. Encontrar alguém assim, é como encontrar agulha num palheiro. Muito poucos são os homens capazes de distinguir um Mestre verdadeiro de um falso, talvez um em dez milhões.