HISTÓRIAS DE ESPIRITUALIDADE

HISTÓRIAS DE ESPIRITUALIDADE
A SABEDORIA DOS MESTRES

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

VIAGEM À TERRA DOS SONHOS



Um discípulo de Soiene Chocu, contou que:
O nosso professor primário tinha o costume de dormir um pouco durante a tarde. Perguntámos-lhe porque o fazia, ao que respondeu:
- Vou até à terra dos sonhos encontrar-me com velhos sábios, tal como Confúcio fazia.
Um dia, de calor intenso, alguns de nós adormecemos. Nosso professor admoestou-nos, e aí, explicámo-nos:
- Fomos à terra dos sonhos, para vermos os antigos sábios, tal como Confúcio fazia.
- E qual foi a mensagem dos sábios? - questionou-nos irónico.
Um de nós respondeu:
- Fomos à terra dos sonhos e perguntámos-lhes se o nosso professor os ia visitar todas as tardes. Mas, eles disseram que nunca tinham visto tal pessoa.




DAIDJU E BAZÔ - A ILUMINAÇÃO



Daidju visitou Mestre Bazô.
Bazô, questionou-o:
- Que procuras, amigo?
- A iluminação.
- Tu tens a tua própria casa do tesouro. Qual a razão porque buscas no exterior?
Daidju perguntou:
- Onde está a minha casa do tesouro?
- O que perguntas é a tua casa do tesouro.
O espírito de Daidju iluminou-se. A partir daí, insistia com os que o rodeavam:
“Abram a vossa própria casa do tesouro e utilizem esses tesouros.”





NATUREZA DE BUDA - QUANDO O CÉU CAIR...



O monge questionou o Mestre:
- Poderá um cipreste possuir ou vir a possuir a natureza de Buda?
- Claro que sim, meu jovem.
- Quando é que achais que o cipreste se tornará um Buda?
Respondeu o Mestre:
- No dia em que o céu caia.
O monge, com espanto e um tanto confuso, volveu:
- Mestre, quando é que o céu irá cair?
- Quando o cipreste se tornar um Buda... - respondeu sorrindo.




terça-feira, 13 de outubro de 2015

NA VIDA, SORTE OU AZAR?! QUEM É QUE O DIRÁ?



Numa aldeia chinesa vivia um velho sábio que era dono de um macho, o único da aldeia, com que lavrava os seus campos de arroz e ainda os dos outros habitantes. Nesta perspectiva e no meio de toda a pobreza, era considerado por tal facto um homem abastado.
Certo dia, o macho fugiu para as montanhas. Perante tal acontecimento, toda a aldeia se solidarizou com o velho dono do animal.
Diziam-lhe os amigos e conhecidos: 
- Que azar o teu, a tua vida vai passar a ser agora tão desgraçada quanto a nossa.
No entanto, o velho sábio limitou-se a responder: 
- Sorte ou azar, quem é que o dirá?!
Passaram-se alguns meses, e o macho voltou das montanhas trazendo consigo uma manada de cavalos selvagens, que logo o velho e o filho trataram de encurralar.
Desta vez, os aldeões diziam-lhe: 
- Que sorte a tua, vais ficar riquíssimo, muito mais rico que antes.
E o velho sábio limitou-se a dizer: 
- Sorte ou azar, quem é que o dirá?!
Começou então, o filho a domar os animais. Enquanto montava um deles, o mais obstinado, foi arremessado da montada e fracturou as pernas em várias partes, tendo ficado irremediavelmente inválido.
Agora, os amigos diziam: 
- Que azar o teu, o teu filho nunca mais vai voltar a ser o que era.
Voltou o velho a responder: 
- Sorte ou azar, quem é que o dirá?!
Decorrido que foi um ano, o Japão declarou guerra à China e todos os mancebos da aldeia foram alistados, à excepção do filho aleijado do velho sábio, acabando por morrer a maior parte deles em combate.

Sorte ou azar, quem é que o dirá?! 





A CHEGADA DE BODHIDHARMA À CHINA



Bodhidharma quando chegou à China foi indigitado para comparecer perante o Imperador Wu patrono do budismo Mahayana.
Este perguntou-lhe:
- Que mérito encontras nas minhas acções em favor do Budismo?
- Nenhum, nada – respondeu Bodhidharma.
Com espanto, o Imperador indagou:
- Então, qual é o significado das verdades sagradas?
- O vazio. Não há nada sagrado.
Já denotando irritação e constrangimento disse finalmente o Imperador:
- Quem é a pessoa que me encara?
Bodhidharma respondeu:
- Não sei.




O SUCESSOR DO QUINTO PATRIARCA ZEN



O Quinto Patriarca decidiu escolher o seu sucessor e propôs aos discípulos que captassem a essência do Zen num poema. O autor do melhor poema seria de direito o seu sucessor.
Os monges já pressagiavam o vencedor: o aluno mais antigo. Ninguém ousou competir com a sua sagacidade, inteligência e destreza.

Aguardaram, e o poema apareceu numa parede:

“Este corpo é a árvore de Bodhi.
A alma é como um espelho brilhante.
Tem cuidado para que esteja sempre limpo,
Não deixando que o pó se acumule nele.”

Os monges deliciaram-se. Certamente o Quinto Patriarca também se iria deliciar.

Mas, no dia seguinte, ao lado deste, estava outro poema:

“Bodhi não é como uma árvore.
O espelho brilhante não brilha em parte alguma:
Se nada há desde o princípio,
Onde se acumula o pó?”

Com espanto se questionaram os monges.
“Quem o teria escrito?”
Descobriram o seu autor, o humilde cozinheiro do mosteiro.
Foi a ele que o Quinto Patriarca ofereceu o seu manto e a sua tigela, nomeando-o Sexto Patriarca.





A LIBERTAÇÃO DA RODA DOS NASCIMENTOS E DA MORTE



Um noviço perguntou ao Mestre:
- Como posso eu libertar-me da Roda dos renascimentos e da morte?
Respondeu o Mestre:
- Quem é que nela te colocou?




SHIBLÍ - UM CÃO NO CAMINHO DE DEUS



Um dia perguntaram a Shiblí:
- Quem é que se evidenciou em primeiro lugar, no teu percurso para o divino?
Respondeu:
- Há muito tempo, vi que um cão estava à beira de um rio de águas mansas e morria de sede. Na superfície da água, espelhava-se a sua própria figura e ele acreditava-se tratar-se de um outro animal. De cada vez que o encarava, fugia.
Por fim, acossado de uma sede mortal, perdeu o conhecimento e consequentemente o medo, atirando-se para dentro de água, e desaparecendo de imediato o animal que tanto o assustava.
Desaparecido o outro cão, foi derrubado o obstáculo que o impedia de beber. Esse obstáculo era ele mesmo.
Do mesmo modo derrubei a barreira que me afrontava, e o meu “eu” foi destruído.
Assim me salvei e o meu primeiro guia no Caminho foi um cão.




IGNORAR O QUE OS INIMIGOS DIZEM DE NÓS



Um habitante do vilarejo acercou-se de um conhecido santo dizendo-lhe:
- Sabes o que ouvi sobre ti?
- Cala-te. É bem melhor desconhecer o que um inimigo diz de nós.




SOB A PROTECÇÃO DE ALÁ



No mercado em Bagdad, começou um terrível incêndio, que rapidamente se propagou aos prédios contíguos.
Instalou-se o pânico, todos pareciam loucos numa correria desenfreada e sem destino.
Uma idosa, apoiada numa bengala, caminhava na direcção do incêndio.
Disseram-lhe:
- Não continues boa mulher, resigna-te, a tua casa está a arder, como todas as outras. Não sejas louca.
Respondeu:
- Calai-vos. Estais mais loucos do que eu. Alá protegerá a minha humilde casa.
Extinto o incêndio, apenas a residência da idosa estava intacta.
Os que a tinham ouvido, estupefactos perguntaram-lhe:
- Como sabias com tanta certeza que a tua casa não seria devorada pelas chamas?
- Sinceramente, não vos posso explicar o inexplicável. Apenas sabia que o fogo ou consumiria a minha casa ou o pouco que resta do meu coração. Mas, Alá, já queimou na provação o meu coração. Nunca permitiria que o que me resta fosse consumido de igual modo...




MESTRE GUDO - UM MESTRE VIVO E NÃO MORTO



O Imperador questionou Mestre Gudo:
- Quando um iluminado morre, qual o seu destino?
- Como posso eu elucidar-vos sobre tal questão?
- Vós sois um Mestre, Gudo - volveu o Imperador.
- Sim Excelência, talvez seja. Mas sou um mestre vivo, não sou um mestre morto.




SA´DI DE SHIRAZ - DA DIFAMAÇÃO



Nunca fales sobre o que é bom ou sobre o que é mau, pois concerteza que te enganarás com a aparência do primeiro e tornar-te-ás um inimigo do último.
Quem difama, revela as suas faltas.
Quem difama, mesmo que a difamação seja verídica, peca.

Sa´di de Shiraz




FECHAR UM OU OS DOIS OLHOS?



Um homem perguntou a Nasrudin:
- Faz anos que caço, mas não consigo entender o motivo porque os outros caçadores fecham um dos olhos antes de disparar.
- Ora, faz o mesmo pobre homem - respondeu Nasrudin -, se fechares os dois, deixas de ver.




AL BISTAMI - A MELHOR DE TODAS AS COISAS



A Abu Yazid al Bistami foi perguntado:
- Qual é a melhor de todas as coisas para o homem, neste caminho terreno?
- A felicidade congénita – respondeu.
- E se isso lhe falta?
- Um corpo forte.
- E se o não tem?
- Um ouvido atento.
- E se também o não tem?
- Um coração sábio.
- E se dele carecer?
- Olhos que vejam.
- E se também deles carece?
- Uma morte súbita.





KALAMA SUTRA



O Mestre disse:
- Tende confiança, não no mestre, mas no ensinamento.
Tende confiança, não no ensinamento, mas no espírito das palavras.
Tende confiança, não na teoria, mas na experiência.
Não creiais em algo simplesmente porque ouviste.
Não creiais nas tradições, simplesmente porque foram mantidas de geração em geração.
Não creiais em algo, simplesmente porque foi falado e comentado por muitos.
Não creiais em algo, simplesmente porque está escrito em livros sagrados.
Não creiais no que imaginais, pensando que um Deus vos inspirou.
Não creiais em algo, meramente baseado na autoridade de mestres e anciãos.
Mas, após contemplação e reflexão, quando vos aperceberdes que algo é conforme ao que é razoável e leva ao que é bom e benéfico, tanto para vós quanto para os outros, então deveis aceitá-lo e deveis fazer disso a base da vossa vida.





VISÃO DUPLA



Um lojista tinha um jovem aprendiz, que por defeito de visão via todas as coisas a dobrar.
Certo dia, ordenou-lhe que fosse ao armazém e trouxesse um garrafão de azeite da prateleira dos fundos.
O jovem foi, para logo de seguida retornar, questionando-o:
- Existem dois patrão, qual deles trago?
Este, enfadado do constante defeito, respondeu:
- Parte um e traz o outro.
Cumprindo o que lhe havia sido ordenado, voltou de mãos vazias.




JULGAMENTO SEGUNDO A LEI DOS HOMENS OU A DE DEUS



Passei quase uma vida a julgar homens, pela sua estúpida lei.
E a cada julgamento, em cada punição, lembrava o texto evangélico da “mulher adúltera”, angustiando-me.

“Jesus foi para o Monte das Oliveiras. De madrugada, apareceu outra vez no templo, e todo o povo ia ter com Ele. Sentou-Se, então e pôs-se a instruí-los.
Entretanto, os escribas e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher, apanhada em adultério e, depois de a colocarem no meio, disseram-Lhe:
«Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. Ora Moisés, na Lei, mandou-nos apedrejar tais mulheres. E tu que dizes?»
Jesus, inclinando-Se, pôs-Se a escrever no chão com o dedo. Como persistissem em interrogá-lo, ergueu-Se e disse-lhes:
«Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lançar-lhe uma pedra!». E inclinando-Se novamente, recomeçou a escrever no chão.
Eles, porém, quando isto ouviram, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus com a mulher, que continuava ali no meio. Jesus ergue-Se e disse-Lhe:
«Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?»
Ela respondeu:
«Ninguém, Senhor».
«Nem Eu te condeno. Vai e doravante não tornes a pecar».

Jo 8, 1-11

Somos todos potenciais “perversos polimorfos”.
(Freud)

A diferença entre nós e os criminosos está mais no que fazemos do que no que somos. Sob algumas circunstâncias, todos os comportamentos são possíveis.
(Anthony de Mello)




HALWA E NASRUDIN



Falava-se de “halwa” o mais doce dos doces árabes.
Nasrudin quedava mudo.
Perguntaram-lhe:
- E você Nasrudin, que nos diz?
- Eu nunca fiz halwa em casa.
- Como é possível Nasrudin?
- Não há ninguém que não tenha feito.
- Nunca tenho açúcar, farinha e manteiga a um mesmo tempo.
- Certamente alguma vez terá tido?
- Certamente, mas dessa vez não estava em casa, estaria fora.




NASRUDIN - QUE TAL CULPAR OS LADRÕES?



Nasrudin e sua mulher voltaram a casa encontrando a porta escancarada e a habitação violada e assaltada.
- A culpa assiste-lhe - disse a mulher.
- Devia ter verificado a porta antes de sair, Nasrudin – insistiu.
- E também as janelas.
- Não verificou as trancas.
- Não se preveniu quando saiu.
Disseram os vizinhos.
- A culpa é sua – disse novamente a mulher, disseram todos.
- Esperem - alegou Nasrudin - uma coisa assim...
Serei por acaso o único culpado?
Serei eu o vilão?”
- E de quem queres que seja a culpa? - perguntaram.
- Que tal culpar os ladrões?




ARTE E ENGENHO DE NASRUDIN



Um Emir serviu exuberante banquete para o qual todos os vizinhos convidou.
Nasrudin, assim que soube não se fez esperar. Com seu manto esfarrapado correu para o palácio onde o mestre-de-cerimónias o sentou junto de mendigos, no pior lugar, afastado das grandes celebridades e das melhores mordomias.
Muito tempo demoraria até que fosse servido. Melhor seria a casa retornar, vestir roupa a preceito, besuntar-se com água de cheiro. 
Assim pensou, assim fez.
Vestiu um manto resplandecente e colocou um magnífico turbante.
Chegado ao palácio rufaram tambores e soaram trombetas a condizer com tamanha personalidade.
O camareiro real conduziu-o para lugar na mesa principal ao lado do próprio Emir e de farta comida foi imediatamente servido.
Nasrudin apanhava alimento com as mãos esfregando-o no manto e no turbante.
Tais modos estranhou o Emir:
- Eminência, Senhor, estou curioso. Seus costumes são uma novidade para mim.
- Enfim, é justo e normal - respondeu Nasrudin -, se o manto e o turbante me fizeram aqui chegar não merecem assim, perante tal arte e engenho a sua parte?




UM PALAVRÃO SUPERIOR À ORAÇÃO



O Profeta Maomé presidia à oração da manhã numa mesquita, encontrando-se no meio dos presentes um Aspirante.
Maomé leu a passagem do Alcorão em que o faraó dizia ao povo:
- Eu sou o vosso Deus.
Face a tal blasfémia, o Aspirante indignou-se e falou bem alto no meio dos fiéis dizendo:
- Como é orgulhoso este filho da puta!
Maomé absteve-se tranquilamente de fazer qualquer comentário. No entanto, a maioria dos presentes não cessavam de repreender e recriminar o pobre jovem pela sua irreflectida atitude, fundamentalmente pelas palavras proferidas atentatórias da dignidade do profeta e do lugar.
O Aspirante ficou de tal forma envergonhado que nada dizia, escondendo-se visivelmente consternado.
Nisto, o Anjo Gabriel apareceu a Maomé dizendo-lhe:
- Alá saúda-te e quer que digas a essa gente, que cesse de recriminar o pobre jovem. Verdadeiramente, o palavrão por ele proferido tocou mais o seu coração do que as orações de muitos outros. A impureza não está nas palavras, mas na contaminação do coração, não está nas aparências, mas nas essências.

História contada por Jalal ud-Din Rumi (adaptada)




A ILUSÃO DAS EXPERIÊNCIAS ALHEIAS



Um místico voltava do deserto e ao vê-lo, os amigos perguntavam:
- Diz-nos, por favor, como é Deus?
Mas como poderia ele expressar por palavras, tudo aquilo que acabara de sentir nas profundidades da mente e do coração? Poderia a Verdade ser explicada por meras palavras?
No entanto, deu-lhes uma fórmula, inadequada por sinal, esperançado que com ela, alguns fossem tentados a fazer a mesma experiência.
Erro. Da fórmula fizeram um texto secreto e muito especial que impuseram a todos como sendo uma crença obrigatória. Levaram-na até países distantes e derramaram por ela o próprio sangue.
Entristeceu-se o místico, pensando que teria sido melhor que nunca tivesse dito nada.




O MELHOR SERMÃO DE NASRUDIN



Quiseram os moradores da aldeia embaraçar Nasrudin por ser considerado uma espécie pouco ortodoxa de santo, rogando-lhe que fizesse um sermão na mesquita.
Nasrudin anuiu.
No dia marcado subiu ao púlpito e disse:
- Bom povo, fiéis, sabeis vós o que vou dizer?
- Desconhecemos - responderam.
- Se não sabem, então falar não poderei. Sois uma corja de ignorantes. Não perderei mais tempo convosco.
Regressou de imediato a casa, indignado.
Vexados, volveram uma vez mais a Nasrudin pedindo-lhe que fizesse um novo sermão.
Nasrudin compareceu e questionou-os:
- Bom povo, fiéis, sabeis vós o que vos vou dizer?
De conluio responderam em uníssono:
- Sabemos, falai.
- Nesse caso, não estais aqui a fazer nada. Ide para casa, que outras ocupações vos aguardam.
Mais uma vez, solicitaram nova pregação.
Nasrudin perguntou:
- Sabeis ou não o que vos vou dizer?!
De novo combinados, responderam:
- Uns sabem, outros não.
- Bom, assim sendo, os que sabem ensinam os que não sabem.
De imediato desceu do púlpito.




O DEUS DOS HOMENS NÃO É O DEUS VERDADEIRO



Numa noite de Verão, um homem estava sentado no banco do chafariz, lado a lado com o pároco da aldeia.
Falava de Deus. O pároco estava no mais profundo dos silêncios; era velho, sapiente e tinha a tranquilidade das noites de luar.
O homem depois de muito ter falado, na sua simplicidade, disse:
- Compreendo tudo. Que Deus é Todo-Poderoso, criador dos céus e da terra, das criaturas, do ar que respiramos. Que tudo está sob a sua Vontade. Que não se nos mostra, mas caso queira pode fazer todos os milagres possíveis e imaginários. Mas há uma coisa que me intriga: Quem é que o fez a Ele?
O Pároco não se conteve, e quebrou o silêncio:
- Você mesmo. Pelo menos esse Deus de que está sempre a falar e é construção da sua mente.




NASRUDIN - ATINGIR A SABEDORIA SEM ESFORÇO



Nasrudin, na praça do mercado dirigiu-se à multidão:
- Povo deste lugar, minha boa gente, que sempre trago no coração.
Quereis conhecimento sem dificuldade?
Verdade sem réstia de falsidade?
Realização sem esforço?
Progresso sem sacrifício?
O número de pessoas era cada vez maior. E todos bradavam do mais velho ao mais moço:
- Queremos, queremos!
No meio de todo o entusiasmo, de toda aquela gente, disse o Mullah:
- Excelente. Apenas o queria saber para bem entender. Confiem em mim como em vossos pais confiastes e confiais.
Porfiai que tudo a respeito vos contarei caso algum dia descubra algo assim. 






AMOR À SOLIDÃO - NA UNIDADE NÃO HÁ LUGAR PARA DOIS OU MAIS



Perguntaram ao Sage:
- Porque é que prezas tanto a solidão? Porque é que a procuras com tanta frequência?
- Porque quando estou com a Verdade não há lugar para dois ou mais. É tudo UM.




O IMPOSSÍVEL - QUE NEM DEUS PODE FAZER



O que é o impossível, perguntou o filósofo ao Mestre.
- É aquilo que nem Deus pode fazer.
- E o que é que Deus não pode fazer?
- Agradar a tudo e a todos.






ACEITAR A MORTE COM CONDESCENDÊNCIA



Um jovem estava a ouvir as dissertações do Mestre, nas imediações da aldeia, à sombra de uma gigantesca figueira.
Tinha como único bem, uma pequena casa em mau estado de conservação que os seus pais lhe haviam deixado por morte.
Da aldeia chegou a correr um homem que o chamou, em virtude da mesma se encontrar em chamas. Ainda o jovem não se acercara da dita casa e já as labaredas a haviam consumido na íntegra, restando um punhado de escombros e cinzas.
Quando voltou, todos os outros se solidarizaram com a sua desgraça, abraçando-o e consolando-o.
Só o Mestre nada disse, o que os indignou por aparente ausência de compaixão.
Percebendo nos rostos e gestos a recriminação, disse:
- Não se preocupem, assim aceitará com muito mais condescendência a inevitável morte.




NÃO HÁ PAGAMENTO POR UM SERVIÇO FEITO COM AMOR E PELO AMOR



Conta-se que um homem santo, de nome Joneyed, foi a Meca vestido como um mendigo.
Tendo a barba bastante comprida, procurou um barbeiro com o intuito de o barbear. Entrou na única barbearia do lugar, e o barbeiro que se ocupava de um homem rico e poderoso, interrompeu de imediato o que estava a fazer deixando o seu cliente estupefacto e até um tanto indignado com tal desfaçatez e desconsideração.
Fez a barba a Joneyed sem cobrar, e deu-lhe uma esmola.
Se o cliente rico ficou escandalizado, Joneyed ficou enternecido com a atitude, comprometendo-se a dar ao bom do barbeiro todas as esmolas que recebesse nesse dia.
Um peregrino abastado, que havia feito uma promessa, deu um saco cheio de moedas de oiro a Joneyed, que sem delongas correu entusiasmado à barbearia para cumprir o que se havia determinado.
- O barbeiro, estupefacto encolerizou-se, dizendo:
- Que homem santo és tu? Onde é que está a tua santidade?
Não te envergonhas de querer pagar um serviço feito com amor e pelo amor?





OLHOS QUE SE FECHAM A DEUS



Um Sannyasi estava sentado numa pedra junto à margem do rio. O seu olhar não estava pousado em nada, parecendo vagar no vazio infinito.
Um homem aproximou-se e sentou-se junto dele. Conversaram. O Sannyasi estava determinado a encontrar Deus. A sua vida era oração e meditação. Castrara-se voluntariamente para aniquilar o desejo que ardia nas suas entranhas. Mortificava-se quotidianamente para destruir os seus apegos. Tudo com o objectivo de alcançar a Paz na união divina.
Nada deste mundo lhe interessava. A realidade não existia, tal a obsessão com a suprema motivação de atingir o Absoluto.
- E encontrou-O? – perguntou-lhe o homem.
- Não. Estou prestes a desesperar! – respondeu o “santo”.
No entanto, as águas do rio corriam lentamente em direcção ao mar, afagadas pelos raios de Sol matutinos, doirando-as. Os arbustos de um verde vivo embelezavam com as suas flores multicoloridas as margens salpicadas de borboletas e libelinhas. O céu ainda apresentava tons de rosa e alaranjados, que se sobrepunham ao azul magnífico de base. A Lua estava no horizonte, majestosa e em todo o seu esplendor, aguardando o momento certo para se recolher temporariamente. Pássaros vagueavam no espaço planando em círculos perfeitos, enquanto outros chilreavam estridentemente nos ramos das árvores. Tudo se conjugava em perfeita sinfonia, até as vozes longínquas dos agricultores que iniciavam a faina nos campos.
E o Sannyasi, insensível à Beleza, buscava o Absoluto... 





A VISÃO NÃO-INTERPRETATIVA



O Mestre explicou aos discípulos que a Iluminação viria se alcançassem a visão não-interpretativa.
Quiseram saber o que era a visão não-interpretativa.
Eis a explicação do Mestre:
Dois operários católicos trabalhavam numa rua em frente de um bordel, quando viram um rabino entrar furtivamente no prédio.
- Já era de esperar! – disseram.
Decorrido algum tempo, um Pastor entrou de mansinho, e não houve qualquer surpresa.
- Já era de esperar!
Logo depois chegou o Padre católico da aldeia, de rosto coberto pelo capote, desaparecendo de imediato dentro da casa de má-fama.
- Aconteceu decerto alguma coisa! Uma das garotas deve estar doente – disseram.





UMA REGRA DE OURO - NÃO TER TEMPO PARA NÃO TER TEMPO...



Um jovem da aldeia aproximou-se do Sage, e com alguma timidez e respeito, disse-lhe:
- Há algo que me espanta no Senhor. Tenho-o observado e vejo que todos os seus actos são tranquilos, lentos, sentidos. Nunca o vi apressado ou ansioso. Qual o segredo da sua placidez?
- Não tenho tempo para não ter tempo – respondeu o velho Sage.




SÓ EXISTE O AGORA



Um guerreiro foi detido em combate.
Levaram-no para o cárcere, e teve consciência de que no dia seguinte iria ser cruelmente torturado até que confessasse as posições estratégicas dos seus camaradas.
Tal facto gerava-lhe uma angústia de morte. Não tinha posição para adormecer na esteira estendida no chão sujo e fétido.
Nada o incomodava para além do pressentimento de que iria ser torturado até à morte.
A angústia aumentava a cada segundo, impedindo-o de dormir e atormentando-lhe o espírito.
Nisto, lembrou-se com nitidez das palavras do seu velho e carinhoso Mestre de armas.
“Não há passado; não há futuro; só o Agora existe.”
Permitiu que penetrassem no interior da sua alma e em poucos minutos dormia como um justo.





PEDIR A ALÁ - UM PAU DE DOIS BICOS



Um muçulmano pretendia ardentemente que a sua esposa o prendasse com um filho varão. Mas os anos passavam e o seu desejo não era satisfeito. Até que um dia recebeu a notícia que tanto aguardava. A companheira engravidara. E a imensa alegria que enchia de pleno o seu coração, não se ficou por aí.
Nasceu um rapaz, como tão insistentemente havia pedido a Alá.
Logo após o nascimento, organizou uma festa, tendo convidado para o banquete todos os seus amigos e conhecidos, resplandecendo de júbilo o seu semblante.
Entre estes estava um amigo de longa data, residente numa cidade longínqua e que se encontrava de passagem, em peregrinação a Meca.
Volvidos muitos anos, este voltou a fazer a peregrinação e passou na cidade para visitar o amigo, mas foi informado que o mesmo estava preso. Escandalizou-se, já que o tomava por um homem piedoso e cumpridor das Santas Regras, incapaz de cometer qualquer espécie de acto delituoso.
- Mas que crime cometeu o meu bom amigo? – perguntou incrédulo.
- Nenhum. Foi o filho que se embriagou, assassinou um homem e fugiu. Então o pai foi preso no seu lugar.

Adaptação de história narrada por Sa´di de Shiraz.





ESPIRITUALIDADE E DESEJO DE TRANSFORMAÇÃO



Perguntaram ao Sage qual o significado da espiritualidade.
Respondeu:
- É mais do que os livros sagrados te podem dar, mais do que o exemplo de santos e iluminados, mais do que métodos meditacionais e é muito menos que esforço, busca ou desejo de atingir o Absoluto.
É o que te leva à transformação interior.
- Sendo assim, como é que a transformação pode ocorrer?
- A transformação só surgirá quando nada desejares, nada mesmo, o que inclui o irresistível anseio de te transformares.





SABEDORIA SEM LIVROS



O jovem visitava todos os dias o Sage, deleitando-se com algumas das suas raras dissertações. Mas, o que mais o impressionava era a sua abertura de espírito, e a capacidade de pôr em dúvida e questionar fosse o que fosse. Não só o fazia, como instigava todos a que o fizessem.
Habituara-se a pensar com plena autonomia, a observar o mundo e a si próprio, sem recurso a tradições, fórmulas, crenças, opiniões. Os seus livros iam sendo progressivamente destruídos, e em sua casa apenas restavam dois, de uma biblioteca que chegara a ter cerca de três milhares. 
Uma noite de Inverno rigoroso, daquelas em que o frio gélido se entranha nas carnes, estando ambos sentados ao lume, disse o Sage:
- Tenho algo para ti. Algo que te pode ser precioso. Um livro que recebi do meu Mestre e que antes deste foi de extrema utilidade a várias gerações. Encontrarás nele a resposta a muitas das tuas questões.
- Não necessito de livros. Tudo o que aprendi de ti será muito mais do que esse amontoado de palavras me poderá oferecer. Assim continuarei – respondeu reverencialmente o jovem.
O Sage insistiu poisando-lhe o livro no colo. O jovem, inesperadamente lançou-o ao fogo crepitante, sendo de imediato consumido pelas chamas.
- Que loucura é que estás a fazer? – perguntou o Sage.
- Que loucura estás tu a dizer?! – disse o jovem. 




A PAZ DA ACEITAÇÃO DO INEVITÁVEL



Em todas as suas acções o Sage parecia unificado com tudo o que o cercava; com os outros, com a Natureza e com o próprio Cosmos.
Os seus movimentos, nos mais pequenos detalhes eram harmónicos e elegantes. Nada em si denotava ansiedade, inquietude, tudo era Paz, ausência de conflagrações interiores.
Um jovem questionou-o:
- Diga-me, qual o segredo da sua serenidade, dessa Paz que nada parece abalar?
Respondeu o velho Sage:
- A irrestrita cooperação com o inevitável.






PAZ - O SENTIDO DA VIDA



Um homem passava os seus santos dias com queixumes constantes. A vida não tinha qualquer sentido; tudo era tédio, infelicidade. Não encontrava prazer, admiração ou espanto em nada.
Quando os amigos lhe perguntavam a razão de tão profunda tristeza, limitava-se a responder de modo taciturno:
- A minha vida não tem qualquer sentido.
Quando apenas lhe parecia restar a destruição, decidiu solicitar auxílio ao velho Sage.  
Os primeiros meses pareceram-lhe insuportáveis. O bom do Sage pouco ou nada falava. Aprendeu a olhar para as coisas, único modo de “matar o tempo”.
Decorridos dois anos, voltou à aldeia, onde foi acolhido com alegria e com inúmeras perguntas.
- Agora a tua vida já tem sentido?
- Não - respondeu.
- Perdeste então o teu tempo?
- Não.
- Como assim? Se estás como outrora?
- Agora não busco nada e quando busco não sei o que busco.
Não desejo nada e quando desejo não sei o que desejo.
Tenho paz e tranquilidade, que é independente de tudo o que o quotidiano me traz ou possa trazer.





NEM LOUCO NEM MÍSTICO



Desde muito novo fui considerado místico. Ninguém parecia compreender-me.
O meu pai dizia:
- Não és suficientemente louco para seres internado num hospício nem suficientemente concentrado para seres enviado para um mosteiro. Não sei o que hei-de fazer contigo.
- Eu respondi:
- Puseram certa vez um ovo de pato no ninho de uma galinha. Dele nasceu um pato que seguia a mãe para onde quer que ela fosse, até que um belo dia, levou-o para as proximidades de um lago.
O patinho entrou imediatamente na água, enquanto a mãe galinha desesperava cacarejando na margem.
Pois bem, meu pai, eu entrei no Oceano e não sou culpado do Senhor ter preferido ficar para sempre na praia.

História que o sufi Shams-e Tabrizi contava de si mesmo.





NASRUDIN E O FALCÃO



Conta-se que Nasrudin foi indigitado primeiro-ministro do Rei.
Já em exercício de funções, no palácio, deparou-se com um falcão real.
Nasrudin já tinha visto muitos pombos, mas nenhum idêntico àquele. Tal facto transtornou-o.
Foi de imediato buscar uma tesoura bem afiada, com a qual lhe cortou as garras, a ponta do bico e terminou aparando-lhe as asas.
Concluída a tarefa exclamou:
- O teu dono tem sido muito descuidado. Agora já te pareces com um pombo. 





segunda-feira, 12 de outubro de 2015

O ÚNICO E VERDADEIRO MESTRE - A REALIDADE



Perguntou um jovem ao Sage:
- Posso ser seu discípulo? Necessito urgentemente de orientação.
- Não – respondeu peremptoriamente. Eu sou uma parte ínfima da realidade. Volta para a tua aldeia e observa a Realidade no seu todo. Tudo te servirá de Mestre sendo digno desse nome.





DONS SOBRENATURAIS OU LÓGICA?!



O Imperador Mahmud El-Ghazna passeava nos jardins do seu palácio com o sábio Ahmad Mussain, de quem se dizia que tinha o dom de ler os pensamentos. No entanto, o sábio, por várias vezes se havia escusado às insistências do Imperador para que fizesse uma demonstração dos seus poderes.
Este recorreu a um ardil, para o experimentar.
- Ahmad, qual é a profissão daquele homem?
- É carpinteiro.
- Qual o seu nome?
- Ahmad, como eu.
- Será que comeu alguma coisa doce recentemente?
- Sim, comeu - respondeu Ahmad.
Chamado o carpinteiro, confirmou tudo o que o sábio dizia.
O Imperador disse-lhe:
- Ahmad, recusaste-te a fazer uma demonstração dos teus poderes. Mas, sem o notares eu fiz com que demonstrasses as tuas capacidades. Será que tens receio que o povo te transforme num santo depois de eu revelar as tuas capacidades que excedem as dos humanos comuns? Como é possível que continues a ocultar a tua condição de Sufi?
Ahmad, respondeu:
- Admito que posso ler pensamentos, mas o povo não se apercebe quando o faço e a minha dignidade não me permite exercer esse dom com propósitos frívolos. Farei tudo para que o meu segredo continue inviolável.
- No entanto, admites que acabaste agora mesmo de utilizar os teus poderes?
- Não, absolutamente. Vede Majestade. Quando me chamastes, o homem virou a cabeça na vossa direcção, o que foi indicação segura de que o seu nome é igual ao meu. No jardim, só dirigia o seu olhar para árvores de madeira aproveitável, donde deduzi que deveria ser carpinteiro. E percebi que algo de doce acabara de comer, porquanto vi o seu empenho em afastar as abelhas que tentavam pousar nos seus lábios. Apenas lógica, nada de dons ocultos.





REZAR POR TUDO E POR NADA



A escola de Nasrudin estava em chamas.
Sentado debaixo de uma árvore, Nasrudin via-a arder.
Passou um motorista da aldeia.
- Professor, a escola está em chamas!
- Eu sei.
- E não faz nada?
- Não estou a fazer?
- O quê?! – questionou-se com algum espanto o motorista.
-Desde que começou o incêndio que rezo para chover.