HISTÓRIAS DE ESPIRITUALIDADE

HISTÓRIAS DE ESPIRITUALIDADE
A SABEDORIA DOS MESTRES

terça-feira, 13 de outubro de 2015

JULGAMENTO SEGUNDO A LEI DOS HOMENS OU A DE DEUS



Passei quase uma vida a julgar homens, pela sua estúpida lei.
E a cada julgamento, em cada punição, lembrava o texto evangélico da “mulher adúltera”, angustiando-me.

“Jesus foi para o Monte das Oliveiras. De madrugada, apareceu outra vez no templo, e todo o povo ia ter com Ele. Sentou-Se, então e pôs-se a instruí-los.
Entretanto, os escribas e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher, apanhada em adultério e, depois de a colocarem no meio, disseram-Lhe:
«Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. Ora Moisés, na Lei, mandou-nos apedrejar tais mulheres. E tu que dizes?»
Jesus, inclinando-Se, pôs-Se a escrever no chão com o dedo. Como persistissem em interrogá-lo, ergueu-Se e disse-lhes:
«Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lançar-lhe uma pedra!». E inclinando-Se novamente, recomeçou a escrever no chão.
Eles, porém, quando isto ouviram, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus com a mulher, que continuava ali no meio. Jesus ergue-Se e disse-Lhe:
«Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?»
Ela respondeu:
«Ninguém, Senhor».
«Nem Eu te condeno. Vai e doravante não tornes a pecar».

Jo 8, 1-11

Somos todos potenciais “perversos polimorfos”.
(Freud)

A diferença entre nós e os criminosos está mais no que fazemos do que no que somos. Sob algumas circunstâncias, todos os comportamentos são possíveis.
(Anthony de Mello)




HALWA E NASRUDIN



Falava-se de “halwa” o mais doce dos doces árabes.
Nasrudin quedava mudo.
Perguntaram-lhe:
- E você Nasrudin, que nos diz?
- Eu nunca fiz halwa em casa.
- Como é possível Nasrudin?
- Não há ninguém que não tenha feito.
- Nunca tenho açúcar, farinha e manteiga a um mesmo tempo.
- Certamente alguma vez terá tido?
- Certamente, mas dessa vez não estava em casa, estaria fora.




NASRUDIN - QUE TAL CULPAR OS LADRÕES?



Nasrudin e sua mulher voltaram a casa encontrando a porta escancarada e a habitação violada e assaltada.
- A culpa assiste-lhe - disse a mulher.
- Devia ter verificado a porta antes de sair, Nasrudin – insistiu.
- E também as janelas.
- Não verificou as trancas.
- Não se preveniu quando saiu.
Disseram os vizinhos.
- A culpa é sua – disse novamente a mulher, disseram todos.
- Esperem - alegou Nasrudin - uma coisa assim...
Serei por acaso o único culpado?
Serei eu o vilão?”
- E de quem queres que seja a culpa? - perguntaram.
- Que tal culpar os ladrões?




ARTE E ENGENHO DE NASRUDIN



Um Emir serviu exuberante banquete para o qual todos os vizinhos convidou.
Nasrudin, assim que soube não se fez esperar. Com seu manto esfarrapado correu para o palácio onde o mestre-de-cerimónias o sentou junto de mendigos, no pior lugar, afastado das grandes celebridades e das melhores mordomias.
Muito tempo demoraria até que fosse servido. Melhor seria a casa retornar, vestir roupa a preceito, besuntar-se com água de cheiro. 
Assim pensou, assim fez.
Vestiu um manto resplandecente e colocou um magnífico turbante.
Chegado ao palácio rufaram tambores e soaram trombetas a condizer com tamanha personalidade.
O camareiro real conduziu-o para lugar na mesa principal ao lado do próprio Emir e de farta comida foi imediatamente servido.
Nasrudin apanhava alimento com as mãos esfregando-o no manto e no turbante.
Tais modos estranhou o Emir:
- Eminência, Senhor, estou curioso. Seus costumes são uma novidade para mim.
- Enfim, é justo e normal - respondeu Nasrudin -, se o manto e o turbante me fizeram aqui chegar não merecem assim, perante tal arte e engenho a sua parte?




UM PALAVRÃO SUPERIOR À ORAÇÃO



O Profeta Maomé presidia à oração da manhã numa mesquita, encontrando-se no meio dos presentes um Aspirante.
Maomé leu a passagem do Alcorão em que o faraó dizia ao povo:
- Eu sou o vosso Deus.
Face a tal blasfémia, o Aspirante indignou-se e falou bem alto no meio dos fiéis dizendo:
- Como é orgulhoso este filho da puta!
Maomé absteve-se tranquilamente de fazer qualquer comentário. No entanto, a maioria dos presentes não cessavam de repreender e recriminar o pobre jovem pela sua irreflectida atitude, fundamentalmente pelas palavras proferidas atentatórias da dignidade do profeta e do lugar.
O Aspirante ficou de tal forma envergonhado que nada dizia, escondendo-se visivelmente consternado.
Nisto, o Anjo Gabriel apareceu a Maomé dizendo-lhe:
- Alá saúda-te e quer que digas a essa gente, que cesse de recriminar o pobre jovem. Verdadeiramente, o palavrão por ele proferido tocou mais o seu coração do que as orações de muitos outros. A impureza não está nas palavras, mas na contaminação do coração, não está nas aparências, mas nas essências.

História contada por Jalal ud-Din Rumi (adaptada)




A ILUSÃO DAS EXPERIÊNCIAS ALHEIAS



Um místico voltava do deserto e ao vê-lo, os amigos perguntavam:
- Diz-nos, por favor, como é Deus?
Mas como poderia ele expressar por palavras, tudo aquilo que acabara de sentir nas profundidades da mente e do coração? Poderia a Verdade ser explicada por meras palavras?
No entanto, deu-lhes uma fórmula, inadequada por sinal, esperançado que com ela, alguns fossem tentados a fazer a mesma experiência.
Erro. Da fórmula fizeram um texto secreto e muito especial que impuseram a todos como sendo uma crença obrigatória. Levaram-na até países distantes e derramaram por ela o próprio sangue.
Entristeceu-se o místico, pensando que teria sido melhor que nunca tivesse dito nada.




O MELHOR SERMÃO DE NASRUDIN



Quiseram os moradores da aldeia embaraçar Nasrudin por ser considerado uma espécie pouco ortodoxa de santo, rogando-lhe que fizesse um sermão na mesquita.
Nasrudin anuiu.
No dia marcado subiu ao púlpito e disse:
- Bom povo, fiéis, sabeis vós o que vou dizer?
- Desconhecemos - responderam.
- Se não sabem, então falar não poderei. Sois uma corja de ignorantes. Não perderei mais tempo convosco.
Regressou de imediato a casa, indignado.
Vexados, volveram uma vez mais a Nasrudin pedindo-lhe que fizesse um novo sermão.
Nasrudin compareceu e questionou-os:
- Bom povo, fiéis, sabeis vós o que vos vou dizer?
De conluio responderam em uníssono:
- Sabemos, falai.
- Nesse caso, não estais aqui a fazer nada. Ide para casa, que outras ocupações vos aguardam.
Mais uma vez, solicitaram nova pregação.
Nasrudin perguntou:
- Sabeis ou não o que vos vou dizer?!
De novo combinados, responderam:
- Uns sabem, outros não.
- Bom, assim sendo, os que sabem ensinam os que não sabem.
De imediato desceu do púlpito.




O DEUS DOS HOMENS NÃO É O DEUS VERDADEIRO



Numa noite de Verão, um homem estava sentado no banco do chafariz, lado a lado com o pároco da aldeia.
Falava de Deus. O pároco estava no mais profundo dos silêncios; era velho, sapiente e tinha a tranquilidade das noites de luar.
O homem depois de muito ter falado, na sua simplicidade, disse:
- Compreendo tudo. Que Deus é Todo-Poderoso, criador dos céus e da terra, das criaturas, do ar que respiramos. Que tudo está sob a sua Vontade. Que não se nos mostra, mas caso queira pode fazer todos os milagres possíveis e imaginários. Mas há uma coisa que me intriga: Quem é que o fez a Ele?
O Pároco não se conteve, e quebrou o silêncio:
- Você mesmo. Pelo menos esse Deus de que está sempre a falar e é construção da sua mente.




NASRUDIN - ATINGIR A SABEDORIA SEM ESFORÇO



Nasrudin, na praça do mercado dirigiu-se à multidão:
- Povo deste lugar, minha boa gente, que sempre trago no coração.
Quereis conhecimento sem dificuldade?
Verdade sem réstia de falsidade?
Realização sem esforço?
Progresso sem sacrifício?
O número de pessoas era cada vez maior. E todos bradavam do mais velho ao mais moço:
- Queremos, queremos!
No meio de todo o entusiasmo, de toda aquela gente, disse o Mullah:
- Excelente. Apenas o queria saber para bem entender. Confiem em mim como em vossos pais confiastes e confiais.
Porfiai que tudo a respeito vos contarei caso algum dia descubra algo assim. 






AMOR À SOLIDÃO - NA UNIDADE NÃO HÁ LUGAR PARA DOIS OU MAIS



Perguntaram ao Sage:
- Porque é que prezas tanto a solidão? Porque é que a procuras com tanta frequência?
- Porque quando estou com a Verdade não há lugar para dois ou mais. É tudo UM.




O IMPOSSÍVEL - QUE NEM DEUS PODE FAZER



O que é o impossível, perguntou o filósofo ao Mestre.
- É aquilo que nem Deus pode fazer.
- E o que é que Deus não pode fazer?
- Agradar a tudo e a todos.






ACEITAR A MORTE COM CONDESCENDÊNCIA



Um jovem estava a ouvir as dissertações do Mestre, nas imediações da aldeia, à sombra de uma gigantesca figueira.
Tinha como único bem, uma pequena casa em mau estado de conservação que os seus pais lhe haviam deixado por morte.
Da aldeia chegou a correr um homem que o chamou, em virtude da mesma se encontrar em chamas. Ainda o jovem não se acercara da dita casa e já as labaredas a haviam consumido na íntegra, restando um punhado de escombros e cinzas.
Quando voltou, todos os outros se solidarizaram com a sua desgraça, abraçando-o e consolando-o.
Só o Mestre nada disse, o que os indignou por aparente ausência de compaixão.
Percebendo nos rostos e gestos a recriminação, disse:
- Não se preocupem, assim aceitará com muito mais condescendência a inevitável morte.




NÃO HÁ PAGAMENTO POR UM SERVIÇO FEITO COM AMOR E PELO AMOR



Conta-se que um homem santo, de nome Joneyed, foi a Meca vestido como um mendigo.
Tendo a barba bastante comprida, procurou um barbeiro com o intuito de o barbear. Entrou na única barbearia do lugar, e o barbeiro que se ocupava de um homem rico e poderoso, interrompeu de imediato o que estava a fazer deixando o seu cliente estupefacto e até um tanto indignado com tal desfaçatez e desconsideração.
Fez a barba a Joneyed sem cobrar, e deu-lhe uma esmola.
Se o cliente rico ficou escandalizado, Joneyed ficou enternecido com a atitude, comprometendo-se a dar ao bom do barbeiro todas as esmolas que recebesse nesse dia.
Um peregrino abastado, que havia feito uma promessa, deu um saco cheio de moedas de oiro a Joneyed, que sem delongas correu entusiasmado à barbearia para cumprir o que se havia determinado.
- O barbeiro, estupefacto encolerizou-se, dizendo:
- Que homem santo és tu? Onde é que está a tua santidade?
Não te envergonhas de querer pagar um serviço feito com amor e pelo amor?





OLHOS QUE SE FECHAM A DEUS



Um Sannyasi estava sentado numa pedra junto à margem do rio. O seu olhar não estava pousado em nada, parecendo vagar no vazio infinito.
Um homem aproximou-se e sentou-se junto dele. Conversaram. O Sannyasi estava determinado a encontrar Deus. A sua vida era oração e meditação. Castrara-se voluntariamente para aniquilar o desejo que ardia nas suas entranhas. Mortificava-se quotidianamente para destruir os seus apegos. Tudo com o objectivo de alcançar a Paz na união divina.
Nada deste mundo lhe interessava. A realidade não existia, tal a obsessão com a suprema motivação de atingir o Absoluto.
- E encontrou-O? – perguntou-lhe o homem.
- Não. Estou prestes a desesperar! – respondeu o “santo”.
No entanto, as águas do rio corriam lentamente em direcção ao mar, afagadas pelos raios de Sol matutinos, doirando-as. Os arbustos de um verde vivo embelezavam com as suas flores multicoloridas as margens salpicadas de borboletas e libelinhas. O céu ainda apresentava tons de rosa e alaranjados, que se sobrepunham ao azul magnífico de base. A Lua estava no horizonte, majestosa e em todo o seu esplendor, aguardando o momento certo para se recolher temporariamente. Pássaros vagueavam no espaço planando em círculos perfeitos, enquanto outros chilreavam estridentemente nos ramos das árvores. Tudo se conjugava em perfeita sinfonia, até as vozes longínquas dos agricultores que iniciavam a faina nos campos.
E o Sannyasi, insensível à Beleza, buscava o Absoluto... 





A VISÃO NÃO-INTERPRETATIVA



O Mestre explicou aos discípulos que a Iluminação viria se alcançassem a visão não-interpretativa.
Quiseram saber o que era a visão não-interpretativa.
Eis a explicação do Mestre:
Dois operários católicos trabalhavam numa rua em frente de um bordel, quando viram um rabino entrar furtivamente no prédio.
- Já era de esperar! – disseram.
Decorrido algum tempo, um Pastor entrou de mansinho, e não houve qualquer surpresa.
- Já era de esperar!
Logo depois chegou o Padre católico da aldeia, de rosto coberto pelo capote, desaparecendo de imediato dentro da casa de má-fama.
- Aconteceu decerto alguma coisa! Uma das garotas deve estar doente – disseram.





UMA REGRA DE OURO - NÃO TER TEMPO PARA NÃO TER TEMPO...



Um jovem da aldeia aproximou-se do Sage, e com alguma timidez e respeito, disse-lhe:
- Há algo que me espanta no Senhor. Tenho-o observado e vejo que todos os seus actos são tranquilos, lentos, sentidos. Nunca o vi apressado ou ansioso. Qual o segredo da sua placidez?
- Não tenho tempo para não ter tempo – respondeu o velho Sage.




SÓ EXISTE O AGORA



Um guerreiro foi detido em combate.
Levaram-no para o cárcere, e teve consciência de que no dia seguinte iria ser cruelmente torturado até que confessasse as posições estratégicas dos seus camaradas.
Tal facto gerava-lhe uma angústia de morte. Não tinha posição para adormecer na esteira estendida no chão sujo e fétido.
Nada o incomodava para além do pressentimento de que iria ser torturado até à morte.
A angústia aumentava a cada segundo, impedindo-o de dormir e atormentando-lhe o espírito.
Nisto, lembrou-se com nitidez das palavras do seu velho e carinhoso Mestre de armas.
“Não há passado; não há futuro; só o Agora existe.”
Permitiu que penetrassem no interior da sua alma e em poucos minutos dormia como um justo.





PEDIR A ALÁ - UM PAU DE DOIS BICOS



Um muçulmano pretendia ardentemente que a sua esposa o prendasse com um filho varão. Mas os anos passavam e o seu desejo não era satisfeito. Até que um dia recebeu a notícia que tanto aguardava. A companheira engravidara. E a imensa alegria que enchia de pleno o seu coração, não se ficou por aí.
Nasceu um rapaz, como tão insistentemente havia pedido a Alá.
Logo após o nascimento, organizou uma festa, tendo convidado para o banquete todos os seus amigos e conhecidos, resplandecendo de júbilo o seu semblante.
Entre estes estava um amigo de longa data, residente numa cidade longínqua e que se encontrava de passagem, em peregrinação a Meca.
Volvidos muitos anos, este voltou a fazer a peregrinação e passou na cidade para visitar o amigo, mas foi informado que o mesmo estava preso. Escandalizou-se, já que o tomava por um homem piedoso e cumpridor das Santas Regras, incapaz de cometer qualquer espécie de acto delituoso.
- Mas que crime cometeu o meu bom amigo? – perguntou incrédulo.
- Nenhum. Foi o filho que se embriagou, assassinou um homem e fugiu. Então o pai foi preso no seu lugar.

Adaptação de história narrada por Sa´di de Shiraz.





ESPIRITUALIDADE E DESEJO DE TRANSFORMAÇÃO



Perguntaram ao Sage qual o significado da espiritualidade.
Respondeu:
- É mais do que os livros sagrados te podem dar, mais do que o exemplo de santos e iluminados, mais do que métodos meditacionais e é muito menos que esforço, busca ou desejo de atingir o Absoluto.
É o que te leva à transformação interior.
- Sendo assim, como é que a transformação pode ocorrer?
- A transformação só surgirá quando nada desejares, nada mesmo, o que inclui o irresistível anseio de te transformares.





SABEDORIA SEM LIVROS



O jovem visitava todos os dias o Sage, deleitando-se com algumas das suas raras dissertações. Mas, o que mais o impressionava era a sua abertura de espírito, e a capacidade de pôr em dúvida e questionar fosse o que fosse. Não só o fazia, como instigava todos a que o fizessem.
Habituara-se a pensar com plena autonomia, a observar o mundo e a si próprio, sem recurso a tradições, fórmulas, crenças, opiniões. Os seus livros iam sendo progressivamente destruídos, e em sua casa apenas restavam dois, de uma biblioteca que chegara a ter cerca de três milhares. 
Uma noite de Inverno rigoroso, daquelas em que o frio gélido se entranha nas carnes, estando ambos sentados ao lume, disse o Sage:
- Tenho algo para ti. Algo que te pode ser precioso. Um livro que recebi do meu Mestre e que antes deste foi de extrema utilidade a várias gerações. Encontrarás nele a resposta a muitas das tuas questões.
- Não necessito de livros. Tudo o que aprendi de ti será muito mais do que esse amontoado de palavras me poderá oferecer. Assim continuarei – respondeu reverencialmente o jovem.
O Sage insistiu poisando-lhe o livro no colo. O jovem, inesperadamente lançou-o ao fogo crepitante, sendo de imediato consumido pelas chamas.
- Que loucura é que estás a fazer? – perguntou o Sage.
- Que loucura estás tu a dizer?! – disse o jovem. 




A PAZ DA ACEITAÇÃO DO INEVITÁVEL



Em todas as suas acções o Sage parecia unificado com tudo o que o cercava; com os outros, com a Natureza e com o próprio Cosmos.
Os seus movimentos, nos mais pequenos detalhes eram harmónicos e elegantes. Nada em si denotava ansiedade, inquietude, tudo era Paz, ausência de conflagrações interiores.
Um jovem questionou-o:
- Diga-me, qual o segredo da sua serenidade, dessa Paz que nada parece abalar?
Respondeu o velho Sage:
- A irrestrita cooperação com o inevitável.






PAZ - O SENTIDO DA VIDA



Um homem passava os seus santos dias com queixumes constantes. A vida não tinha qualquer sentido; tudo era tédio, infelicidade. Não encontrava prazer, admiração ou espanto em nada.
Quando os amigos lhe perguntavam a razão de tão profunda tristeza, limitava-se a responder de modo taciturno:
- A minha vida não tem qualquer sentido.
Quando apenas lhe parecia restar a destruição, decidiu solicitar auxílio ao velho Sage.  
Os primeiros meses pareceram-lhe insuportáveis. O bom do Sage pouco ou nada falava. Aprendeu a olhar para as coisas, único modo de “matar o tempo”.
Decorridos dois anos, voltou à aldeia, onde foi acolhido com alegria e com inúmeras perguntas.
- Agora a tua vida já tem sentido?
- Não - respondeu.
- Perdeste então o teu tempo?
- Não.
- Como assim? Se estás como outrora?
- Agora não busco nada e quando busco não sei o que busco.
Não desejo nada e quando desejo não sei o que desejo.
Tenho paz e tranquilidade, que é independente de tudo o que o quotidiano me traz ou possa trazer.





NEM LOUCO NEM MÍSTICO



Desde muito novo fui considerado místico. Ninguém parecia compreender-me.
O meu pai dizia:
- Não és suficientemente louco para seres internado num hospício nem suficientemente concentrado para seres enviado para um mosteiro. Não sei o que hei-de fazer contigo.
- Eu respondi:
- Puseram certa vez um ovo de pato no ninho de uma galinha. Dele nasceu um pato que seguia a mãe para onde quer que ela fosse, até que um belo dia, levou-o para as proximidades de um lago.
O patinho entrou imediatamente na água, enquanto a mãe galinha desesperava cacarejando na margem.
Pois bem, meu pai, eu entrei no Oceano e não sou culpado do Senhor ter preferido ficar para sempre na praia.

História que o sufi Shams-e Tabrizi contava de si mesmo.





NASRUDIN E O FALCÃO



Conta-se que Nasrudin foi indigitado primeiro-ministro do Rei.
Já em exercício de funções, no palácio, deparou-se com um falcão real.
Nasrudin já tinha visto muitos pombos, mas nenhum idêntico àquele. Tal facto transtornou-o.
Foi de imediato buscar uma tesoura bem afiada, com a qual lhe cortou as garras, a ponta do bico e terminou aparando-lhe as asas.
Concluída a tarefa exclamou:
- O teu dono tem sido muito descuidado. Agora já te pareces com um pombo. 





segunda-feira, 12 de outubro de 2015

O ÚNICO E VERDADEIRO MESTRE - A REALIDADE



Perguntou um jovem ao Sage:
- Posso ser seu discípulo? Necessito urgentemente de orientação.
- Não – respondeu peremptoriamente. Eu sou uma parte ínfima da realidade. Volta para a tua aldeia e observa a Realidade no seu todo. Tudo te servirá de Mestre sendo digno desse nome.





DONS SOBRENATURAIS OU LÓGICA?!



O Imperador Mahmud El-Ghazna passeava nos jardins do seu palácio com o sábio Ahmad Mussain, de quem se dizia que tinha o dom de ler os pensamentos. No entanto, o sábio, por várias vezes se havia escusado às insistências do Imperador para que fizesse uma demonstração dos seus poderes.
Este recorreu a um ardil, para o experimentar.
- Ahmad, qual é a profissão daquele homem?
- É carpinteiro.
- Qual o seu nome?
- Ahmad, como eu.
- Será que comeu alguma coisa doce recentemente?
- Sim, comeu - respondeu Ahmad.
Chamado o carpinteiro, confirmou tudo o que o sábio dizia.
O Imperador disse-lhe:
- Ahmad, recusaste-te a fazer uma demonstração dos teus poderes. Mas, sem o notares eu fiz com que demonstrasses as tuas capacidades. Será que tens receio que o povo te transforme num santo depois de eu revelar as tuas capacidades que excedem as dos humanos comuns? Como é possível que continues a ocultar a tua condição de Sufi?
Ahmad, respondeu:
- Admito que posso ler pensamentos, mas o povo não se apercebe quando o faço e a minha dignidade não me permite exercer esse dom com propósitos frívolos. Farei tudo para que o meu segredo continue inviolável.
- No entanto, admites que acabaste agora mesmo de utilizar os teus poderes?
- Não, absolutamente. Vede Majestade. Quando me chamastes, o homem virou a cabeça na vossa direcção, o que foi indicação segura de que o seu nome é igual ao meu. No jardim, só dirigia o seu olhar para árvores de madeira aproveitável, donde deduzi que deveria ser carpinteiro. E percebi que algo de doce acabara de comer, porquanto vi o seu empenho em afastar as abelhas que tentavam pousar nos seus lábios. Apenas lógica, nada de dons ocultos.





REZAR POR TUDO E POR NADA



A escola de Nasrudin estava em chamas.
Sentado debaixo de uma árvore, Nasrudin via-a arder.
Passou um motorista da aldeia.
- Professor, a escola está em chamas!
- Eu sei.
- E não faz nada?
- Não estou a fazer?
- O quê?! – questionou-se com algum espanto o motorista.
-Desde que começou o incêndio que rezo para chover.





domingo, 11 de outubro de 2015

O AMOR SUPREMO DE KRISHNA E RADHA - O COLÍRIO DO AMOR



Entre o Deus Krishna e a sua amante Radha, há uma ligação amorosa que nunca nenhum mortal experimentou e que não pode ser expressa por palavras, tal a sua subtileza e intensidade.
Um dia, Radha passeava-se pelos campos floridos de um vale, quando encontrou duas pastoras a apascentarem os seus rebanhos.
Radha não se conteve, e disse:
- Ó pastoras, como é belo e luminoso o dia. Os meus sentimentos são tão fortes, tão vigorosos, que não consigo deixar de ver Krishna, seja onde for.
Uma das pastoras disse:
- Ouve Radha, certamente puseste nos teus belos olhos o colírio do Amor. Assim, não estranhamos que vejas o teu amado Krishna em todo e qualquer lugar, em todas as coisas e seres.





O MAL DOS OUTROS...



Nasrudin estava empoleirado numa escada com o fim de reparar uma parede dos seus aposentos.
Caiu desamparado, e teve de ser transportado para o leito, gritando de dor. 
A mulher tratou-o com todos os medicamentos possíveis, seguindo com rigor as indicações do médico, mas, mesmo assim, as melhoras não se faziam sentir.
Alguns amigos foram visitá-lo.
Um, disse:
- Tiveste muita sorte! Com tal queda poderias ter partido uma perna, deslocado a anca, ou mesmo ter morrido.
Outro dizia:
- Realmente poderia ter sido muito pior!
E outro ainda:
- Tem paciência, há quem sofra muito mais do que tu.
Nasrudin, inundado de dores, gritou quase em desespero:
- Saiam imediatamente. Ponham-se na rua, bando de incapazes e de ignorantes. Mulher, aqui não entra mais ninguém, a menos que alguma vez tenha caído de uma escada.




O COMPORTAMENTO SÁBIO



O Mestre costumava dizer aos discípulos:
“O sábio abandona o eu, livre de apegos, independe do conhecimento, não debate opiniões nem adopta qualquer doutrina.
Não julga os outros, não faz afirmações acerca dos outros. Uma pessoa destrói-se ao fazer julgamentos sobre os outros.
Agarra-se firmemente ao refúgio da verdade. Não procura refúgio em ninguém a não ser em si mesmo.”




VER E NÃO VER



Existiu um rabino cuja santidade era unanimemente reconhecida.
Uma mulher desesperada visitou-o e disse:
- Rabino, o meu marido deixou-me. Desconheço o motivo. Diz-me, por amor do Santíssimo, se volta?
Com os olhos fechados, cabeça descaída na direcção da pequena mesa em que se apoiava, respondeu:
- Vai em paz, regressa a tua casa, pois o teu marido irá voltar.
Um discípulo acompanhou a mulher até à porta e junto desta, segredou-lhe:
- O teu marido não voltará, não te iludas criatura de Deus.
- Porque me dizes precisamente o contrário do que o homem santo me disse? - replicou a mulher.
- Durante a vossa conversa, o meu Mestre tinha o seu olhar virado para o interior. Não te viu, mas eu vi.





O CAMINHO DO HOMEM



O Mestre disse:
“Um homem pode alargar o seu caminho; mas um caminho não pode alargar o espírito de um homem”

Confúcio





UMA HISTÓRIA DE MA ANANDA MOYI



Ma Ananda Moyi costumava contar esta história:
Um rei quis que os dois pintores mais famosos do reino competissem entre si.
Pediu-lhes:
- Quero que cada um de vós pinte o quadro mais belo que exista ou que possa vir a existir.
Colocou-os na mesma sala, dividindo-os por intermédio de uma cortina.
Um deles, pintou um quadro fantástico, maravilha nunca antes vista; as cores e formas não pareciam pertencer a este mundo, a atmosfera sublime era celestial. O outro pintor dedicou todo o tempo para polir com um esmero impensável a parede.
O rei quis ver os trabalhos, e ordenou que abrissem a cortina.
Num dos lados da sala, um quadro fantástico. No outro, o seu reflexo espelhado na parede polida, parecendo ter uma beleza muito superior.




SUPERIOR A DEUS SÓ O "NADA"



No palácio real foi servido um faustoso banquete, sentando-se os convidados, segundo a tradição, em função da sua dignidade e classe social.
Enquanto aguardavam pelo rei, entrou um monge errante, vestido com uma velha túnica esfarrapada e um aspecto famélico, que os presentes julgaram ser um mendigo.
Este, sem sequer reparar nos olhares apreensivos dos convidados, sentou-se no lugar mais importante da mesa principal.
O primeiro-ministro, indignado, questionou-o:
- Porque é que te sentas aí? És porventura algum vizir?
O eremita respondeu:
- Sou muito superior a um vizir.
- És primeiro-ministro de algum reino?
- Sou muito superior a qualquer primeiro-ministro.
- És tu por acaso o rei?
- Sou superior a todos os reis.
Cada vez possuído de maior indignação, volveu o afrontado primeiro-ministro:
- Deves pensar que és Deus?
- Sou muito superior a Deus.
- Nada é superior a Deus - vociferou o alto dignatário.
O monge, com um ténue e discreto sorriso, disse:
- Agora já sabes quem eu sou. Esse nada sou eu!





A COMPAIXÃO DE KRISHNA



No final de lauto festim dado pelo rei, todos os convidados entregaram presentes a Krishna, em conformidade com a tradição.
Uns traziam-lhe dinheiro, e ele dizia:
- Serás para sempre rico, e a tua riqueza crescerá sem parar.
Outros traziam-lhe escravas, e ele dizia:
- Terás muitas escravas.
Nisto, perante si, surgiu um pobre homem, que trazia consigo o seu único bem: uma vaca leiteira. Ofertou então, ao Senhor Krishna um copo de leite, que este bebeu. Mas, um tanto inexplicavelmente Krishna apontou para o animal com o dedo indicador da mão direita. A vaca morreu instantaneamente.
No meio do silêncio geral, um homem, de cognome “O Justo”, não se conteve:
- Não te entendo Senhor. Aos ricos prometes mais riqueza e maior prosperidade, e a este pobre homem tudo lhe tirastes. Com o respeito devido te questiono se será este um acto de compaixão?
- A vaca deste homem era o único obstáculo, a única coisa que o separava de mim - respondeu Krishna.




O BANQUETE ANTES DO FIM DO MUNDO



Nasrudin tinha um cordeiro gordo e chamativo. Amigos e vizinhos tudo faziam tentando convencê-lo a comê-lo. Muitas foram as tentativas, todas goradas, para com o bicho se banquetearem.
Até que num concorrido serão convenceram o Mullah de que o mundo iria acabar em vinte e quatro horas. 
- Vamos então comê-lo. Não desperdicemos oportunidade que não mais teremos - disse.
Servida a farta ceia adormeceram os convivas tais lorpas.
Nasrudin pegou nos casacos de todos eles e deitou-os a arder na lareira.
Os convivas acordaram e bradaram injuriando o Mullah.
- Calma irmãos – disse -, já vos esquecestes que amanhã é o fim do mundo?! Para que necessitais de vossas roupas?





NASRUDIN E O BÊBADO



Um bêbado cambaleava. Passo cá e passo lá, queda aqui e queda ali.
Nasrudin auxiliou-o, mas o homem segredou algo ao Mullah, que de imediato se afastou.
Um passante perguntou:
- Desistiu? Porque o abandonou e não ajuda?
- Diz que não precisa. Tudo gira e rodopia. Quando a sua casa por ele passar para dentro dela irá pular.
Como vê, poupa esforço, não precisa de caminhar.





O RELÓGIO DUAS VEZES SEMPRE CERTO



Nasrudin tinha um relógio que nunca estava certo. Ora adiantava, ora atrasava.
Um amigo perguntou-lhe:
- Mullah, nunca sabes as horas certas. Será que não podes fazer algo?
Nasrudin pensou uns segundos, pegou num martelo
e desferiu um golpe no relógio fazendo-o parar.
- Que asneira. Que fizeste tu homem? Assim não o compuseste, avariaste-o de vez.
- Não me parece. Antes nunca estava certo. Agora, pelo menos, certo está, duas vezes ao dia.




O IMPERADOR E O ERMITÃO



Nas montanhas da China vivia um eremita que se dizia possuir uma imensa sabedoria, fama que se estendia por uma vasta região.
O Imperador tendo conhecimento de tal facto enviou emissários para que lhe oferecessem o cargo de primeiro-ministro no palácio imperial. 
Chegados ao lugar onde se encontrava, após múltiplas peripécias e informações contraditórias dos habitantes do lugar, encontraram-no a meditar, sentado numa pedra nas margens de um rio, e espantaram-se por ser aquele o homem de aspecto simples e miserável a quem o Imperador intentava nomear para tão alto cargo.
Ofereceram-lhe o lugar que o Imperador lhe destinava, dissertando longamente sobre a importância e honorabilidade do mesmo. O eremita ouviu pacientemente tudo o que lhe diziam.
Fez-se silêncio durante alguns minutos, após o que o eremita disse:
- Estais a ver aquela tartaruga que se desloca vagarosamente na lama da outra margem?
- Vemos, bom Senhor – responderam os emissários.
Volveu o eremita: 
- Conta-se que no palácio Imperial existe num pequeno templo, uma tartaruga embalsamada, com a carapaça coberta de valorosíssimas jóias. É verdade?
- É verdade Senhor – responderam os emissários.
- Digam-me. Achais que aquela tartaruga trocaria de lugar com a divinizada tartaruga da corte?
- Julgamos impossível.
- Digam então ao nosso Imperador, que me manterei fiel ao meu destino, e ao tipo de vida que escolhi. Antes vivo nestas maravilhosas montanhas, sulcadas por rios de águas límpidas e percorridas por seres livres e viventes, do que morto e embalsamado no luxo do vosso palácio – respondeu convicto o eremita.



quinta-feira, 8 de outubro de 2015

O NEGÓCIO DO AMOR



O Sage perguntou à prostituta:
- Porque é que negoceias o teu amor por dinheiro?
- Não negoceio amor, presto um serviço! Mas as pessoas ditas sérias, essas sim, não negoceiam o amor?
- Como assim? – questionou o Sage embaraçado. Bem... Talvez...
Após alguns segundos, que mais pareciam uma eternidade, disse:
- Tens razão mulher. Negoceiam amor por amor.
- E não é tão mau um negócio quanto o outro?! – disse a prostituta.





O QUE É A SANTIDADE?



Um jovem perguntou o Sage:
- Quem é santo?
O Sage respondeu-lhe com as palavras que terão sido de Buda:
- Cada hora está dividida em minutos, os minutos em segundos. Quem está integralmente presente em cada segundo que passa, esse é certamente um homem santo.

Por isso, o santo não tem consciência de o ser.




A CURA DAS NEUROSES



O Sage lembrava-se vagamente daquele jovem que caminhava na sua direcção. Era indubitavelmente o filho do ferreiro, que abandonara a aldeia para estudar na cidade grande.
O tempo passara; mais de cinco anos.
Abraçaram-se efusivamente. 
- Que fizeste durante todo este tempo, meu bom rapaz?
- Estudei Psicologia Clínica, e agora tenho um consultório na cidade. Trato daquilo que chamamos doentes mentais, em regra neuróticos.
- E os resultados? – questionou-o o Sage.
- Não são os melhores. É com muita dificuldade que os liberto, quando liberto, dos seus problemas.
- Liberta-os então do problema que lhes causou o problema.
- Como assim, não te entendo?!
- Liberta-os do ego.
- Como é que os posso libertar do ego? – perguntou incrédulo o jovem Psicopatologista.
- Faz com que abandonem os pensamentos e entrem no mundo dos sentidos.





VIAJAR SEM SAIR DE CASA



Alguém perguntou ao Mestre o significado de uma frase que ouvira:
“O Iluminado viaja sem se movimentar.”
Disse o Mestre:
- Senta-te à janela todos os dias e observa a paisagem em constante mudança no fundo do quintal, enquanto a Terra te transporta na sua viagem anual ao redor do Sol.






O BEM MAIS VALIOSO DO MUNDO



Um santo hindu na sua peregrinação pela Índia aproximou-se de uma aldeia e sentindo-se exausto, deitou-se à sombra de uma árvore.
Nisto, surgiu um dos habitantes da aldeia, visivelmente excitado, que o acordou dizendo:
- Desculpa interromper o teu sono, mas peço-te que me dês a pedra que tens.
- Qual pedra? – perguntou-lhe o santo homem ainda estremunhado.
- A pedra que encontraste. Ontem à noite, Shiva em sonhos disse-me que se viesse a este lugar encontraria um homem que me ofereceria uma pedra preciosa, cujo tamanho e valor me tornariam num dos habitantes mais ricos da região.
O santo retirou da sua sacola uma pedra de consideráveis proporções, em bruto, e mostrou-a ao aldeão.
- É esta pedra a que te referes? – perguntou. 
- Encontrei-a ontem por mero acaso numa vereda.
- É essa, é essa! Meu Deus, que beleza, fantástico.
- Ofereço-ta. Sê feliz.
O aldeão olhava para o diamante estarrecido. Nunca se vira nada assim. Agarrou-a com as duas mãos, agradeceu mil vezes ao santo, e partiu na direcção da aldeia, pleno de júbilo.
Durante a noite, tal era a sua excitação, não conseguia dormir. Já passava da meia-noite quando impaciente se levantou e foi ter com o santo, voltando a acordá-lo.
- Que queres tu agora?
- Quero que me dês o que te permitiu desfazer sem mais de uma pedra tão valiosa – disse.