HISTÓRIAS DE ESPIRITUALIDADE

HISTÓRIAS DE ESPIRITUALIDADE
A SABEDORIA DOS MESTRES

domingo, 11 de outubro de 2015

O AMOR SUPREMO DE KRISHNA E RADHA - O COLÍRIO DO AMOR



Entre o Deus Krishna e a sua amante Radha, há uma ligação amorosa que nunca nenhum mortal experimentou e que não pode ser expressa por palavras, tal a sua subtileza e intensidade.
Um dia, Radha passeava-se pelos campos floridos de um vale, quando encontrou duas pastoras a apascentarem os seus rebanhos.
Radha não se conteve, e disse:
- Ó pastoras, como é belo e luminoso o dia. Os meus sentimentos são tão fortes, tão vigorosos, que não consigo deixar de ver Krishna, seja onde for.
Uma das pastoras disse:
- Ouve Radha, certamente puseste nos teus belos olhos o colírio do Amor. Assim, não estranhamos que vejas o teu amado Krishna em todo e qualquer lugar, em todas as coisas e seres.





O MAL DOS OUTROS...



Nasrudin estava empoleirado numa escada com o fim de reparar uma parede dos seus aposentos.
Caiu desamparado, e teve de ser transportado para o leito, gritando de dor. 
A mulher tratou-o com todos os medicamentos possíveis, seguindo com rigor as indicações do médico, mas, mesmo assim, as melhoras não se faziam sentir.
Alguns amigos foram visitá-lo.
Um, disse:
- Tiveste muita sorte! Com tal queda poderias ter partido uma perna, deslocado a anca, ou mesmo ter morrido.
Outro dizia:
- Realmente poderia ter sido muito pior!
E outro ainda:
- Tem paciência, há quem sofra muito mais do que tu.
Nasrudin, inundado de dores, gritou quase em desespero:
- Saiam imediatamente. Ponham-se na rua, bando de incapazes e de ignorantes. Mulher, aqui não entra mais ninguém, a menos que alguma vez tenha caído de uma escada.




O COMPORTAMENTO SÁBIO



O Mestre costumava dizer aos discípulos:
“O sábio abandona o eu, livre de apegos, independe do conhecimento, não debate opiniões nem adopta qualquer doutrina.
Não julga os outros, não faz afirmações acerca dos outros. Uma pessoa destrói-se ao fazer julgamentos sobre os outros.
Agarra-se firmemente ao refúgio da verdade. Não procura refúgio em ninguém a não ser em si mesmo.”




VER E NÃO VER



Existiu um rabino cuja santidade era unanimemente reconhecida.
Uma mulher desesperada visitou-o e disse:
- Rabino, o meu marido deixou-me. Desconheço o motivo. Diz-me, por amor do Santíssimo, se volta?
Com os olhos fechados, cabeça descaída na direcção da pequena mesa em que se apoiava, respondeu:
- Vai em paz, regressa a tua casa, pois o teu marido irá voltar.
Um discípulo acompanhou a mulher até à porta e junto desta, segredou-lhe:
- O teu marido não voltará, não te iludas criatura de Deus.
- Porque me dizes precisamente o contrário do que o homem santo me disse? - replicou a mulher.
- Durante a vossa conversa, o meu Mestre tinha o seu olhar virado para o interior. Não te viu, mas eu vi.





O CAMINHO DO HOMEM



O Mestre disse:
“Um homem pode alargar o seu caminho; mas um caminho não pode alargar o espírito de um homem”

Confúcio





UMA HISTÓRIA DE MA ANANDA MOYI



Ma Ananda Moyi costumava contar esta história:
Um rei quis que os dois pintores mais famosos do reino competissem entre si.
Pediu-lhes:
- Quero que cada um de vós pinte o quadro mais belo que exista ou que possa vir a existir.
Colocou-os na mesma sala, dividindo-os por intermédio de uma cortina.
Um deles, pintou um quadro fantástico, maravilha nunca antes vista; as cores e formas não pareciam pertencer a este mundo, a atmosfera sublime era celestial. O outro pintor dedicou todo o tempo para polir com um esmero impensável a parede.
O rei quis ver os trabalhos, e ordenou que abrissem a cortina.
Num dos lados da sala, um quadro fantástico. No outro, o seu reflexo espelhado na parede polida, parecendo ter uma beleza muito superior.




SUPERIOR A DEUS SÓ O "NADA"



No palácio real foi servido um faustoso banquete, sentando-se os convidados, segundo a tradição, em função da sua dignidade e classe social.
Enquanto aguardavam pelo rei, entrou um monge errante, vestido com uma velha túnica esfarrapada e um aspecto famélico, que os presentes julgaram ser um mendigo.
Este, sem sequer reparar nos olhares apreensivos dos convidados, sentou-se no lugar mais importante da mesa principal.
O primeiro-ministro, indignado, questionou-o:
- Porque é que te sentas aí? És porventura algum vizir?
O eremita respondeu:
- Sou muito superior a um vizir.
- És primeiro-ministro de algum reino?
- Sou muito superior a qualquer primeiro-ministro.
- És tu por acaso o rei?
- Sou superior a todos os reis.
Cada vez possuído de maior indignação, volveu o afrontado primeiro-ministro:
- Deves pensar que és Deus?
- Sou muito superior a Deus.
- Nada é superior a Deus - vociferou o alto dignatário.
O monge, com um ténue e discreto sorriso, disse:
- Agora já sabes quem eu sou. Esse nada sou eu!





A COMPAIXÃO DE KRISHNA



No final de lauto festim dado pelo rei, todos os convidados entregaram presentes a Krishna, em conformidade com a tradição.
Uns traziam-lhe dinheiro, e ele dizia:
- Serás para sempre rico, e a tua riqueza crescerá sem parar.
Outros traziam-lhe escravas, e ele dizia:
- Terás muitas escravas.
Nisto, perante si, surgiu um pobre homem, que trazia consigo o seu único bem: uma vaca leiteira. Ofertou então, ao Senhor Krishna um copo de leite, que este bebeu. Mas, um tanto inexplicavelmente Krishna apontou para o animal com o dedo indicador da mão direita. A vaca morreu instantaneamente.
No meio do silêncio geral, um homem, de cognome “O Justo”, não se conteve:
- Não te entendo Senhor. Aos ricos prometes mais riqueza e maior prosperidade, e a este pobre homem tudo lhe tirastes. Com o respeito devido te questiono se será este um acto de compaixão?
- A vaca deste homem era o único obstáculo, a única coisa que o separava de mim - respondeu Krishna.




O BANQUETE ANTES DO FIM DO MUNDO



Nasrudin tinha um cordeiro gordo e chamativo. Amigos e vizinhos tudo faziam tentando convencê-lo a comê-lo. Muitas foram as tentativas, todas goradas, para com o bicho se banquetearem.
Até que num concorrido serão convenceram o Mullah de que o mundo iria acabar em vinte e quatro horas. 
- Vamos então comê-lo. Não desperdicemos oportunidade que não mais teremos - disse.
Servida a farta ceia adormeceram os convivas tais lorpas.
Nasrudin pegou nos casacos de todos eles e deitou-os a arder na lareira.
Os convivas acordaram e bradaram injuriando o Mullah.
- Calma irmãos – disse -, já vos esquecestes que amanhã é o fim do mundo?! Para que necessitais de vossas roupas?





NASRUDIN E O BÊBADO



Um bêbado cambaleava. Passo cá e passo lá, queda aqui e queda ali.
Nasrudin auxiliou-o, mas o homem segredou algo ao Mullah, que de imediato se afastou.
Um passante perguntou:
- Desistiu? Porque o abandonou e não ajuda?
- Diz que não precisa. Tudo gira e rodopia. Quando a sua casa por ele passar para dentro dela irá pular.
Como vê, poupa esforço, não precisa de caminhar.





O RELÓGIO DUAS VEZES SEMPRE CERTO



Nasrudin tinha um relógio que nunca estava certo. Ora adiantava, ora atrasava.
Um amigo perguntou-lhe:
- Mullah, nunca sabes as horas certas. Será que não podes fazer algo?
Nasrudin pensou uns segundos, pegou num martelo
e desferiu um golpe no relógio fazendo-o parar.
- Que asneira. Que fizeste tu homem? Assim não o compuseste, avariaste-o de vez.
- Não me parece. Antes nunca estava certo. Agora, pelo menos, certo está, duas vezes ao dia.




O IMPERADOR E O ERMITÃO



Nas montanhas da China vivia um eremita que se dizia possuir uma imensa sabedoria, fama que se estendia por uma vasta região.
O Imperador tendo conhecimento de tal facto enviou emissários para que lhe oferecessem o cargo de primeiro-ministro no palácio imperial. 
Chegados ao lugar onde se encontrava, após múltiplas peripécias e informações contraditórias dos habitantes do lugar, encontraram-no a meditar, sentado numa pedra nas margens de um rio, e espantaram-se por ser aquele o homem de aspecto simples e miserável a quem o Imperador intentava nomear para tão alto cargo.
Ofereceram-lhe o lugar que o Imperador lhe destinava, dissertando longamente sobre a importância e honorabilidade do mesmo. O eremita ouviu pacientemente tudo o que lhe diziam.
Fez-se silêncio durante alguns minutos, após o que o eremita disse:
- Estais a ver aquela tartaruga que se desloca vagarosamente na lama da outra margem?
- Vemos, bom Senhor – responderam os emissários.
Volveu o eremita: 
- Conta-se que no palácio Imperial existe num pequeno templo, uma tartaruga embalsamada, com a carapaça coberta de valorosíssimas jóias. É verdade?
- É verdade Senhor – responderam os emissários.
- Digam-me. Achais que aquela tartaruga trocaria de lugar com a divinizada tartaruga da corte?
- Julgamos impossível.
- Digam então ao nosso Imperador, que me manterei fiel ao meu destino, e ao tipo de vida que escolhi. Antes vivo nestas maravilhosas montanhas, sulcadas por rios de águas límpidas e percorridas por seres livres e viventes, do que morto e embalsamado no luxo do vosso palácio – respondeu convicto o eremita.



quinta-feira, 8 de outubro de 2015

O NEGÓCIO DO AMOR



O Sage perguntou à prostituta:
- Porque é que negoceias o teu amor por dinheiro?
- Não negoceio amor, presto um serviço! Mas as pessoas ditas sérias, essas sim, não negoceiam o amor?
- Como assim? – questionou o Sage embaraçado. Bem... Talvez...
Após alguns segundos, que mais pareciam uma eternidade, disse:
- Tens razão mulher. Negoceiam amor por amor.
- E não é tão mau um negócio quanto o outro?! – disse a prostituta.





O QUE É A SANTIDADE?



Um jovem perguntou o Sage:
- Quem é santo?
O Sage respondeu-lhe com as palavras que terão sido de Buda:
- Cada hora está dividida em minutos, os minutos em segundos. Quem está integralmente presente em cada segundo que passa, esse é certamente um homem santo.

Por isso, o santo não tem consciência de o ser.




A CURA DAS NEUROSES



O Sage lembrava-se vagamente daquele jovem que caminhava na sua direcção. Era indubitavelmente o filho do ferreiro, que abandonara a aldeia para estudar na cidade grande.
O tempo passara; mais de cinco anos.
Abraçaram-se efusivamente. 
- Que fizeste durante todo este tempo, meu bom rapaz?
- Estudei Psicologia Clínica, e agora tenho um consultório na cidade. Trato daquilo que chamamos doentes mentais, em regra neuróticos.
- E os resultados? – questionou-o o Sage.
- Não são os melhores. É com muita dificuldade que os liberto, quando liberto, dos seus problemas.
- Liberta-os então do problema que lhes causou o problema.
- Como assim, não te entendo?!
- Liberta-os do ego.
- Como é que os posso libertar do ego? – perguntou incrédulo o jovem Psicopatologista.
- Faz com que abandonem os pensamentos e entrem no mundo dos sentidos.





VIAJAR SEM SAIR DE CASA



Alguém perguntou ao Mestre o significado de uma frase que ouvira:
“O Iluminado viaja sem se movimentar.”
Disse o Mestre:
- Senta-te à janela todos os dias e observa a paisagem em constante mudança no fundo do quintal, enquanto a Terra te transporta na sua viagem anual ao redor do Sol.






O BEM MAIS VALIOSO DO MUNDO



Um santo hindu na sua peregrinação pela Índia aproximou-se de uma aldeia e sentindo-se exausto, deitou-se à sombra de uma árvore.
Nisto, surgiu um dos habitantes da aldeia, visivelmente excitado, que o acordou dizendo:
- Desculpa interromper o teu sono, mas peço-te que me dês a pedra que tens.
- Qual pedra? – perguntou-lhe o santo homem ainda estremunhado.
- A pedra que encontraste. Ontem à noite, Shiva em sonhos disse-me que se viesse a este lugar encontraria um homem que me ofereceria uma pedra preciosa, cujo tamanho e valor me tornariam num dos habitantes mais ricos da região.
O santo retirou da sua sacola uma pedra de consideráveis proporções, em bruto, e mostrou-a ao aldeão.
- É esta pedra a que te referes? – perguntou. 
- Encontrei-a ontem por mero acaso numa vereda.
- É essa, é essa! Meu Deus, que beleza, fantástico.
- Ofereço-ta. Sê feliz.
O aldeão olhava para o diamante estarrecido. Nunca se vira nada assim. Agarrou-a com as duas mãos, agradeceu mil vezes ao santo, e partiu na direcção da aldeia, pleno de júbilo.
Durante a noite, tal era a sua excitação, não conseguia dormir. Já passava da meia-noite quando impaciente se levantou e foi ter com o santo, voltando a acordá-lo.
- Que queres tu agora?
- Quero que me dês o que te permitiu desfazer sem mais de uma pedra tão valiosa – disse.





OLHA DENTRO DE TI



Numa noite quente de Verão, o Sage estava sentado no banco de granito que ladeava o chafariz do centro da aldeia, onde o povo se abastecia gratuitamente de água.
Alguns jovens faziam-lhe perguntas:
- Deus existe? 
- Foi Ele quem criou o mundo?
- Há vida depois da morte?
- As almas dos justos são recompensadas?
O velho Sage olhou-os compassivo.
Como não lograssem deixar de insistir nas mesmas questões, disse-lhes:
- O que eu faço aqui, nesta noite magnífica, é vender água do chafariz.





O FARDO DO PENSAMENTO PECAMINOSO



Dois monges budistas caminhavam na direcção do seu mosteiro quando viram junto a um rio de águas caudalosas uma jovem de beleza rara, que o pretendia atravessar, mas temia pela sua vida, pressupondo a existência de fundões.
Um dos monges, pegou-lhe e transportou-a em segurança para a outra margem.
O outro, indignado, não parava de lhe lembrar e relembrar a Santa Regra de não tocar numa mulher.
- Como foi possível que sem qualquer hesitação tenhas tocado numa mulher, mais ainda, carregando-a encostada ao teu corpo?
Não sentiste tu o desejo que nos aniquila?
Comprometeste-te perante a religião; comprometeste-nos a todos. Não te envergonhas? Não cuidarás de que podemos ser acusados de um incumprimento desonroso?
Cansado de tanta insistência, o monge “prevaricador”, respondeu:
- Vê irmão, aquela bela mulher, já há horas que a deixei na margem do rio, quer no corpo quer no espírito.
Porque é que tu ainda a carregas?




APRENDER A SER POBRE



Um militante do partido no governo, assessor do primeiro-ministro, encontrou o Sage, com uma velha vestimenta, gasta e descolorada, a viver num casebre sem o mínimo de condições.
Impressionou-o o facto de que um sábio pudesse viver em tão miseráveis condições.
- Se não fosses tão intransigente e te adaptasses ainda que formalmente às nossas ideias e objectivos, não necessitarias de viver nesta pobreza degradante.
- E se tu te tivesses adaptado à pobreza, não necessitarias de te vender aos ricos e poderosos – respondeu o Sage.





A TIGELA DA ILUMINAÇÃO



Um velho monge tibetano atingiu a iluminação.
Todos os noviços o questionavam:
- O que é que se transformou em ti?
Respondeu:
- Percebi a efemeridade da vida, o facto de que quando me levanto posso não chegar ao fim do dia.
- Mas não é isso que toda a gente sabe? – retorquiu um dos noviços.
- Em boa verdade, saber, sabemos, mas muito poucos são os que o sentem.
Durante anos, todas as noites virei ao contrário na pequena mesa que tenho junto da minha enxerga a tigela que habitualmente uso para me alimentar.
A partir do dia em que a iluminação me tocou, nunca mais o fiz.
- Não te entendo – volveu o noviço.
- Nessa altura necessitava de algo que me relembrasse que no dia seguinte poderia já não necessitar da mesma.
Agora não preciso mais de malga, sinto apenas. 





ESTAMOS APENAS DE PASSAGEM



No século passado, um americano foi visitar o rabino polaco Hofez Chaim, transportando consigo duas pequenas malas.
Ficou espantado com a austeridade da sua casa. Livros e mais livros espalhados, e de mobília apenas uma cama, uma mesa e um banco.
Sendo originário de uma sociedade de consumo, e com uma curiosidade quase mórbida, questionou-o:
- Perdoe-me rabino, mas é esta toda a sua mobília?
- E essa é toda a que é sua? – perguntou o rabino apontando para as malas de viagem.
- Mas rabino, eu estou apenas de passagem... – respondeu o americano.
- Também eu meu amigo. Também eu estou apenas de passagem.





A ILUSÃO DA REPUTAÇÃO



Numa aldeia do norte da Índia havia uma jovem solteira e bastante bela. A sua família apesar de pobre procurava que o comportamento dos seus membros fosse irrepreensível. No entanto, a jovem engravidou, escondendo o seu estado até que se tornou perfeitamente visível e inequívoco.
O pai, homem grave e algo rude, chamou o médico da vila mais próxima, que lhe confirmou as suspeitas. A partir daí, questionou-a centenas de vezes quanto à identidade do pai da criança. Mas por resposta apenas tinha choro e silêncio. A jovem estava numa angústia de morte e recusava-se a falar.
Nada mais lhe restava. Teria de agir pela força. Por via desta, após múltiplas agressões, a jovem confessou que o pai era o monge budista, que estava no templo em meditação constante.
A notícia depressa se propagou na aldeia, com a consequente consternação de uns e indignação de outros, que julgavam o bom monge um santo.
Os pais acompanhados por muita gente da aldeia irromperam no templo, e injuriaram o monge. Não era possível, mesmo impensável, que um homem tão respeitado pudesse ter sido consumido pelos desejos da carne e abusado depravadamente de uma jovem, violando a Santa Regra e os mais básicos princípios éticos. Disseram-lhe, depois de terem esgotado todas as humilhações:
- Sendo o pai da criança, terás de assumir a sua educação e alimentação.
- Assim seja, assim seja – respondeu o monge.
Quando o bebé nasceu entregaram-lho, e o monge, por sua vez, confiou-o a uma mulher da aldeia, a troco de uma retribuição acordada.
A partir desse momento a sua reputação ficou completamente destruída. Nenhum aluno o procurou, ninguém quis voltar a ouvir as palavras que haviam julgado sábias. Como é que um pecador podia dissipar as suas dúvidas ou auxiliá-los na busca da Verdade?!
Ainda não tinha decorrido um ano, e a moça cheia de remorsos e sentimentos de culpa, confessou que o monge não era o pai da criança, mas antes um jovem da aldeia por quem se apaixonara, e que não quis incriminar com receio de represálias exercidas sobre o mesmo.
Os pais da moça e restantes habitantes da aldeia, arrependidos das acusações falsas que haviam proferido, foram penitenciar-se junto do monge, suplicando-lhe perdão, e que devolvesse a criança, por não ser sua filha.
- Assim seja, assim seja – respondeu o monge, retomando de imediato a meditação que interrompera.





O AMIGO DO AMIGO, DO AMIGO DO AMIGO DE NASRUDIN



Um amigo de Nasrudin foi visitá-lo e levou de presente um pato, que foi logo cozinhado para a ceia e compartilhado com o doador.
Dias depois começaram a chegar pessoas que Nasrudin não conhecia, dizendo cada um ser amigo do amigo que oferecera o pato, e assim iam sendo alimentados e hospedados.
Nasrudin indignou-se com tanta hipocrisia e descaramento.
Nisto, apareceu em sua casa mais um hóspede, dizendo ser amigo, de um amigo, do amigo que lhe trouxera o pato, aguardando que Nasrudin lhe servisse a ceia.
Este encheu uma malga de água quente e colocou-a à frente de tão abusadora visita.
- Desculpe, mas o que é que me está a servir – perguntou o forasteiro.
O Mullah respondeu:
- É a sopa da sopa, da sopa do pato que me foi oferecido há largos meses pelo meu amigo!




RECRIMINAÇÃO GRATUITA



Quando criança, eu era muito piedoso, extraordinariamente fiel às minhas orações.
Uma noite, velava com o meu pai e outras pessoas, tendo na mão o Alcorão.
A maior parte dessas pessoas começaram a dormir e alguma ressonavam de modo incomodativo.
Disse então a meu pai:
- Estão todos a dormir, já ninguém reza e parecem mortos.
O meu pai respondeu:
- Meu filho, prefiro mil vezes ver-te a ti também a dormir do que ouvir-te recriminar os outros.

Sa´di de Shiraz




NASRUDIN E A MORTE RACIONAL



Certo dia filosofava Nasrudin consigo mesmo, em voz alta:
- Vida e Morte... Quem sabe o que serão?
A mulher de Nasrudin encontrava-se num aposento contíguo e não conseguiu deixar de sorrir, exclamando:
- Homens, meu Deus, homens, todos parecidos, quase iguais, sem a menor réstia de espírito prático.
Qualquer um tem consciência de que quando os membros do corpo ficam frios e rijos, é sinal que o ser humano morreu.
Nasrudin ficou boquiaberto. Como era prática a sua esposa.
Os tempos passaram, e num dia de Inverno enquanto ia de um povoado para outro, tendo de percorrer algumas penosas milhas, num caminho atapetado de neve, sentiu as mãos e os pés ficarem completamente gelados e os membros a enrijecerem progressivamente.
Rememorando as sábias palavras da companheira, pensou:
“Estou morto. E estando morto não posso caminhar. Os mortos não caminham nem se mexem, ficam deitados e imóveis.”
De imediato, deitou-se imóvel em cima da neve, ficando cada vez mais gelado, mas sem que se mexesse, comportando-se como um morto.
Decorridas algumas horas passaram no caminho dois viajantes que o encontraram estendido na neve.
Depois de o observarem, começaram a discutir se estaria vivo ou morto. Nasrudin quis dizer-lhes que estava morto, mas os mortos nunca falam. Assim, manteve-se calado e imóvel.
Os viajantes já plenamente convencidos do decesso de Nasrudin levantaram-no e lá o foram carregando a muito custo para o cemitério mais próximo, até que encontraram uma encruzilhada sem que acordassem no caminho a seguir.
Um queria ir pelo da direita, enquanto que o outro pelo da esquerda, e assim se quedaram em acesa discussão.
Nasrudin exasperava e não se conteve:
- Ouçam meus bons amigos, a estrada pela qual me deveis conduzir ao cemitério é a da esquerda. É certo e sabido que os mortos não falam, por isso prometo-vos solenemente que só agora o faço e não o tornarei a repetir.





SALVAR O PEIXE DE MORRER AFOGADO



Na selva equatorial, junto a um rio, encontrava-se um grupo de macacos, do qual se destacava um pela sua constante atenção e dedicação aos outros.
Nisto, vendo um peixe debatendo-se nas areias da margem, correu em seu socorro e colocou-o em cima de dois galhos de uma árvore.
O chefe do grupo, macaco velho, questionou-o com espanto e reprovação:
- Que é que estás tu a fazer, macaquinho de Deus?
- Estou a salvar o peixe de morrer afogado – respondeu com os olhitos bem abertos e uma expressão de meiguice.





A VISÃO PERFEITA



Conta-se que Buda terá um dia mostrado aos seus discípulos uma flor extremamente bela, pedindo-lhes que dissessem algo a seu respeito.
Depois de a observarem em silêncio durante alguns minutos, um dissertou longamente sobre a sua beleza, comparando-a à Criação, outro compôs um poema e o terceiro uma parábola, cada um mais preocupado em agradar pela eloquência do que propriamente pela satisfação contemplativa.
Mahakashyap olhou-a, sorriu e não disse nada.
Apenas este a viu.





ILUMINAÇÃO E SIMPLICIDADE



O Mestre Zen no dia em que atingiu a iluminação não parava de dizer: 
- Fantástico, é magnífico. 
Corto lenha com o machado e tiro água do poço.






OS DISCÍPULOS DE CONFÚCIO



Confúcio tinha entre outros, quatro discípulos: Yen Hui, Tuan-Mu-Tzu, Chung Yu e Chuan-Sun.
Admitia que o primeiro o superava em franqueza, o segundo na resolução de questões e sua explanação, o terceiro em coragem e o quarto em dignidade.
Pu Shang, um outro dos seus discípulos, conhecendo as afirmações do mestre, perguntou-lhe:
- Qual é o motivo pelo qual Yen Hui, Tuan-Mu-Tzu, Chung Yu e Chan-Sun são teus discípulos, quando admites que te excedem manifestamente em qualidades fundamentais?
Confúcio respondeu com a tranquilidade que lhe era peculiar:
- Yen Hui sabe ser franco, mas não sabe como ceder; Tuan-Mu resolve bem os problemas que lhe são postos dissertando com acerto sobre praticamente todos os temas do conhecimento humano, mas é incapaz de dar uma simples resposta, como um sim ou um não; Chung Yu é corajoso, mas desconhece a acção cautelosa; Chuan-Sun tem dignidade, mas não é humilde.
Por isso, sentem todos necessidade de ser meus discípulos. 





quarta-feira, 7 de outubro de 2015

O PESO DA AMBIÇÃO



Numa ilha da Polinésia vivia um jovem pescador cujas qualidades e inteligência superavam em muito a de todos os outros habitantes e as dos comuns mortais. Tinha por hábito pescar apenas o essencial à sua sobrevivência, passando o resto dos seus dias deitado na praia, debaixo de um coqueiro, contemplando o mar azul, o suave movimento das ondas, ouvindo o marulhar e vendo o voo gracioso das aves, enquanto fumava prazenteiramente o seu cachimbo.
Nessa mesma ilha, vivia um missionário cristão, que consciente das imensas capacidades do jovem o questionou:
- Porque é que não vais pescar hoje?
- Porque por hoje já pesquei quanto baste – respondeu-lhe o jovem.
- Porque é que não pescas mais do que precisas, já que tens tempo disponível e arte para tanto? – retorquiu o missionário.
- E o que é que eu faria com o excedente?
- Ganharias mais dinheiro, meu bom amigo!
- E depois?
- Com tal dinheiro podias comprar um bom motor para colocar no teu bote, o que te permitiria pescar mais longe, onde o peixe abunda.
- E depois? – voltou o jovem pescador.
- Com esse dinheiro, poderias comprar redes e com essas redes ganharias muito mais dinheiro.
- E depois?
- Depois, com esse dinheiro, poderias comprar um barco novo, apetrechado para o mar alto, onde o peixe é grande e valioso.
- E depois?
- Poderias comprar com os lucros um novo barco e assim sucessivamente, até que fosses proprietário de uma gigantesca frota, o que faria de ti um homem muito rico.
- E depois de tudo isso, o que faria? – insistiu o tranquilo pescador.
- Depois descansavas, já que não precisavas de trabalhar mais e poderias gozar plenamente a vida - finalizou enfaticamente o missionário.
- Mas afinal, para quê tanto trabalho, para fazer o que já faço hoje - respondeu o pescador. 





A VIUVEZ DE NASRUDIN



A mulher de Nasrudin jazia agonizante no seu leito.
Este tentava consolá-la minimizando o seu sofrimento. As suas palavras eram dóceis e de esperança e seus olhos brilhantes de lágrimas sorriam enganadoramente.
Nisto, a companheira disse-lhe numa voz débil:
- Estou convicta de que esta será a minha última noite contigo. A minha partida está eminente, já não verei a aurora.
Como é que vais aceitar a minha morte?
- Vou dar em maluco, mulher – respondeu Nasrudin.
Apesar do sofrimento atroz, a dedicada e fiel esposa não conseguiu deixar de esboçar um sorriso, dizendo:
- És um bom malandro. Não me enganas Nasrudin, conheço-te como às minhas mãos. Não passará um mês sobre a minha morte, que não estejas casado de novo.
- Que dizes mulher?! – exasperou-se o pobre Nasrudin –, enlouquecerei mas não tanto assim!





DA INUTILIDADE DOS LIVROS SAGRADOS



Conta-se que um erudito foi visitar Buda, dizendo-lhe após breve apresentação:
- Permita meu bom Senhor que vos diga: grande parte do que pregais não está nos Livros Sagrados.
- Então transcreva-o – respondeu Buda.
O erudito, um pouco nervoso e intimidado, encheu-se de coragem e disse:
- Parecerá pouco gentil da minha parte, mas bom Senhor, julgo que alguns desses ensinamentos serão mesmo contrários às Escrituras.
- Então corrija-as – disse.





AS ENFERMIDADES CULTURAIS



Conheço alguém que atingiu um nível avançado de consciência e que começou por estudar teologia. 
A teologia consiste em especulações sobre matérias inacessíveis até agora ao conhecimento definido, tal como a filosofia, mas apela de preferência à autoridade, quer da tradição quer da revelação, ao invés desta, que apela fundamentalmente para a razão. A teologia induz a crer dogmaticamente que temos conhecimento onde realmente só temos ignorância, e assim produz uma espécie de impertinente arrogância em relação ao universo. 
Na sequência da licenciatura veio a doutorar-se e quando o referiu a um jovem filósofo nosso amigo, este questionou-o com uma doce ironia: - Que espécie de enfermidade é essa? 
Sendo certo que as questões de maior interesse para espíritos especulativos raro têm resposta científica, o teólogo, talvez desiludido com um limitativo dogmatismo, dedicou-se à filosofia. Estruturando-se esta num acto fundamental de liberdade frente à tradição, ao costume e a toda a crença, parecia-lhe propiciar uma busca mais condizente com a Verdade que durante toda a sua vida vinha prosseguindo. Mas, com o tempo, entendeu que a actividade mental é limitada, porquanto o nosso cérebro não se desenvolveu de forma a transcender o tempo-espaço. Estruturando-se na memória, nunca é totalmente novo e em consequência não é integralmente livre. 
Afinal, a filosofia baseava-se em palavras e conceitos para penetrar uma Realidade susceptível apenas à mente não conceptualizada. 

Tinha substituído uma enfermidade maior por uma outra menor.
Esta curou-a com recurso às parábolas e ao silêncio.





O QUE HÁ PARA ALÉM DA MORTE?



Uma simples mulher perguntou ao Mestre Zen de um famoso templo:
- Meu muito amado filho faleceu. Ajuda-me, diz-me para onde foi?
- Não sei! - respondeu, e pensou para si:
- Se não consigo responder à questão última, que faço então aqui?
Abandonou de imediato o cargo e isolou-se nas montanhas para meditar.





KAKUA - O PRIMEIRO JAPONÊS A ESTUDAR ZEN NA CHINA



Conta-se que Kakua foi o primeiro japonês a estudar Zen na China, mas dele nada se sabe – nem é reconhecido como o Mestre que levou o Zen para o Japão –, apenas uma nota musical, conforme a história que se segue.
Kakua viveu na China numa remota montanha, depois de ter aprendido os ensinamentos Zen. Sempre que alguém o procurava, sussurrava algumas palavras e desaparecia para outro lugar, onde fosse mais difícil encontrá-lo.
Quando regressou ao Japão, o Imperador teve conhecimento da sua iluminação Zen e solicitou que este o doutrinasse e aos seus súbditos mais eloquentes.
Levaram-no até ao palácio imperial, e vasta audiência aguardava ansiosa a sua prelecção. 
Kakua entrou na sala do trono e manteve-se em silêncio durante algum tempo. Depois, retirou do seu manto uma flauta de bambu e tocou uma única nota, inclinou-se reverencialmente e desapareceu.






O GRANDE LOUCO



O filho de Yamamoto Yasuo, que se apelidou a si mesmo de Grande Louco, adorava brincar com crianças, dizendo:
- Gosto da sua ingenuidade, da sua ausência de falsidade.
Costumava ainda dizer:
“Há três coisas que aborreço profundamente: a poesia dos poetas, a escrita dos escritores e a cozinha dos cozinheiros.” 









GAZANE - LIMITA-TE A ADORMECER



Gazane estava junto do seu Mestre quando este estava para morrer. Gazane já estava indigitado como seu sucessor.
O templo havia ardido e Gazane estava empenhado e absorvido na sua reconstrução.
O Mestre agonizante perguntou-lhe:
- Planeias algo, para quando a reconstrução estiver terminada?
- Sim, quero que profiras os teus ensinamentos para todos nós - respondeu Gazane.
- Supõe que a minha vida termina antes da reconstrução ter findado.
- Teremos de arranjar outro Mestre.
- E se não encontrares nenhum Mestre à altura?
Com a voz alterada, Gazane disse então:
-Pára de fazer perguntas absolutamente idiotas. Limita-te a adormecer.





O CAMINHO MAIS FÁCIL



Num dia ensolarado, Nasrudin estava ajoelhado na berma da estrada poeirenta, perto da ombreira da sua porta, concentrado na procura de algo.
Um vizinho que passava questionou-o:
- O que é que o Mullah perdeu?
- As minhas chaves – respondeu Nasrudin.
O vizinho auxiliou-o na busca, e outros homens que passavam foram-se juntando, vasculhando em conjunto, metro a metro, palmo a palmo, as imediações da entrada da casa de Nasrudin. 
Decorrido que foi algum tempo, sem quaisquer resultados, perguntou-lhe o vizinho:
- Tem a certeza meu bom amigo, de que foi aqui que perdeu as suas chaves?
- Não, vizinho. Perdia-as em minha casa – respondeu o Mullah.
- Por Alá, estamos a perder o nosso tempo. Porque é então que as procuramos aqui? 
- Porque cá fora há muito mais luz – disse Nasrudin com ar sério e convicto da sua razão.






MESTRE OU PALHAÇO?



O Mestre não era pomposo; de modo nenhum. Era apenas um homem simples, com um sentido de humor estranho e desconcertante.
O riso hilariante e desenfreado instalava-se sempre que falava, para consternação dos que pensavam levar a sério a espiritualidade.
Um visitante disse decepcionado:
- O homem é um palhaço!
- Não, não – retorquiu um discípulo. 
- O Senhor entendeu mal: o palhaço faz com que se ria dele. O Mestre faz com que se ria de si mesmo.





QUEM TIVER OUVIDOS PARA OUVIR QUE OIÇA



Um jovem perguntou ao Sage:
- Porque é que te recusas a ensinar muitos dos que te procuram?
- Porque se trata de gente que não é suficientemente séria, porque não quer ser ensinada, mas antes um milagre que lhes destrua o sofrimento sem ter que percorrer o penoso caminho da cura.
E terminou a resposta com as palavras de Confúcio:
- Não ensinar um homem maduro é um desperdício do homem. Ensinar um homem ainda não maduro é um desperdício de palavras.





O SENTIDO DAS HISTÓRIAS



Disse um discípulo ao Sage:
- Contas-nos muitas histórias, ensinas-nos por intermédio de parábolas, mas não nos dás qualquer indício revelador do seu significado. Como é que queres que os teus ensinamentos entrem profundamente nos nossos corações e transformem as nossas estreitas mentes?
O Sage tinha uma maçã nas mãos. Olhou-a com a leveza e maciez que lhe era peculiar, e com um sorriso breve e discreto, respondeu:
- Gostarias que te oferecesse esta maçã depois de a ter mastigado e extraído todo o seu suco?





MUDAR OU NÃO MUDAR O MUNDO



Um Sufi de nome Bayazid, afirmou que durante a sua adolescência pedira insistentemente a Deus nas suas orações, que lhe desse a força necessária para transformar o mundo. 
Os anos foram passando e homem feito apercebeu-se da inexistência de qualquer mudança, em qualquer indivíduo. 
Mudou a oração, pedindo ao Senhor que lhe concedesse a graça de modificar os que o rodeavam, familiares, amigos, e quem sabe, alguns conhecidos. 
Já velho, com a morte à espreita, sem que o seu esforço tivesse produzido frutos relevantes, alterou uma vez mais a oração: pediu a graça da transformação pessoal.

Se o tivesse feito desde o início, não teria desperdiçado a maior parte da sua vida, como desperdiçou.





A ILUMINAÇÃO



- Que significa ser iluminado? – questionou o discípulo.    
- Ver – respondeu o Mestre.     
- Ver o quê? 
- A banalidade do êxito, o vácuo das realizações, o nada do esforço humano.
O discípulo ficou consternado:
- Mas isso não é derrotismo e desesperança?
- Não. É o arrebatamento e a liberdade da águia a planar sobre uma ravina impenetrável.