HISTÓRIAS DE ESPIRITUALIDADE

HISTÓRIAS DE ESPIRITUALIDADE
A SABEDORIA DOS MESTRES

domingo, 18 de outubro de 2015

O SOM DE UMA MÃO A BATER PALMAS (KOAN ZEN) - MESTRE SUIVO



A Suivo, que tinha sido discípulo de Hakuin, dirigiu-se um discípulo para que o ensinasse.
Suivo destinou-lhe o Koan: ouvir o som de uma mão a bater palmas.
Após três anos de intensa meditação, o discípulo nada conseguira. Foi conversar com o Mestre, dizendo-se desiludido e com vontade de desistir. Este aconselhou-o a meditar com convicção mais uma semana, e depois, uma outra.
Quando o discípulo perseverava definitivamente em desistir, Suivo disse:
- Medita durante três dias. Se não alcançares a iluminação, aconselho-te que te suicides.
No segundo dia atingiu o satori.




HÁ TRÊS TIPOS DE MENDIGOS - MESTRE GETTAN



Gettan disse:
“Há três tipos de mendicantes. Em primeiro lugar estão os que ensinam os outros. Em segundo estão os que mantêm os santuários. Em terceiro vêm os sacos de arroz e os cabides para os fatos. Os descendentes do fundador Zen deviam levar para o seu santuário uma consciência total e ensinar os outros a perpetuar a vida de sabedoria dos Budas. Quanto àqueles que não passam de sacos de arroz e cabides para fatos, esses são criminosos no Budismo.”




RESSUSCITAR OS MORTOS - ISA E O NOME SECRETO



Isa caminhava no deserto próximo de Jerusalém com um grupo de pessoas nas quais a cobiça ainda estava muito enraizada. Iam instando a Isa que lhes revelasse o Nome Secreto com que ressuscitava os mortos.
Isa disse-lhes:
- Não estais preparados, se vos disser fareis mau uso desse poder.
Os acompanhantes não lhe davam tréguas, e um disse:
- Isa, a revelação do nome, apenas fortificará a nossa fé.
- Desconhecem o perigo do Nome... – disse-lhes Isa.
Mas, mesmo assim, depois de muitas insistências revelou-o.
Pouco tempo havia decorrido, quando aquelas pessoas, na posse de tão poderosa sabedoria, encontraram debaixo de uma árvore um monte de ossos descarnados.
- Testemos o Nome Secreto - disseram.
Mal o Nome foi pronunciado, os ossos cobriram-se de carne e fizeram reviver um animal feroz que os destroçou de imediato.




PARÁBOLA DAS DEZ VIRGENS



O Reino dos Céus será semelhante a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo. Ora, cinco delas eram levianas e cinco sensatas. As levianas, ao tomarem as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo, enquanto as sensatas, com as suas lâmpadas, levaram azeite nas almotolias. Como o esposo se demorasse, começaram a dormitar e adormeceram. À meia-noite ouviu-se um brado: “Aí vem o esposo, ide ao seu encontro!” Despertaram, então, todas aquelas virgens e aprontaram as lâmpadas. As levianas disseram às sensatas: “Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas estão a apagar-se.” Mas as sensatas responderam: “Não, talvez não chegue para nós e para vós; ide, antes, aos que o vendem e comprai-o para vós.” Mas, enquanto foram comprá-lo, chegou o esposo e as que estavam prontas, entraram com ele para a sala das núpcias, e fechou-se a porta. Mais tarde, chegaram as outras virgens e disseram: “Senhor, senhor, abre-nos a porta.” Mas ele respondeu: “Em verdade vos digo: Não vos conheço.”
Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora.

Mt. 25, 1-13




POEMA DE MESTRE TAIGU



O Mestre Taigu viveu durante algum tempo nas montanhas. 
Dessa permanência nasceu um poema:

“Fim dos problemas citadinos,
Fim das controvérsias do julgamento:
No Outono eu varro
As folhas junto ao regato,
Na Primavera escuto
Os pássaros nas árvores.
A Primavera chega ao mundo humano
Com vasta e grande bondade;
Cada rebento de flor,
Um Buda.
Inconsciente, a neve
Derreteu toda –
Inumeráveis formas desabrocham
Em concerto, como uma só.”




PARÁBOLA DOS VINHATEIROS



Jesus pôs-se a falar-lhes em parábolas:
“Um homem plantou uma vinha, cercou-a de uma sebe, cavou nela um lagar e construiu uma torre. Depois arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe. Na altura própria, enviou aos vinhateiros um servo, para receber deles parte dos frutos da vinha. Eles, porém, prenderam-no, bateram-lhe e mandaram-no com as mãos vazias. Enviou-lhes, novamente, outro servo. Também a este partiram a cabeça e cobriram de vexames. Enviou outro, e a este mataram-no; mandou ainda muitos outros, e eles bateram nuns e mataram outros. Restando-lhe ainda alguém, o filho muito amado, enviou-o por último, pensando: “Hão-de respeitar o meu filho.” Mas os vinhateiros disseram uns para os outros: “Este é o herdeiro. Vamos matá-lo e a herança será nossa.” E apoderaram-se dele, mataram-no e lançaram-no fora da vinha. Que fará o dono da vinha? Regressará e exterminará os vinhateiros e, depois, entregará a vinha a outros. Não lestes esta passagem da Escritura: 
“A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular.
Tudo isto é obra do Senhor e é admirável aos nossos olhos?”

Eles procuravam prendê-lo, mas temiam a multidão; tinham percebido perfeitamente que a parábola fora dita para os atingir. Deixando-O, retiraram-se.

Mc. 12, 1-12




NASRUDIN MORIBUNDO



Nasrudin quedava agonizante. Pensava-se que iria morrer. Sua esposa chorava. Os discípulos estavam consternados.
O Mullah aparentava calma imperturbável.
Um dos presentes disse:
- Como é possível que estejas tão calmo, tu que te aprestas para deixar o mundo, quando todos nós estamos atormentados?
Nasrudin sorriu e respondeu:
- Estou certo que o Anjo da Morte vendo vossas expressões e desespero um de vós por erro levará, deixando-me por cá uns anos mais.




DA PRIMAVERA NINGUÉM RECLAMA



Um filósofo caseiro especulava no salão de chá:
- Estranha esta humanidade. Insatisfeita e volúvel. Quando está frio reclama. Reclama do Verão e do Inverno.
Enquanto todos aquiesciam, disse Nasrudin absorto e abstraído:
- Ninguém reclama da Primavera.




NASRUDIN JUIZ - PARECE-ME QUE TEM RAZÃO



Nasrudin foi nomeado juiz.
Apresentado o primeiro processo, durante o julgamento o queixoso foi tão persuasivo que o fez exclamar:
- Parece-me que tem razão!
O velho escrivão
Experiente e diligente, com respeito e consideração,
segredou ao Mullah:
- Excelência, por favor contenha-se. Ainda não ouvimos o arguido.
Ouvido este, tão persuasivo quanto o outro disse Nasrudin:
- Penso que a razão está do seu lado!
O escrivão não se conteve:
- Excelência, pode lá a razão a ambos assistir?!
- Parece-me que você tem razão - respondeu o Mullah.




NASRUDIN E A GORJETA



Foi Nasrudin ao banho turco. Pela sua aparência, deram-lhe os empregados lenço velho e toalha desgastada.
Nasrudin nada disse, não esboçou qualquer reclamação e deixou choruda gratificação.
Decorrida uma semana voltou.
Tratamento principesco, primoroso e cuidado.
Quando saiu parca gorjeta deixou.
- Mas, Senhor - questionaram os empregados -, porquê tão pobre presente por serviço tão esmerado?
Nasrudin respondeu:
- Esta gorjeta é a da passada semana e a dessa a de hoje.
Consideremo-nos pois pagos.




PARECES SER TU...



Na praça da aldeia recitava Nasrudin poesia, concentrado e enlevado:
- Ó minha amada, o meu interior está tão repleto de ti, que tudo o que se apresenta à minha visão pareces ser tu.
Um jovem chistoso perguntou:
- E se um imbecil ou tolo se apresentar à tua visão?
Nasrudin continuou:
- Pareces ser tu.




O VALOR DO SILÊNCIO



Andando no mercado viu o Mullah vender pássaros. Cada um por cem moedas.
Pensou: “O meu maior que todos esses será muito mais valioso, muito mais vale.”
Eis que no dia seguinte carregou ao mercado gorda galinha, animal de grande estimação.
Mas ninguém, instado ou não, lhe ofereceu mais de cinco moedas.
O Mullah furioso gritava em tom indignado:
- Isto é terrível, uma humilhação! Ontem os vossos pássaros, metade do meu, valiam dez vezes mais.
Nisto alguém replicou:
- Nasrudin eram papagaios, pássaros que falam. Porque falam o valem, e quanto mais falam, mais valem.
- Idiotas, ignorantes, asnos, valorizais os que falam e esqueceis os pensamentos maravilhosos do meu que não incomoda com conversa fiada nem horrorosos discursos.




A VISÃO NOCTURNA - NASRUDIN



- Eu vejo no escuro como os pássaros da noite - elogiava-se Nasrudin.
-Se assim é, como afirmas, porque é que pelas ruas por vezes te vejo transportando uma lamparina?
- Tento evitar que outros em mim esbarrem.





O SÁBIO MUDO



O Mestre não falava; praticamente nada dizia. Era conhecido como o “Sábio Mudo”. Os seus ensinamentos eram transmitidos através da paz, do seu olhar compassivo e do silêncio purificador.
Um discípulo, que racionalizava todas as questões, pleno de conhecimento discursivo, amante da lógica e da dialéctica, interpelou-o:
- Nunca respondes às minhas questões. Não me elucidas quanto aos mistérios existenciais, à essência do Ser e do Não-Ser, da vida e da morte. Qual o motivo que te leva a recusares-me o teu auxílio?
O Mestre manteve-se silencioso durante alguns minutos, até que por fim, retirando uma agulha de coser do bolso do manto, disse:
- Quero que coloques uma gota de água na ponta desta agulha.
- Mas isso é impossível, não te entendo.
O Mestre disse:
- Muito mais impossibilitado estás, de entender com o pensamento limitado pelo espaço e pelo tempo, o que está muito para além dele, o ilimitado, o incomensurável. Leva esta agulha contigo, pendura-a ao pescoço, e sempre que as dúvidas te assolarem lembra-te que é mais difícil atingir os mistérios do teu espírito do que pôr uma gota de água na ponta da agulha.
O discípulo ficou constrangido.
Volveu o Mestre:
- Não te sintas comprometido com as tuas concepções. Há muitas décadas, também o meu Mestre me entregou esta agulha, que transportei num fio ao pescoço durante muitos anos.




O QUE É O BEM E A SABEDORIA? - CONFÚCIO



O discípulo perguntou:
- Que é o bem?
O Mestre disse:
- Ama as pessoas.
O discípulo perguntou:
- O que é a sabedoria?
O Mestre disse:
- Conhece as pessoas.

Confúcio




CONSCIÊNCIA CONSTANTE - DEIXAR A PORTA ABERTA PARA A VERDADE



O discípulo questionou o Mestre:
- Como é que nos podemos proteger?
O Mestre respondeu:
- Evitando tudo o que é ignóbil.
- Como é que o conseguimos? - volveu.
- Evita todo o esbanjamento que não produza qualquer fruto - disse o Mestre.
- Qual a atitude de evitamento de tal situação?
O Mestre finalizou:
- Usa a atenção constante. Com ela, atingirás a profundidade da mente e daí obterás a tranquilidade, a paz, e quem sabe, se deixares a porta aberta, a própria Verdade.




DEVO POR IMEDIATAMENTE EM PRÁTICA O QUE APRENDO?!



Tseu-lu perguntou:
- Devo por em prática de imediato o que aprendo?
O Mestre respondeu:
- Os teus pais e irmão mais velho estão vivos, porque não os vais consultar antes de agires?
Jan-Jeu perguntou:
- Devo por imediatamente em prática o que aprendo?
O Mestre respondeu:
- Põe-no em prática imediatamente.
Kong-si Hua disse:
- À pergunta de Tseu-lu, vós dissestes: os teus pais e irmão mais velho estão vivos, vai primeiramente consultá-los. À mesma pergunta de Jan-Jeu respondestes: põe imediatamente em prática o que aprendeste. Isso deixa-me perplexo. Com a vossa licença, peço-vos que me expliqueis as vossas palavras.
O Mestre disse:
- Jan-Jeu é lento a decidir e retardatário; julguei de todo conveniente incitá-lo à acção. Tseu-lu é impetuoso; por essa simples razão o travei.

Confúcio




O SONHO DE NASRUDIN



Nasrudin regalava-se sonhando que alguém lhe estava dando nove belas peças de ouro.
Pediu-lhe uma mais para dez completar.
Nisto acordou e olhando a mão vazia sem que visse moeda alguma, fechou os olhos e disse:
- Tudo bem. Traz-me de novo o dinheiro, que eu aceito nove.




COMO CONTROLAR O DESEJO



Houve uma festa. Estavam presentes todos os discípulos do Mullah.
Horas e horas a comer e beber, conversando sobre a origem do Universo, o sentido da vida, o destino da humanidade.
O Sol estava prestes a nascer e ensonados preparavam-se para voltar a casa.
Em cima da mesa um prato de doces.
Nasrudin obrigou-os a comer.
Um recusou dizendo aos outros:
- O Mestre experimenta-nos. Quer ter a certeza de que controlamos nossos desejos.
Nasrudin ouviu.
- Enganas-te. A melhor forma de controlar o desejo é satisfazê-lo. Prefiro os doces nos vossos estômagos do que no vosso pensamento.
Este deve ser usado para mais nobre intento.




NASRUDIN CONTRABANDISTA DE BURROS



Com constância atravessava Nasrudin a fronteira entre a Pérsia e a Grécia.
Montado num jumento, ladeando a besta, dois cestos cheios de palha.
Voltava sem nada e a pé.
Sempre que ia, procurava contrabando, ora a Guarda Fiscal, ora a polícia local.
Mas nada...
- O que é que transportas Nasrudin?
- Sou contrabandista - respondia a sorrir.

Passaram anos, Nasrudin próspero encontrou no Egipto um dos guardas da fronteira.
- Diz-me agora Mullah, longe da Grécia e da Pérsia, sem que preso possas ser: Que mercadoria transportavas? Nunca conseguimos perceber.
- Burros - respondeu a sorrir.




NASRUDIN E O VINAGRE DE QUARENTA ANOS



- É verdade Mullah que tem vinagre de quarenta anos? Ouvi dizer…
- É.
- Dá-me um pouco dessa preciosidade?
- Nem pense. Poderia o vinagre quarenta anos ter se eu o andasse por aí a oferecer?




O FILHO DE BUDA



Um grande amigo de Buda, tendo enviuvado, casou-se em segundas núpcias.
A sua serva mais antiga, não se conformava com o facto de ver a sua amada senhora substituída, recusando-se a aceitá-la, e em nada colaborando. Pensava assim, guardar o respeito devido à imagem da falecida, que tanto estimava.
Perante tal incómodo, e na impossibilidade moral de despedir uma serva a quem muito queria pela devoção que sempre havia tido para com a família que servia, pediu a Buda que a chamasse à razão, mas este nada conseguiu.
O Senhor Buda disse ao amigo:
- Não consegui demover a tua serva, não quis ouvir as minhas palavras, os meus argumentos. No entanto, vou pedir a meu filho que a demova, estou certo de que o ouvirá.
E, foi o jovem filho de Buda, que a convenceu a aceitar a segunda esposa.




O HOMEM FOI CRIADO POR DEUS PARA OS MOSQUITOS?



Houve um grande banquete na casa do homem mais rico da aldeia, que também era reconhecido como um aplicado estudioso das Escrituras.
Começaram a ser servidos peixes magníficos.
O anfitrião disse:
- Graças aos desígnios de Deus, que criou os animais para o homem, podemos deliciar-nos com este manjar.
- O segundo prato era de carnes variadas. O anfitrião repetiu o que já havia afirmado anteriormente, com a plena anuência dos convivas.
No entanto, seu filho de dez anos disse:
- Não posso concordar com nada do que o meu pai diz e todos vós aceitais. Não é verdade que Deus tenha criado os animais para nosso prazer. O que é que fazem os mosquitos? Não se alimentam do nosso sangue? E por isso, será que podemos dizer que fomos criados para os mosquitos?




QUEM DÁ É QUE DEVE EXPRIMIR GRATIDÃO



Um comerciante da vila de um Mestre, face às necessidades deste em construir uma escola, decidiu doar-lhe mil moedas.
Levou o saco até ao mosteiro e entregou-o ao Mestre, que disse:
- Certo. Aceito o teu dinheiro.
- Mas, toma atenção, são mil moedas...
- Já o tinhas dito.
- Na verdade, sou um comerciante com posses acima da média, mas mil moedas são grande quantia.
- Entendo, queres que te agradeça o teu gesto?
- Penso que devias.
- Enganas-te, quem dá é que deve ficar grato pela doação realizada - respondeu o Mestre.




A MAIS TERRÍVEL DAS MISÉRIAS - IBRAHIM IBN ADHAM



Ibrahim Ibn Adham foi um príncipe que renunciou ao seu reino. Dirigiu-se à Síria para levar uma vida de ascetismo, e começou a ganhar a sua vida como jardineiro.
Um dia, um homem tentou ofertar-lhe mil dinares.
- Não aceito nada de mendigos - disse.
- Mas, eu sou rico - disse o doador.
- Queres ter mais do que já possuis?
- Claro que quero - disse o homem rico.
- Então, leva contigo o teu dinheiro, és o chefe dos mendigos. Direi mais: isto já não é mendicidade, é a mais terrível das misérias.




SEM FAVORES



Existiu um Mestre que abandonou templos e mosteiros para viver debaixo de uma ponte, com mendigos e vagabundos.
Estando velho, um seu amigo ensinou-o a fazer vinagre a partir do arroz; assim poderia ganhar a vida sem mendigar. Deixou o relento e conseguiu arrendar um pequeno quarto.
Certo dia um mendigo ofereceu-lhe uma imagem de Buda. Pendurou-o no seu exíguo aposento e ao lado uma inscrição:
“Sr. Buda. Este quartinho é bastante estreito e pequeno. Posso deixá-lo ficar transitoriamente, mas não pense em momento algum, que estou a pedir-lhe que me deixe renascer no seu paraíso.”




MOISÉS E ALÁ



Falava Moisés com Alá, quando lhe pareceu ouvir uma voz que dizia:
- Moisés protege o que procura refúgio. 
Saiu da sua contemplação e ouviu uma pomba:
- Socorro, auxilia-me Moisés.
Moisés abriu a túnica da sua manga, e a pomba escondeu-se nela.
Pouco tempo havia decorrido, quando apareceu uma poderosa águia.
Disse:
- Tens contigo, algo que me pertence. Quero que me entregues a pomba que tens escondida na manga do teu manto.
- Alá ordenou-me que desse refúgio aos que buscam e necessitam de abrigo - e dito isto, Moisés preparava-se para retirar com uma faca um pedaço da sua coxa.
Disse-lhe a águia:
- Não sabes que me está vedado comer a carne dos profetas? Que eu jurei nunca a comer?
Começou então, a voar em círculos por cima do Profeta. A pomba pediu a Moisés que a deixasse partir. Moisés advertiu-a:
- A águia sobrevoa-me. Se partires, caçar-te-á.
- Aquele que deu a sua palavra não a tomará de volta e assim saberá mantê-la - disse-lhe a pomba.
Moisés soltou a pomba, e as duas aves juntas sobrevoavam-no.
Uma voz disse:
- A águia é Gabriel, e a pomba Miguel. Eles vieram ver se sabes manter a tua palavra.




O EQUILÍBRIO QUASE PERFEITO



Um jovem monge era o responsável pelos cuidados a prestar no jardim de um célebre mosteiro Zen.
Aguardava-se uma visita importante. O jardim foi limpo, as plantas podadas, nada foi descurado.
O monge jardineiro, vendo que se aproximava um dos monges mais idosos e experientes, perguntou a sua opinião. Este, sem nada responder, aproximou-se de uma árvore de folha caduca e balançou-a de modo a que muitas das suas folhas se espalharam pelo jardim.
- Agora sim, o equilíbrio é quase perfeito – disse.




PARÁBOLA DO BOM PASTOR



Em, verdade, em verdade vos digo que aquele que não entra pela porta, no curral das ovelhas, mas sobe por outra parte, é ladrão e salteador. Aquele que entra pela porta, é o pastor das ovelhas. A este o porteiro abre e as ovelhas ouvem a sua voz; e chama pelo nome as suas ovelhas, e leva-as para fora. E depois de fazer sair todas as ovelhas, vai diante delas e as ovelhas seguem-no, porque conhecem a sua voz. Mas não seguirão um estranho, antes fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos.

João 10, 1-5




A ILUMINAÇÃO ZEN OBTIDA NUM TALHO



Um estudioso do Zen passeava-se no mercado, quando ouviu uma conversa entre um cliente e um talhante.
- Dá-me a melhor peça de carne que tiveres, hoje tenho convidados especiais.
- Tudo o que tenho no meu talho é o melhor que pode haver, não encontrarás aqui nenhum pedaço de carne melhor do que outro.
Ao escutar estas palavras, obteve a iluminação.




PARÁBOLA DOS SERVOS AGUARDANDO O SENHOR



Vigiai, pois, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor.
Ficai sabendo isto: Se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a casa. Por isso, estai vós também preparados, porque o Filho do Homem virá na hora em que menos pensardes.

Mt. 24, 42-44




PARÁBOLA DO GRÃO DE MOSTARDA



O Reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e semeou no seu campo. É a mais pequena de todas as sementes, mas, depois de crescer, torna-se a maior planta do horto, e transforma-se numa árvore, ao ponto de virem as aves do céu abrigar-se nos seus ramos.

Mt. 13, 31-32




ENSINAR O SIGNIFICADO DO BUDISMO



- Ensina-me o significado do Budismo? – pediu o discípulo.
- Vem comigo até aos jardins, logo to mostrarei.
- Estou ansioso, Senhor, mostra-mo.
- Vês o bosque de bambus? Atenta como aquele é alto e como este é baixo.




ÉS MUDO OU PAPAGAIO?



Um monge acercou-se do Mestre e perguntou:
- Qual o nome que podemos dar a uma pessoa que entende a Verdade, mas não a consegue explicar por palavras?
Respondeu:
- Um mudo comendo mel.
- E a uma pessoa que nada sabe sobre a Verdade, mas fala sempre dela?
- Um papagaio repetindo as palavras que ouve.


A mudez doce como o mel.
A premente necessidade de dizer muito em poucas palavras...
De tudo dizer em silêncio.

Qual o som de uma mão a bater palmas?
Koan Zen




PARÁBOLA DO JOIO



O Reino dos Céus é comparável a um homem que semeou boa semente no seu campo. Ora, enquanto dormiam os homens, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo, e afastou-se. Quando a haste cresceu e deu fruto, apareceu também o joio. Os servos do dono da casa foram ter com ele e disseram-lhe:
“Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem, pois, o joio?”
Foi algum inimigo meu que fez isto – respondeu ele.
Disseram-lhe os servos:
“Queres que vamos arrancá-lo?”
“Não”, disse ele, “não suceda que, ao apanhardes o joio, arranqueis o trigo, ao mesmo tempo. Deixai um e outro crescer juntos, até à ceifa; e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros: Apanhai primeiro o joio e atai-o em feixes para ser queimado; e recolhei o trigo no meu celeiro.”

Mt. 13, 24-30

EXPLICAÇÃO DA PARÁBOLA

Afastando-Se, então, das multidões, foi para casa; e os Seus discípulos, aproximando-Se d´Ele, disseram-Lhe:
“Explica-nos a parábola do joio no campo.”
Ele, respondendo, disse-lhes:
“Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem; o campo é o mundo, a boa semente são os filhos do reino; o joio são os filhos do maligno, e o inimigo que a semeou, é o diabo. A ceifa é o fim do mundo e os ceifeiros são os anjos. Assim, pois, como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será no fim do mundo. O Filho do Homem enviará os seus anjos, que hão-de tirar do Seu reino todos os escandalosos e todos quantos praticam a iniquidade, e lançá-los-ão na fornalha ardente; ali haverá choro e ranger de dentes. Então os justos resplandecerão como o Sol, no Reino do seu Pai.
Aquele que tem ouvidos, que oiça.”

Mt. 13, 36-43




A INSOLÊNCIA DO MENDIGO - A HUMILDADE DO HOMEM PIEDOSO



Um mendigo conhecido pela sua insolência, pediu esmola a homem temente a Alá, tido por muito piedoso.
Como este não tivesse dinheiro disponível em sua casa, veio o mendigo para a rua insultando-o, e cada novo insulto era pior que o antecedente.
Informado do que o pedinte dissera a seu respeito, comentou o caluniado:
- Está certo. Esse homem apenas se referiu a algumas, talvez poucas, das minhas péssimas qualidades, de meus defeitos.
As minhas faltas são em muito maior número do que aquelas que me apontou. Vivo há mais de setenta anos e ele apenas me conhece há um ano.
Do que eu, só o Santíssimo conhece melhor meus defeitos.
Atribuiu-me, pois, muito poucos. Assim, se no dia do Juízo for chamado a testemunhar contra mim, serei um homem feliz.




PARÁBOLA DO SEMEADOR



“Naquele dia, Jesus saiu de casa e sentou-Se à beira-mar. Reuniu-se a Ele uma tão grande multidão, que teve de subir para um barco e sentar-Se, enquanto toda a multidão se conservava na praia.
Falou-lhes de muitas coisas em parábolas, dizendo:
“O semeador saiu para semear. Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho, e vieram as aves e comeram-nas. Outras caíram em sítios pedregosos, onde não havia muita terra, e logo brotaram, porque a terra era pouco profunda; mas, assim que o sol se ergueu, foram queimadas e desprovidas de raízes, secaram. Outras caíram entre espinhos, e os espinhos cresceram e sufocaram-nas. Outras caíram em terra boa e deram fruto: Umas cem; outras, sessenta; e outras trinta.
Aquele que tiver ouvidos oiça.”

Mt 13, 1-9

EXPLICAÇÃO DA PARÁBOLA

“Escutai, pois, a parábola do semeador.
Quando um homem ouve a palavra do Reino e não compreende, chega o maligno e apodera-se do que foi semeado no seu coração. Este é o que recebeu a semente à beira do caminho.
Aquele que recebeu a semente em sítios pedregosos, é o que ouve a palavra, e a acolhe, de momento com alegria, mas não tem raiz em si mesmo, é inconstante: Se vier a tribulação ou a perseguição por causa da palavra, sucumbe logo.
Aquele que recebeu a semente entre espinhos, é o que ouve a palavra; mas os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza sufocam a palavra, que assim, não produz fruto.
E aquele que recebeu a semente em boa terra, é o que ouve a palavra e a compreende. Esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta.”

Mt. 13, 18-23





MOSTRE-ME O CAMINHO - MESTRE JOSHU



Um monge viu Joshu a limpar prazenteiramente o pátio do mosteiro.
- Mestre mostre-me o caminho.
Joshu continuou a sua tarefa, e respondeu:
- Depois da cerca encontras o caminho.
- Mas, não é esse o caminho a que me refiro.
- A qual te referes tu, criatura?
- Ao Grande Caminho...
Disse Joshu, sorrindo:
- Ah, entendo, o grande caminho, esse é na direcção do Norte e tem por destino a capital - e continuou a executar as suas tarefas imperturbável.




A CALÚNIA NÃO AUMENTA A DIGNIDADE DO CALUNIADOR



Um homem sábio disse a um caluniador:
- Nunca calunies ninguém de forma a que eu oiça, para que não pense mal de ti. Não te esqueças de que se a tua dignidade sai diminuída, a tua honra não irá aumentar como consequência disso.




sexta-feira, 16 de outubro de 2015

NOBUNAGA - CARA OU COROA?



Um general japonês decidiu-se a atacar o inimigo não obstante contasse este dez vezes mais soldados, bem equipados e treinados.
Um para dez, tarefa aparentemente impossível.
Os soldados estavam apreensivos e apavorados.
Enquanto deslocava as tropas para o campo de batalha parou num templo Xintó, dizendo:
- Vou entrar para orar. Quando sair arremessarei esta moeda ao ar. Se sair “cara”, venceremos. Se sair “coroa”, seremos derrotados.
Decorridos alguns minutos surgiu na frente dos homens perfilados e arremessou a moeda ao ar. Segurou-a na queda e exibiu a “cara”.
Os soldados modificaram o semblante, instalando-se a confiança e o desejo súbito de combater.
A batalha foi cruel e os homens de Nobunaga venceram pela coragem e determinação.
Quando findou, disse-lhe o seu lugar-tenente:
- Grande Nobunaga, ninguém muda a mão do destino.
- Tens razão.
E dito isto, exibiu uma moeda com duas “caras” impressas.  




SILÊNCIO E UM DEDO APONTANDO O CAMINHO - O ZEN NUM POEMA



Um mestre Zen compôs o seguinte poema para os seus discípulos:

“Quando curiosamente te perguntarem buscando saber o que é Aquilo,
Não deves afirmar ou negar nada,
Pois, o que quer que seja afirmado não é a verdade,
E o que quer que seja negado não é verdadeiro.
Como é que alguém poderá dizer com certeza o que Aquilo possa ser
Enquanto por si mesmo não tiver compreendido plenamente o que É?
E, após tê-lo compreendido,
Que palavra deve ser enviada
De uma região onde a carruagem da palavra
Não encontra um trilho por onde possa seguir?
Portanto, aos seus questionamentos
Oferece-lhes apenas o silêncio:
Silêncio e um dedo apontando o caminho.”





NASRUDIN - O PRESENTE IDEAL PARA O REI



Nasrudin colheu abóboras na horta para as oferecer ao rei. Um amigo, de brincadeira, disse-lhe para levar antes figos, sabendo que o rei nem ver os podia.
Assim o fez o Mullah.
Junto de sua Alteza entregou-lhe o presente.
Este vermelho de raiva, um a um lhos atirou à cabeça.
A cada arremesso Nasrudin levantava as mãos ao céu, dizendo:
- Abençoado Alá, obrigado.
O rei intrigado perguntou:
- Que agradeces tu, tolo?
- Ó meu Senhor, agradeço ter trazido figos e não abóboras.




NASRUDIN E O ESPELHO DAS ÁGUAS



Nasrudin passeava com um discípulo quando pela primeira vez viu fantástica paisagem reflectida na superfície das águas calmas.
Árvores de folhas multicolores, flores de pétalas rosadas, tons ocre da terra salpicados pelo cinza das pedras e pelo intenso azul do céu.
- Maravilha das maravilhas - disse. Mas se ao menos, se pelo menos... - continuou.
- Se ao menos Mestre?! - questionou o aluno.
- Se ao menos não houvesse água no lago!




NASRUDIN E A DIETA DO BURRO



Nasrudin comprou um burro na feira.
Um amigo deu-lhe instruções quanto à quantidade de ração do quadrúpede.
- Demais - pensou. Vou habituá-lo a cada vez menos comer. Diminuir a ração até que se acostume.
Quando já quase nada comia morreu o jumento.
- Que lamento, que pena. Com um pouco mais de tempo viveria com certeza sem alimento - disse para si mesmo.




A LUA É DE MAIOR UTILIDADE QUE O SOL...



Nasrudin entrou na casa de chá.
Olhou os presentes e exclamou:
- A Lua é de maior utilidade que o Sol.
Interrogaram-se os ouvintes. Seria verdade tal asseveração?
Até que o questionaram:
- Porquê, Mullah?
- Ora, necessitamos de mais luz à noite do que de dia. Não é evidente?





NASRUDIN NAS COMPRAS



Entrou Nasrudin numa loja para comprar umas calças.
Bem vistas as coisas, mudou de opinião, tendo escolhido um manto.
Pegou-o e saiu da loja prazenteiramente.
- Nasrudin esqueceu-se de pagar - bradou o vendedor.
- Espere, não precisa gritar. Não ficaram as calças que custam o mesmo que o manto?
- Mas, também as não pagou...
- E deveria? Onde já se viu pagar o que não quero comprar?




A QUEDA DO MANTO DE NASRUDIN



Eis um estrondo nos fundos da casa.
- Que se passa? – gritou a mulher de Nasrudin, que saiu correndo da cozinha.
Nisto dirige-se para o quarto.
Diz o Mullah:
- Que espanto mulher. Estou aqui, não estou lá. Desnecessária preocupação. Foi tão-somente meu manto que caiu no chão.
- Por amor de Deus Nasrudin, como fez tanto barulho assim?
- Tem razão. Eu estava dentro dele.





TER OU NÃO NECESSIDADE DE AMIGOS - A NATUREZA DA AMIZADE



Um dos discípulos mais antigos do Mestre, quando este dissertava sobre os inevitáveis relacionamentos a que o ser humano está sujeito, perguntou-lhe:
- Então porque é que não lhe conhecemos amigos?
Respondeu com um sorriso:
- A amizade transformou-se num contrato repleto de cláusulas obrigacionais bilaterais, de expectativas que negam de modo total a essência da afeição. Esta, tal como o amor, não é susceptível de contratualização.
O aluno insistiu:
- Pensa o senhor que não temos necessidade de amigos, da amizade?
Depende – respondeu o Mestre. 
- Os tolos não a sabem usar, e os que atingiram a sabedoria dela não necessitam, bastam-se a si próprios.
- E isso não é egocentrismo? – replicou outro dos alunos.
- Não, é indiferença afectiva total e gratuita derramada sobre a totalidade da vida.