HISTÓRIAS DE ESPIRITUALIDADE

HISTÓRIAS DE ESPIRITUALIDADE
A SABEDORIA DOS MESTRES

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A ORIGEM DA SABEDORIA DE NASRUDIN



- Mullah, de onde vem toda a sua sabedoria?
- Falando muito, falando sempre. Digo tudo o que me vem à cabeça. Quando a expressão dos ouvintes é de espanto e respeito, eu sei: acertei.
Anoto então mentalmente o que disse nessa precisa ocasião.





A IDADE DE NASRUDIN



- Quantos anos tem, Mullah?
- Quarenta.
- Mas há dois anos Quando lhe perguntei o Senhor também tinha quarenta.
- Tem razão. Sustento sempre o que digo. Nunca me contradigo.




NASRUDIN - PODE UM HOMEM VELHO TER UM FILHO?



Perguntaram ao Mullah:
- Pode um homem velho, Digamos de cem anos, ter um filho?
- Pode. Desde que tenha a cumplicidade de uma jovem com uns vinte anos – respondeu Nasrudin.




O MONGE DA TÚNICA DE PEDRA



Houve um monge que vivia perto do templo do Mestre Hakuin, a quem visitava de quando em vez. Ninguém sabe o seu verdadeiro nome. Chamavam-lhe o Monge da Túnica de Pedra.
Não possuía nada, nem mesmo uma túnica.
Diz-se, que nas noites gélidas de Inverno, andava no seu casebre para trás e para a frente, transportando uma pedra, até que conseguisse aquecer. Daí, o seu nome.
Desapareceu. Ninguém sabe onde faleceu, mas estranhamente, a pedra ainda se encontra em frente do local onde existiu a choupana.




SALVAR-SE DE MORRER AFOGADO SEM ESFORÇO



Um bêbado caiu nas águas caudalosas de um rio, aproximando-se rapidamente de cascata mortífera.
As pessoas na margem gritavam e já aguardavam o pior dos desfechos. Mas, miraculosamente, numa curva do rio o homem deu à margem, salvando-se.
Entre os observadores estava um Mestre, a quem perguntaram:
- Como é que se salvou, sem que qualquer esforço tenha feito?
- Acomodou-se docilidade à água. Não lutou desesperadamente com ela. Sem pensar, permitiu que a água o envolvesse. Mergulhando na corrente, conseguiu sair da corrente, e assim sobreviveu.




SODZANE - QUAL É A COISA QUE TEM MAIS VALOR NO MUNDO?



Um discípulo perguntou a Sodzane:
- Qual é a coisa mais valiosa do mundo?
- A cabeça de um gato.
- Porquê, Mestre?
- Porque ninguém está em condições de lhe atribuir um preço.




O QUE É O EGOÍSMO?



Um eminente homem de Estado perguntou a um Mestre Zen:
- Face ao Budismo, o que é o egoísmo?
O Mestre respondeu-lhe em tom afrontoso, parecendo alterado:
- Que pergunta estúpida é essa?!
O homem de Estado alterou o seu semblante, e irado, disse:
- Como ousa tratar-me assim, nunca fui tão despeitado?
O Mestre sorriu e disse:
- Isto, eminência, é egoísmo...




O PROFESSOR DE CANTO E O ALUNO KOSHIJI



Um estudante de canto foi ensinado por exigente e rígido professor, que durante anos insistiu na prática da mesma récita.
Frustrado, o jovem, abandonou os estudos.
Certo dia, na vila em que habitava, realizou-se um concurso de canto. Sem grande convicção, inscreveu-se, tendo obtido com distinção, o primeiro lugar.
O júri questionou-o:
- Quem o ensinou? Que mestre de perfeição deve ter tido para que cante tão maravilhosamente?!
De nada serviram as humildes explicações do jovem cantor, nenhum principiante cantaria assim.
Anos mais tarde, ficou conhecido como o grande cantor Koshiji.





BODHIDHARMA E O IMPERADOR WU



Bodhidharma foi conduzido à presença do Imperador WU.
Este perguntou:
- Qual é o Primeiro Princípio, o Santo Dharma?
- Um vasto Vazio, sem nada santo dentro dele - respondeu.
O Imperador devoto, ficou furioso:
- Quem és tu, para ficares perto de mim, como se fosses sábio?
- Não sei, Majestade.


Como eras antes dos teus pais te terem concebido?
Koan Zen





A LUZ DA VERDADE - O ESTUDANTE DE TENDAI E MESTRE GAZANE



Um estudante de Tendai – escola filosófica do Budismo – fez-se discípulo de Gazane.
Anos depois, quando estava para partir, disse-lhe o Mestre:
- Estudar especulativamente a verdade é bastante útil, tendo em vista a pregação. Mas, se não meditares com constância, crê, a tua luz da verdade apagar-se-á.




A MORTE DE MESTRE BANKEI - O SINCERO



Quando Bankei morreu, um homem cego que residia perto do templo disse:
“Desde que ceguei, não vejo mais o rosto das pessoas, de modo que as avalio pelo tom da sua voz, pelas inúmeras flutuações da mesma. É certo, que desaparecido um sentido, todos os outros se apuram. Em regra, quando oiço as pessoas felicitarem outros pelos seus êxitos, oiço também em segredo o tom da inveja. Quando oiço as pessoas expressarem as condolências pelos infortúnios dos outros, oiço os tons do prazer e da satisfação. Contudo, nunca a voz de Bankei deixou de ser sincera: sempre que exprimia alegria e felicidade, era alegria e felicidade que eu ouvia, e quando exprimia dor e pena, era dor e pena que também ouvia.”





O ZEN - PALAVRAS DE KYOGEN



Kyogen disse:
“Zen, é como um homem pendurado num alto galho de árvore pelos dentes, sobre um precipício. As suas mãos não podem alcançar o galho, os seus pés não se podem apoiar num outro ramo.
Um homem sob a árvore, pergunta-lhe:
Qual o motivo pelo qual Bodhidharma veio da Índia para a China?
Se o homem na árvore não responder, falha; se o fizer, cairá e perderá a vida.
Assim, pergunto-vos: 
Que deve este homem fazer?”





NASRUDIN E O FILÓSOFO



Um filósofo marcou debate com Nasrudin. À hora determinada não encontrou Nasrudin em casa.
Furioso e num ímpeto, com um pedaço de carvão escreveu no portão:
“Imbecil”.
O Mullah ao chegar correu de imediato a casa do filósofo.
- Mil desculpas pelo sucedido. Tal não volta a acontecer. Relembrei nosso compromisso quando seu nome vi escrito no portal de meu quintal – disse Nasrudin.





ORAÇÃO PARA TER UM BURRO



Nasrudin desejava ardentemente um burrico que o auxiliasse nas suas árduas tarefas.
Sem meios para o adquirir orou insistentemente para que Deus o ajudasse.
Decorrido algum tempo, deparou-se com um homem montado num burro com um outro burrico pequeno atrás.
Quando passava por Nasrudin, disse:
- Vergonhoso. Eu, meu burro e burrico estamos esgotados e o senhor completamente descansado nesse lazer, sem nada fazer.
Nisto, ameaçou-o com a espada obrigando-o a carregar o burrico às costas, transportando-o para a cidade mais próxima.
Caminharam por várias horas sem que Nasrudin exausto, por medo se manifestasse.
Chegados ao destino, descarregado o fardo, seguiu o homem sua carreira.
O Mullah ergueu os olhos ao céu e disse:
- Que assim seja Senhor. Aprendi a lição com enorme suadeira.
De hoje em diante mais específico e concreto serei
Quando oração vos fizer.




DEITAR CEDO E CEDO ERGUER DÁ SAÚDE E FAZ CRESCER?



O pai de Nasrudin aconselhava-o:
- Levante-se cedo de manhã. Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer.
- Porquê meu pai?
- É um bom hábito e bom conselho.
Olhe, certo dia levantei-me eu ainda o Sol não nascera e para meu espanto deparei-me com uma bolsa cheia de moedas, ouro do bom, ouro de lei.
- Mas, meu pai, não a terão perdido na noite anterior?
- Não meu filho, não estava lá. Eu bem reparei. Passei por lá na noite anterior a horas tardias.
- Então nem sempre será de tino ou siso, cedo erguer. É porventura gratuito penhor.
Quem a bolsa perdeu e liso ficou levantou-se mais cedo que o Senhor – disse Nasrudin.




NASRUDIN - E SE O MUNDO SE DESEQUILIBRASSE?



Certo dia perguntaram ao Mullah:
- Quando amanhece cada um vai para seu lado: Uns para cá, outros para lá. 
Uns para a eira, outros para a fábrica, outros para a baía e alguns para a estação.
Porque será?
Respondeu:
- Se todos fossem na mesma direcção, certamente, o mundo desequilibrava-se, tropeçava e caía.




NASRUDIN E A REALIDADE TAL QUAL ELA É



Um aluno do Mullah perguntou:
- Qual o maior empreendimento: O do homem que conquistou um império, o do que o poderia ter feito mas não o fez, ou daquele que evitou que outro o fizesse?
-Disso nada sei - respondeu Nasrudin.
- Mas há um empreendimento bem mais árduo e dificultoso que qualquer desses.
- Qual é? - volveu o discípulo.
- Ensiná-lo a ver a realidade tal qual ela é.




quinta-feira, 15 de outubro de 2015

SER IGUAL AOS MORTOS - INDIFERENTE AOS INSULTOS E AOS ELOGIOS



Um Mestre apenas tinha um discípulo. Este ouvia-o atentamente, mas tinha uma natural dificuldade em pôr em prática os ensinamentos adquiridos.
Um dia, o Mestre disse:
- Irmãozinho, vai ao cemitério da aldeia e grita aos mortos todos os elogios que te ocorrerem. Vamos, vai.
O discípulo retornou depois de ter cumprido o que lhe havia sido ordenado, e o Mestre questionou-o:
- Qual foi a reacção dos mortos aos teus elogios? Quais as suas respostas?
- Nada disseram, bom Mestre, rigorosamente nada. Havia um silêncio total que em momento algum se quebrou, depois de lhes ter tecido os maiores elogios.
- Assim sendo, quero que voltes ao cemitério. Mas, desta vez, insulta-os. Não te intimides, insulta-os com as palavras mais injuriosas que conheceres.
Assim o fez. O Mestre perguntou:
- Qual a resposta dos mortos?
- Nenhuma - respondeu o discípulo.
- Aprende a lição. Deves ser igual aos mortos, tão indiferente aos elogios quanto aos insultos.




NASRUDIN - LEITE DE VACA OU DE OVELHA?



Nasrudin, transportando um copo, dirigiu-se ao leiteiro da cidade.
Disse:
- Serve-me um litro de leite de vaca.
- Estás louco, Nasrudin?! Neste copo não cabe nem meio litro de leite de vaca.
Volveu Nasrudin:
- Nesse caso, prescindo do leite de vaca. Deita-me um litro de leite de ovelha.




A SALVAÇÃO DO JUDEU - ABAIXO O CZAR



Na Rússia, um judeu caiu a um rio e debatia-se nas águas atabalhoadamente, por não saber nadar. Entretanto, gritava para que o acudissem.
Alguns soldados do czar ouviram o seu pedido de socorro.
Um deles, perguntou-lhe:
- És judeu?
- Sou - respondeu o homem em aflição mortal.
- Então bem mereces afogar-te!
O judeu bradou:
- Abaixo o czar, abaixo o czar!
De imediato um dos soldados atirou-se às águas, salvando-o. Já em terra firme, foi-lhe dada voz de prisão por ofensa ao regime e ao seu mais elevado representante.




OS DESEJOS DO MESTRE - CONFÚCIO



Certo dia, Yen Yuan e Tseu-lu estavam junto do Mestre, que lhes disse:
- Que cada um de vós exponha os seus desejos mais ardentes.
Tseu-lu disse:
- Gostaria de ter carros, cavalos e peliças para partilhar com os meus amigos. E mesmo que eles me tornassem tais objectos impróprios para uso não ficaria desgostoso ou despeitado.
Yen-Yuan disse:
- O meu ideal é nunca me vangloriar das qualidades que me são atribuídas e nunca tornar públicas as boas acções que pratico.
Tseu-lu disse:
- E a este propósito, eu desejaria muito saber quais seriam os desejos do Mestre?
O Mestre disse:
- Eis o que eu desejo para mim: que eu poupe de preocupações os velhos; que seja fiel aos meus amigos; e que possa tratar com simpatia e afeição os jovens.







UMA ÚNICA LIÇÃO PARA ENRIQUECER



Um jovem judeu querendo iniciar a sua vida comercial, pediu ao pai que lhe desse os conselhos necessários ao almejado enriquecimento. Este, que estranhamente não tinha grande aptidão para negócios, remeteu-o a um amigo bastante rico para que o instruísse. 
Na presença do comerciante rico, disse o jovem candidato:
- Peço-lhe mil perdões, mas poderá V.Ex.ª contar-me o segredo do seu êxito, ou seja, qual o exemplo que deverei seguir para obter fortuna?
- Com prazer, meu jovem, por teu pai e por ti mesmo, filho desse meu grande amigo. Não é uma história curta, que se possa resumir em poucos minutos, por isso, senta-te.
A noite prometia ser longa.
Após uma breve pausa, acrescentou:
- Vejo que não te preparas para tirar quaisquer notas. Assim sendo, apaguemos a luz. É supérfluo e desnecessário o gasto de electricidade.
O jovem levantou-se e disse:
- Meu bom Senhor acabo de compreender a chave do vosso êxito. Tenho todas as respostas. Assim, se me permitis, ausentar-me-ei.




SER OU DEIXAR DE SER NASRUDIN



Certo dia, perguntaram a Nasrudin:
- Qual é a tua orelha esquerda?
Nasrudin elevou o braço direito que passou por cima da cabeça e fez tocar na orelha, dizendo:
- É esta, está aqui.
- Nasrudin, porque o mostras de forma tão insólita? Não seria mais fácil mostrar a orelha esquerda movimentando o braço e a mão esquerda?
- Claro, certamente que sim, mas se o fizer como dizes deixarei de ser Nasrudin.




A OFERENDA AO PRIMEIRO ANTEPASSADO - CONFÚCIO



Alguém perguntou:
- Que significa a oferenda ao Primeiro Antepassado?
Confúcio respondeu:
- Ignoro a resposta a dar a essa pergunta. Aquele que a conhecesse governaria o Império com tanta facilidade quanto a deste movimento – ao falar, estendia o seu dedo indicador da mão esquerda para a palma da mão direita.




INTACTO ATÉ À MORTE



Quando o Mestre caiu gravemente doente chamou os seus discípulos e disse-lhes:
- Descobri os meus pés e os meus braços, pois lê-se nas Odes:

Horrorizado e a tremer,
Como se estivesse na borda de uma voragem profunda,
Como se apoiasse o pé sobre uma fina camada de gelo.

Isso me basta, é tudo quanto me basta, meus filhos. Constato agora, que apesar de todos os perigos me preservei intacto até aqui.




AVAREZA E PRODIGALIDADE - MÃO FECHADA E MÃO ABERTA



Um dos ouvintes do Mestre foi ao mosteiro, queixando-se da avareza de sua mulher.
O Mestre optou por falar com ela. 
Chegado a sua casa, exibiu o punho fechado.
- Que queres dizer com esse gesto? - perguntou a mulher.
- Supõe que o meu punho passe a estar sempre assim. O que lhe chamarias?
- Uma deformidade ou aleijão, suponho.
Abriu de seguida a mão, e questionou-a:
- E se estiver sempre assim?
- Um outro tipo de deformidade, mas obviamente uma deformidade.
- Se o compreendes, compreenderás todo o resto... - disse o Mestre.




PARÁBOLA DOS TRABALHADORES DA VINHA - OS ÚLTIMOS SERÃO OS PRIMEIROS E OS PRIMEIROS SERÃO OS ÚLTIMOS



Com efeito o Reino dos Céus é semelhante a um proprietário que saiu ao romper da manhã, a fim de contratar trabalhadores para a sua vinha.
Ajustou com eles um denário por dia e enviou-os para a sua vinha.
Saiu depois, pela terceira hora, viu outros que estavam na praça, ociosos, e disse-lhes: “Ide vós também para a minha vinha e tereis o salário que for justo.”
Saiu de novo pela hora sexta, e pela hora nona, e fez o mesmo. Saindo pela hora undécima, encontrou ainda outros que ali estavam e disse-lhes: “Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?” - É que – responderam –, ninguém nos contratou. Ele disse-lhes: “Ide vós também para a minha vinha.” 
Ao entardecer, o dono da vinha disse ao capataz: “Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, começando pelos últimos até aos primeiros.” Vieram os da hora undécima e receberam um denário cada um. Vieram, por seu turno, os primeiros e julgaram que iam receber mais, mas receberam, também um denário cada um. Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo: “Estes últimos só trabalharam uma hora, e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o cansaço do dia e o seu calor. Respondeu a um deles: “Em nada te prejudico, meu amigo. Não foi um denário que nós ajustámos? Leva, pois, o que te cabe e segue o teu caminho. Apraz-me dar a este último tanto como a ti. Não me será permitido dispor dos meus bens como me aprouver? Ou tu hás-de ter maus olhos por eu ser bom?”
Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos. Porque muitos são chamados e poucos escolhidos.

Mt. 20, 1-16





A MORTE DA MONJA ESHUN



A monja Eshun, por volta dos sessenta anos, estando prestes a abandonar o mundo dos vivos pediu aos seus companheiros que amontoassem lenha no pátio.
Sentando-se erecta no centro da pira, ordenou que ateassem o fogo nos bordos.
- Irmã - disse um dos monges que assistia -, está quente?
- Um problema como esse, só pode apoquentar um estúpido, e logo terias de ser tu! - respondeu a monja.
Mal as chamas se altearam na direcção do céu, faleceu serena.




O DERVIXE E O PROFESSOR DE GRAMÁTICA



Numa noite escura como breu um dervixe passava junto de um poço, quando ouviu um pedido de socorro. Pareceu-lhe vir a voz do poço. Debruçou-se e perguntou:
- Esta aí alguém?
- Está. Sou professor de gramática, e por desconhecer estas terras acabei por cair neste poço donde não consigo sair.
- Guenta amigo aí. Vou corda buscar e ti puxarei.
- Um momento, quer a sua gramática quer a sua pronúncia são profundamente incorrectas, terá toda a conveniência em proceder às necessárias correcções.
O dervixe respondeu:
- Bom, bom, se isso importante, fique aí assim você onde está inté que eu tenha aprindido a falar cum eligância...





O QUE ESTÁ LONGE E O QUE ESTÁ PERTO



- Mestre, vede a lua tão clara, tão bela nos céus!
- Sim, está longe, mas bela.
- Auxilie-me, quero elevar-me até junto dela.
- Porquê, será que ela não vem até ti?




PARÁBOLA DO GRANDE BANQUETE



Certo homem ia dar um grande banquete e fez muitos convites. À hora do banquete, mandou o seu criado dizer aos convidados: “Vinde, já está tudo pronto.” Mas todos, unanimemente, começaram a esquivar-se. O primeiro disse: “Comprei um terreno e preciso de ir vê-lo; peço-te que me dispenses. Outro disse: “Comprei cinco juntas de bois e tenho de ir experimentá-las; peço-te que me dispenses.” E outro disse: “Casei-me e, por isso, não posso ir.” O criado regressou e comunicou isto ao seu senhor. Então, o dono da casa, irritado, disse ao criado: “Sai imediatamente às praças e às ruas da cidade e traz para aqui os pobres, os estropiados, os cegos e os coxos.” O criado voltou e disse-lhe: “Senhor, está feito o que determinaste, e ainda há lugar.” E o senhor disse ao criado: “Sai pelos caminhos e cercados e obriga-os a entrar, para que a minha casa fique cheia. Pois digo-vos que nenhum daqueles que foram convidados, provará da minha ceia.”

Lc. 14, 16-24 





RENASCER NO INFERNO PARA ENSINAR O DHARMA



Um monge perguntou ao seu Mestre:
- Onde estareis dentro de cem anos?
- Renascerei como cavalo ou talvez como um burro.
Espantado, volveu:
- E depois disso?
- Renascerei no Inferno.
Intrigado e aturdido, disse o jovem monge:
- Mas, vós sois um sábio, um homem bom, no caminho da perfeição. Poderá tal ocorrer?
- Se eu não renascer nesse local, para ensinar o Dharma onde mais necessário é, quem o fará?




COMPREENDER OU NÃO O BUDISMO



Um monge perguntou ao Sexto Patriarca Zen:
- Quem herdou o espírito do Quinto Patriarca?
Aquele respondeu:
- O que compreende o Budismo.
- Então, fostes vós que o herdastes?
- Não, eu não, não compreendo o Budismo.





O SONHO DO MESTRE TAOÍSTA CHUANG TZU



O Mestre Taoísta Chuang Tzu sonhava que era uma borboleta. O sonho era perfeito, a sua liberdade total, perdera a individualidade.
Quando acordou, pensou para si:
“Fui um homem que sonhou ser borboleta, ou sou agora uma borboleta que sonha ser um homem?”




ABANDONA O NADA QUE CARREGAS - MESTRE CHAU-CHOU



Um monge muito jovem dirigiu-se ao Mestre Chao-chou, e com enorme alegria disse:
- Já nada tenho. Desfiz-me de tudo. O meu coração está apaziguado e a minha mente serena.
- Desfaz-te disso, então, e atingirás o Zen.
- Nada mais tenho, Mestre, de tudo me desfiz, de que me hei-de desfazer mais?!
- Se assim o queres, fica com esse Nada que carregas...





O MESTRE SEM MEDO



Numa das muitas guerras civis que assolaram o Japão feudal, um general tido por cruel e impiedoso estava às portas de uma cidade do interior.
Toda a população fugiu, à excepção de um Mestre Zen que vivia no templo.
Informado, quis o general conhecer tal homem. Estranhava o facto deste não se ter atemorizado como todos os outros.
Chegado ao templo, dirigiu-se-lhe de modo violento, dizendo:
- Seu asno! Não vês que estás perante poderoso guerreiro que te pode trucidar num piscar de olhos?
O Mestre, tranquilo, respondeu:
- E, será que o senhor compreende que se encontra perante um homem que pode ser trucidado em menos de um segundo?




O SENTIDO DE JUSTIÇA ZEN



No mosteiro, um dos monges mais novos, foi apanhado a furtar em flagrante delito.
O facto, por anómalo, foi narrado ao Mestre. Todos aguardavam a expulsão do infractor.
O Mestre limitou-se a ignorar o acontecimento. Os restantes discípulos, indignados, dirigiram-se-lhe ameaçando-o com o seu abandono do mosteiro, caso o delito não fosse devidamente punido.
Disse-lhes o Mestre:
“Pelos vistos, vós sois sábios, capazes de distinguir o bem do mal, o que está certo do que está errado. Podeis ir para qualquer outro lugar praticar o Zen, ou praticá-lo por vós mesmos, se assim o desejardes. Mas, o que será deste nosso pobre irmão, que não entende algo aparentemente tão simples como o certo e o errado? Quem o aceitará para o ensinar? Quem o ensinará se eu o não fizer? Parti se assim vos aprouver, mas este irmão fica. O meu dever para com ele é bem maior do que para todos vós.”




NADA HÁ QUE NÃO SEJA SANTO



Espalhou-se por toda uma região a existência de um homem santo, vivendo num pequeno casinhoto no alto da montanha.
Um habitante do lugarejo do sopé, curioso, encetou longa e penosa jornada para o ver.
Chegado ao casebre, deparou-se com um homem de aspecto envelhecido, longas barbas brancas e olhos brilhantes.
- Gostaria de ver e conversar um pouco com o homem santo - disse.
O velho, de aspecto simples, convidou-o a entrar. Percorreram a casa, com o visitante preocupado em divisar o dito santo. A casa, sendo pequena, foi percorrida num ápice e a visita viu-se novamente no exterior. Não se contendo, perguntou:
- Não vi o homem santo. Afinal, diz-me, onde o posso eu encontrar?
O velho respondeu:
- Já o viste, filho. Tudo o que encontras no caminho da tua curta existência, por muito insignificante que te possa parecer, é santo. Se agires assim, podes estar certo de que sejam quais forem os problemas e dúvidas que hoje carregaste para o cume desta montanha, serão solucionados, terão a sua resposta.
Não tendo mais nada para dizer, recolheu ao interior da sua acanhada morada.




O SATORI - LAVAR AS TIGELAS



Um iniciado perguntou ao Mestre Joshu:
- Mestre, o que é o satori?
- Já terminaste a tua refeição? - questionou Joshu.
- Terminei.
- Vai então, lavar as tuas tigelas! – respondeu.




PODEROSO É QUEM TEM O PODER DE CRIAR E NÃO DE MATAR



Um samurai considerando-se despeitado por um Mestre procurou-o com intenção de o matar.
Disse-lhe este:
- Antes que me mates, concede-me um desejo: corta com a tua espada aguçada um ramo desta árvore.
O samurai, com rapidez e inusitada destreza cortou um ramo da cerejeira.
Pediu-lhe o Mestre:
- Coloca o ramo de novo na árvore, para que possa florir no seu tempo.
- Estás louco, velho, isso é impossível.
- Não, jovem, o louco és tu, que te julgas poderoso por poderes com a tua arma e engenho ferir e matar quem te aprouver. Isso é pura brincadeira de crianças. Poderoso, verdadeiramente, é o que cria, o que cura.




A DIFERENÇA ENTRE O CÉU E O INFERNO



Certo dia, um homem sábio visitou o Inferno. Havia muita gente sentada em enorme mesa, repleta de iguarias. 
Mas, os banqueteados tinham feições deformadas pela fome. Apenas podiam comer com os paus que tinham nas mãos e estes eram tão longos, que se tornava impossível transportar o alimento à boca.
O sábio, deprimido com tal visão, deslocou-se para o Céu. Só que os rostos eram totalmente diferentes; alegria e felicidade pairavam no ar.
No céu, cada comensal, preocupava-se em alimentar o que à sua frente estava sentado.




quarta-feira, 14 de outubro de 2015

POEMEN E AGATÃO - APRENDER A DISCUTIR



Há muitos séculos atrás, viviam no deserto, homens dedicados à oração e à contemplação, comportando-se de modo humilde e praticando o silêncio. Chamavam-lhes os padres ou monges do deserto.
Dois deles, Poemen e Agatão, compartilharam durante largos anos a mesma cela sem que em momento algum se tivessem desavindo.
Um dia Poemen disse:
- Porque é que não discutimos como os outros por vezes fazem?
Agatão respondeu:
- Não vejo porque é que o não podemos fazer, mas existe um impedimento: não sei como discutir.
Poemen reflectiu, e após alguns instantes propôs:
- Vês este tijolo? Coloco-o entre nós, e digo: é meu. Tu dirás que é teu, assim se iniciando a discussão. Simples, não?
Conforme acordado, sentaram-se frente a frente, com o tijolo no meio dos dois.
Um afirmou:
- Este tijolo é meu.
Respondeu o outro:
- Não, o tijolo é meu, não é teu.
Volveu o primeiro:
- Certo, é teu, podes ficar com ele.





APRENDER COM OS MAL-EDUCADOS



A Luqman, o Sábio, perguntaram:
- De onde vem a tua gentileza, de quem aprendeste tão doces modos, tanta atitude louvável?
Respondeu:
- Dos mal-educados.
Evitei em todos os momentos tudo o que neles me parecia reprovável.





BÂYAZID - O VALOR DA TRISTEZA



Bâyazid terá dito:
“Sempre que a tristeza se apossar do teu coração, guarda-a religiosamente porque é com a baraka dessa tristeza que atingirás de modo certeiro o alvo.”





DOIS GRANDES MESTRES - A VERDADE OCULTA



Certo dia, um grande Mestre questionou um outro:
- Há algo, alguma verdade, que um sábio como vós tenha omitido?
Que nem sequer tenha ousado pronunciar?
- Há – respondeu o outro Mestre.
- Dizei-me então, o que tendes omitido durante a vossa longa e sábia vida.
Respondeu:
- Não é a Mente, não é Buda e não é a Matéria.




BÂYAZID AL-BISTAMI - OS DOIS TERÇOS



Um homem foi visitar Bâyazid al-Bistami, com um terço islâmico, que manuseava negligentemente.
- Vais necessitar de dois – disse-lhe. Com o primeiro contarás as tuas más acções, enquanto que com o segundo, as boas.





SÓ A MENTE SE MOVE



Dois homens olhavam uma pequena flâmula que se movia na brisa da tarde.
Um disse:
- Vê como o vento se move.
O outro: 
- É evidente que não, quem se move é a flâmula.
Um Mestre Zen ouviu a sua conversa e esclareceu-os:
- Nem o vento se move, nem a flâmula está ondulante. Quem se move é a mente.




MORRER POR GULA



Um santo homem que acompanhava alguns religiosos entrou em Bassorá num palmeiral de tâmaras.
Um dos religiosos era um comedor compulsivo, distinguindo-se pela gula. De imediato subiu a uma das tamareiras, mas pondo um pé em falso, estatelou-se no solo batendo com a cabeça numa pedra.
Teve morte imediata.
O governador da cidade, chamado ao local, perguntou:
- Quem matou este homem?
- Tranquiliza-te – respondeu o santo –, caiu de um dos ramos da árvore como consequência do peso do seu estômago.





SHAMS DE TABRIZ - A VONTADE DE ALÁ



Um derviche foi a uma loja e pediu que lhe dessem algo, qualquer coisa para satisfazer as suas necessidades básicas.
O lojista disse nada ter para lhe dar.
Shams de Tabriz perguntou-lhe:
- Porque não lhe deste alguma coisa, por pequena ou insignificante que fosse?
- Não estava destinado por Alá que tal acontecesse.
Volveu Tabriz:
- Alá destinou-o, mas tu não permitiste que acontecesse.
Se porventura pusesses a mão na caixa do dinheiro e esta ta tivesse prendido ou aleijado impossibilitando-te de colher o que pretendias, então poderias afirmar inegavelmente que Alá o não queria.





CARTA A UM DISCÍPULO MORIBUNDO - MESTRE BASSUI



Bassui escreveu a um dos seus discípulos que jazia moribundo no leito:
“A essência da tua mente não é nascida, assim nunca morrerá.
Não é uma existência, pelo que não é perecível.
Não é um vazio, o qual é mero vácuo.
Não tem cor nem forma.
Não desfruta prazeres, não sofre dores.
Sei que estás muito doente. Como bom praticante Zen encara firmemente a doença.
Podes não saber com exactidão quem sofre, mas pergunta a ti mesmo: Qual é a essência desta mente?
Pensa apenas nisto, de mais nada necessitarás.
Nada ambiciones ou desejes.
O teu findar é infinito, é como um floco de neve dissolvendo-se no ar puro.”





A MORTE DE MESTRE CHOITCHI



Choitchi era um Mestre Zen com apenas um olho, mas que emanava iluminação. Ensinava no templo de Tofucu.
De dia o templo estava em silêncio. Há noite o mesmo silêncio. Não se ouvia um único som, nem mesmo o da recitação dos sutras; meditava-se tão-somente.
No dia em que Choitchi abdicou do mundo dos vivos uma velha senhora ouviu os sinos tocar e os sutras a serem recitados.
Soube-se de imediato que Choitchi, o iluminado, nos abandonara.





QUEM SABE O QUE SABE CHUANG TZU?!



Chuang Tzu e um velho amigo caminhavam juntos na margem de um rio apreciando o movimento das águas e os esporádicos saltos de alguns peixes, confundindo os reflexos dos raios crepusculares.
- Veja – disse Chuang – os peixes nadam alegremente contra a corrente. Estão obviamente felizes e alegres.
- Mas o senhor não é um peixe. Como é que pode conhecer a sua felicidade? 
- E o senhor não é Chuang Tzu para saber que Chuang Tzu sabe ou não que os peixes estão alegres e felizes.





SHIBLÍ E NURI - MEDITAÇÃO PROFUNDA



Shiblí narra que visitou Nuri e o viu sentado em meditação profunda, sem que a mais ínfima parte do seu corpo se movimentasse.
Perguntou-lhe:
- Que maravilhoso método de meditação é esse? Quem to ensinou?
- Um gato prostrado em frente da toca de um rato e podes estar certo, de que a sua imobilidade era muito superior à minha – respondeu.





O TESTAMENTO DE MESTRE TOKUAN - A VIDA É APENAS UM SONHO



Mestre Tokuan agonizava no leito de morte. 
O dia despedia-se do Sol que descia levemente no horizonte.
Um discípulo abeirou-se e questionou-o de mansinho quanto ao seu testamento.
- Não tenho testamento – disse.
O discípulo insistiu:
- Nada para dizer, Senhor?
- A vida é apenas um sonho – respondeu. 
Nisto, expirou.





CORTAR AS CORDAS DE UMA HARPA - O SINAL DA MAIS PURA DAS AMIZADES



Em tempos remotos, na China viveram dois amigos.
Um era perito em tocar harpa. O outro perito em ouvir.
Quando o músico tocava invocando nas notas uma montanha, o ouvinte dizia:
- Consigo ver a montanha com as suas fragas.
Quando ao tocar invocava a água, exclamava o ouvinte:
- Vejo o rio a correr na direcção do mar!
O que ouvia adoeceu e morreu. O que tocava cortou as cordas da harpa e não mais voltou a tocar.

A partir desse momento, cortar as cordas de uma harpa é sinal da mais pura das amizades.